Jason Cairnduff/Reuters
Jason Cairnduff/Reuters

José Mourinho em um Manchester United decadente

Após chegar no topo na Inglaterra, tradicional equipe repete erro do Liverpool e fica presa ao passado

Rory Smith/NYT, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2018 | 10h06

O futuro chegou algumas semanas antes do Natal de 1994, materializando-se em um armazém de 460 metros quadrados atrás do Stretford End em Old Trafford. Rodeado por camisas, chapéus e bugigangas, todos com o logotipo do Manchester United, ficou, naturalmente, com Alex Ferguson a tarefa de abrir as portas da primeira megastore do futebol inglês e do novo amanhecer do esporte.

Como sempre, naquela época, o United estava no ponto mais importante de seu progresso. Martin Edwards, o presidente, havia arrecadado fundos para renovar o estádio. Houve também uma revisão da operação de merchandising do clube. A nova megastore tornou-se a joia da coroa, um vasto empório de varejo que permitiria ao United arrecadar mais dinheiro e reinvestir na equipe de Ferguson. Foi a peça central de um plano para transformar o time em um rolo compressor financeiro e, consequentemente, futebolístico.

O Liverpool, o clube mais bem sucedido da Inglaterra nas duas décadas anteriores, precisava encontrar uma maneira de manter o ritmo. No verão de 1995, teve a ideia de instalar uma pequena franquia do McDonald's em seu estádio.

Não é novidade que a medida não se mostrou popular. Em 2003, o McDonald's confirmou que a filial deveria fechar devido a lucros insuficientes. Três anos antes, a megastore de Old Trafford fora forçada a se mudar. Precisava de mais espaço.

Não se trata de minimizar a genialidade de Ferguson, ou realçar o brilhantismo dos jogadores que ele tinha à sua disposição para sugerir que a história do sucesso do United na década de 1990 seja, pelo menos em parte, comercial.

Os atuais proprietários do clube inglês, a família Glazer, foram pioneiros em uma abordagem radical de patrocínio que já foi copiada por quase todos os rivais do United: assinaram dezenas de contratos menores, de produtores de tratores a vinhedos. Esses acordos chegaram a ser ridicularizados nos anos 90 por comercializar qualquer coisa com seu brasão. Os resultados alcançados não foram motivo para riso.

O Liverpool, em contrate, parecia estar se apegando ao passado. O Centenary Stand (desde então renomeado para Kenny Dalglish) poderia ter sido o primeiro espaço para salas VIPs do Anfield - muito depois de a maioria dos rivais terem começado a oferecer "hospitalidade corporativa" - mas estava, assim que abriu, desatualizado: era pequeno demais, pouco funcional, muito antiquado. O United estava se preparando para um mundo em mudança. O Liverpool acreditava que tudo sempre seria como era. 

Mais de duas décadas depois, é tentador imaginar se o United, o clube de maior sucesso da Inglaterra, caiu na mesma armadilha de seu antigo rival. Há uma suspeita, cada vez maior, de que as dificuldades do Manchester desde que Ferguson se aposentou em 2013 tragam consigo um eco do que o Liverpool passou nos mesmos anos 90.

O paralelo não é perfeito. O fracasso do United não é financeiro - continua extremamente lucrativo; ninguém poderia acusá-lo de não faturar cada centavo da marca - mas estrutural.

O sintoma mais óbvio é a ausência de um diretor técnico, alguém que cuide da saúde do lado esportivo do clube a longo prazo. Ferguson, em seus últimos anos, desempenhou esse papel. Desde que saiu, no entanto, o United tem sido administrado por uma coalizão de seu gerente e de seu presidente executivo, Ed Woodward. 

Raramente fica claro quem tem a palavra final sobre contratações. Tão danosas quanto essas são as coisas pequenas: os escritórios do centro de treinamento do clube estão desocupados, por falta de equipe técnica; vários jogadores buscaram tratamento médico com especialistas externos e queixaram-se a Woodward de que o atendimento oferecido ao clube não é o que recebem outras equipes nacionais ou que eram oferecidos por seus antigos empregadores; o declínio da reputação da academia do United, agora rejeitada porque há um concorrente de peso na cidade, o City.

Assim como o Liverpool fez uma vez, o United não admitiu que o mundo mudou. Isso não significa que o United, como o Liverpool, terá de esperar 28 anos ou mais, para um título do Campeonato Inglês. Sua potência comercial é tanta, e as estruturas de poder no jogo são muito mais rígidas, que pode esperar que retorne à primazia mais rápido do que o Liverpool fez. Mas a visita do United a Anfield no domingo, onde o clima é mais promissor, agora, do que há quase três décadas, deveria dar aos empregadores de Mourinho, mais do que ao próprio técnico, uma pausa para pensar.

O Liverpool, finalmente, parece um clube tão animado com o que está por vir quanto se orgulha do que já foi. O futuro chegou há algum tempo, e as caixas registradoras tocavam tão alto na megastore do Manchester United que nem deu para ouvir. Tradução de Claudia Bozzo

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