Paulo Liebert/Estadão
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Jogo ou treino?

Partidas do Campeonato Paulista são utilizadas como forma de preparação por times grandes

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

27 Janeiro 2019 | 04h00

Parece que finalmente foi encontrada uma forma de dar alguma utilidade ao velho e desmoralizado Campeonato Paulista: transformar seus jogos em treinos. De fato, não há nada mais parecido com um treino do que esses jogos iniciais do campeonato, particularmente os que envolvem equipes grandes contra pequenas.

As torcidas, de início, tomam treino por jogo e fazem barulho, iniciam seus bordões de incentivo e gritam como num jogo normal. Depois, pouco a pouco, vão percebendo que se trata de treino, calam-se e talvez fiquem se perguntando por que gastaram seu precioso dinheiro para ver um treino. Não duvido que um dia desses alguém se valha do Procon para pedir seu dinheiro de volta.

Não posso falar do São Paulo porque ainda não vi o time em ação, mas vi os outros e não sei como se explica uma volta em atividade de atletas tão fora de forma. Sei o que são férias, sei que se joga o ano todo, mas não é possível diferença tão grande entre o final de uma temporada e o começo de outra. Além do que as equipes se aproveitam do Campeonato Paulista para fazer testes.

Quem espera ver o melhor de uma equipe certamente não vai ver. Porque nenhum treinador sabe ainda o melhor time para colocar em campo. Nem mesmo do Palmeiras, considerado o elenco mais poderoso, pode se saber qual o time que vai a campo. Aliás, o Palmeiras me parece o mais atingido pela modorra dos jogadores, que parecem dispostos a permanecer longo tempo num ritmo de treino. Até Felipão dá a impressão de ter ganhado quilos demais para tão poucos dias parado.

O Corinthians e o Santos padecem de outras questões tampouco resolvidas. Os dois apresentam como maior atração seus treinadores, contratados como verdadeiros salvadores da pátria. O do Santos, Sampaoli, aliás, já deu uma bronca solene no elenco inteiro pela forma como se reapresentaram. Acho que nunca tinha visto isso porque, onde trabalhou até agora, não se tinha deparado com um torneio tão rebaixado como o Paulista.

Em outros tempos ninguém teria ousado se apresentar em campo dessa forma. O Paulista era levado a sério e todos os grandes estavam interessados em ganhá-lo. Agora é isso que vemos, e esse sentimento se expande entre os jogadores e mesmo a comissão técnica. Já que não vale nada, por que leva-lo a sério? É visível, por exemplo, a diferença entre esses jogos preguiçosos do Paulista em confronto com os jogos finais da Copa São Paulo de Futebol Junior.

Essa situação é ainda mais estranha porque impede de se fazer juízo correto sobre as outras equipes menores. Tomemos o exemplo do Guarani. Vi o Guarani jogar contra o Corinthians e não sei se é um time bom, razoável ou medíocre. A vitória do jeito que foi obtida mostrou muito mais a inadequação do Corinthians do que méritos reais do Guarani.

Para confirmar o verdadeiro estado do time de Campinas, é melhor observá-lo contra outra equipe média, mas que esteja jogando para valer, que tenha um time formado, bom ou ruim.

Em suma, acaba-se vendo um jogo que realmente não serve para nada, pois nas finais estarão todas as equipes grandes, não vale como espetáculo, não vale sequer para observar verdadeiras revelações.

Esse torneio, ainda chamado de Paulistão, infelizmente, é só um coadjuvante, uma atração secundária no circo do futebol, um aperitivo para outras competições, essas sim que virão com toda a força.

O Campeonato Paulista me lembra os antigos filmes em preto e branco dos programas duplos dos velhos cinemas. Nos tempos em que havia cinema nos bairros os programas eram duplos. Como preliminar havia um filme preto e branco, barato, olhado distraidamente pelas plateias à espera do filme principal, em cores, novo, com os grandes astros do momento. Ao Paulistão só resta o gasto e duvidoso charme dos desaparecidos filmes em preto e branco.

 

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