Rafael Ribeiro|CBF
Jonas disputa bola com Oscar no treino da seleção Rafael Ribeiro|CBF

Jonas troca a farmácia por gols e ganha nova oportunidade de Dunga

Atacante mostra insistência para conquistar chance na seleção

Daniel Batista, enviado especial a Teresópolis, O Estado de S. Paulo

23 de março de 2016 | 07h00

Por muito pouco, o maior artilheiro do futebol europeu poderia estar neste momento atrás do balcão de uma farmácia ou em algum laboratório, bem distante de um campo de futebol. Esse é Jonas, convocado para a seleção brasileira e líder na disputa pela Chuteira de Ouro, tendo uma história bem curiosa. Ao contrário de boa parte dos jogadores, ele não tem uma história triste e de grandes dificuldades na vida, mas sim, um roteiro de um filme onde a maior parte do roteiro é feito em cima de insistência.

Ídolo do Benfica e um dos personagens preferidos da imprensa portuguesa, Jonas volta para a seleção brasileira buscando espaço, embora tenha 31 anos. No último domingo, fez o gol da vitória de sua equipe sobre o Boavista e chegou a marca de 29 gols em campeonatos nacionais na temporada, empatado com Gonzalo Higuaín, do Napoli. Cristiano Ronaldo (28), Luis Suárez (26) e Robert Lewandowski (25) aparecem logo em seguida.

O atacante que já foi chamado de “O pior atacante do Mundo” pelo jornal espanhol Mundo Deportivo hoje é exemplo para quem chega ao clube. “Jonas é um jogador que se desmarca bem, tem experiência e com quem eu vou aprender muita coisa”, disse Raúl Jiménez, reforço mexicano contratado nesta temporada.

Como se já não bastasse tudo que tem feito em campo, Jonas ainda ganhou um aliado de peso para voltar a ser lembrado na seleção. "Sou fã do Jonas desde o tempo em que ele jogava no Santos. É um craque, que está em grande fase e jogadores do nível dele sempre têm lugar na seleção brasileira", disse Neymar, em entrevista ao jornal português A Bola

Embora tenha 31 anos, Jonas passou a maior parte da carreira tendo que se superar e sendo alvo da torcida do clube em que atuava. Mesmo assim, teve oito convocações e marcou dois gols, ambos em um amistoso contra o Egito. Até chegar a ser referência na Europa, Jonas passou por maus bocados.

Nascido em Bebedouro, por não ter maternidade em Taiúva (que fica 300km de distância de Campinas), cidade onde vivia sua família, o garoto de classe média jogava futebol com os amigos nas fazendas de café da região, sem saber ao certo se iria seria jogador de futebol ou farmacêutico.

Aos 13 anos, passou em um teste no Guarani, mas não quis mudar para Campinas, pois teria que ficar longe da família. Então, passou a ajudar o irmão, Diego, dono de uma farmácia, mas claramente não gostava do trabalho. O curioso é que Jonas chegou a entrar na faculdade de Farmácia e pressionado pela família, trancou o curso e, finalmente, resolveu lhe dar uma chance de fazer o que mais gostava, que era jogar futebol.

Com 19 anos, estreou como profissional no Guarani e já chamou a atenção, fazendo gols e salvando o Bugre do rebaixamento no Campeonato Paulista e na Série B do Brasileiro. O sucesso no interior fez o Santos apostar naquele garoto que parecia ser promissor.

Mas poucos jogos depois de ter estreado pelo time da Vila Belmiro, sofreu uma grave lesão no joelho e ficou seis meses parado. Quando voltou, não convenceu e passou a ser um dos alvos preferidos da torcida, deixando o clube pela porta dos fundos.

Mesmo sem ter mostrado muita coisa no Santos, o Grêmio apostou nele e em setembro de 2007 chegou ao time gaúcho e novamente decepcionou tanto que os dirigentes gremistas aceitaram liberá-lo de graça em julho de 2008 para a Portuguesa, onde ficou pouco tempo, mas conseguiu ter melhor desempenho, já que a pressão foi bem menor no Canindé.

Conseguiu ganhar mais um voto de confiança no Grêmio e virou notícia mundial em 2009, quando perdeu chances inacreditáveis de marcar contra o Boyacá Chicó, na Colômbia, pela Libertadores e o jornal espanhol Mundo Deportivo o chamou de "pior atacante do mundo". Desde então, a fama pegou e mesmo tendo alguns bons momentos no ano seguinte, não deixou de ser criticado pela torcida. No início de 2011 foi negociado com o Valencia por apenas R$ 2,8 milhões.

Parecia ser o início de uma nova fase na carreira do garoto do interior de São Paulo e novamente o retorno não foi o esperado. Deixou o clube espanhol tendo como grande feito, o fato de ter marcado o segundo gol mais rápido na história da Copa dos Campeões (10,96 segundos), na vitória por 3 a 1 do seu clube sobre o Bayer Leverkusen.

Até que surgiu o Benfica na frente do jogador e, finalmente, após muitas tentativas, o sucesso chegou. Hoje, o "pior atacante do mundo" é ídolo de uma torcida fanática e um dos melhores atacantes do mundo. Valeu a insistência.

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