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José Ely de Miranda

O grande Zito foi poupado de ver as cenas vexatórias do último Brasil x Colômbia

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

21 de junho de 2015 | 03h00

Felizmente Zito não viu o último Brasil x Colômbia. Morreu antes. O destino, o acaso ou Deustiveram a delicadeza de poupá-lo do espetáculo de um Brasil dando e revidando pontapés como uma equipe qualquer. No tempo de Zito o Brasil era perseguido por pontapés de toda espécie porque era impossível pará-lo de outro modo. Nos dias de hoje, as equipes brasileiras não são mais reconhecíveis à primeira vista.

Quem começa a ver um jogo já iniciado tem enorme dificuldade de distinguir uma equipe que já foi reconhecível ao primeiro toque e à primeira ginga. Não quero falar sobre isso. Quero falar de Zito, José Ely de Miranda. 

Dado o desprezo total no Brasil por arquivamento e conservação de imagens de qualquer tipo, o que temos de Zito é pouco, quase nada. Lances sempre repetidos, truncados, que se salvaram sabe-se lá como, e sabe-se lá por quem. É o nosso destino de país sem memória nem passado, como atesta a crise absurda, insensata e inexplicável a que foi atirada a Cinemateca Brasileira nos últimos três anos e que, só agora, dá sinais de uma difícil recuperação.

Desse modo, resta quase que só história oral e testemunho. De um lado, quem de Zito só tem informações precárias. De outro, os privilegiados que o viram jogar e ainda estão entre nós. Eu sou um deles.

Zito saiu do Brasil como reserva da Copa de 58. O lugar era ocupado pelo grande Dino Sani. Mas Zito entrou e nunca mais saiu. Mário Morares, talvez o mais sarcástico, refinado e inteligente comentarista da era do rádio, definiu Dino e Zito do seguinte modo: “Dino jogava de fraque, Zito, de cueca.”

Pura verdade. Só que “cueca” no caso não significava um futebol menos apurado. Significava praticidade, objetividade, comando.

Zito não era cabeça de área, volante de contenção ou qualquer uma dessas “especialidades” que andam por aí. Era alguém que defendia e atacava sempre que achava necessário. Não errava passe, e de sua visão privilegiada do jogo dava instruções aos demais. Às vezes ásperas. Era comum vê-lo dando uma chamada dura em Pelé, que abaixava a cabeça e não retrucava.

Quando Pelé chegou ao Santos Zito já era um ídolo. Fez parcerias inesquecíveis. Primeiro com Walter, um talentoso e prematuramente falecido meia, depois com o grande Jair Rosa Pinto. Fora outros que transitavam por perto dele, como Urubatão e Formiga. Lima e Mengálvio vieram depois. Era com essa gente que Zito tinha de se haver.

Profundamente respeitado, com sua cara séria e seu sotaque de Roseira que nunca perdeu, pressionava companheiros e árbitros. Sem gesticular muito, sem levantar muito a voz, colocava todos em seus devidos lugares. Eram outros tempos, de jogadores que sabiam que a vida era dura e o jogo, jogado.

Tempos em que a relação com Deus se fazia na maioria das vezes no silêncio dos vestiários, e sempre intimamente. Não havia dedos em riste apontando para cima por qualquer motivo, braços elevados para o alto e pessoas de joelhos rezando no campo. No campo jogava-se.

Se Zito estivesse lá, o Brasil jamais teria perdido para a Alemanha daquela maneira. Ele não teria permitido. Era desses jogadores que, uma vez no campo, nem se lembrava que havia um treinador na equipe. No campo era com ele. A notícia de sua morte primeiro momento foi tímida, afetada pelos noticiários dessa Copa América, mas aos poucos todos foram se dando conta da perda.

E de uma perda justamente num momento triste para a seleção brasileira. Ao ver as imagens sincrônicas de seu caixão deixando Santos, saindo para sua cidade natal, e dos lances do jogo vexatório contra a Colômbia, me deu a sensação de que o funeral não era só de Zito.

Morria mais que um grande jogador, morria todo um futebol. Para alguns, entretanto, resta a suprema alegria de tê-lo visto jogar.

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