Fabrice Coffrini/ AFP
Fabrice Coffrini/ AFP

Joseph Blatter teme 'predomínio' da Europa na Fifa

Suíço diz que europeus podem prejudicar América do Sul

Entrevista com

Joseph Blatter

Jamil Chade - Correspondente na Suíça, O Estado de S. Paulo

22 de agosto de 2015 | 17h14

A vitória de um europeu para presidir a Fifa pode ser negativa para o futebol sul-americano. O alerta é de Joseph Blatter, presidente da entidade e que ontem organizou seu tradicional torneio no vilarejo nos Alpes. Em conversa com um grupo pequeno de jornalistas, o dirigente evitou falar das eleições presidenciais da Fifa, marcada para fevereiro, e se recusou a comentar o fato de que seu rival, Michel Platini, é considerado um dos favoritos para o cargo. Em meio a acusações mútuas e confronto declarado pelo poder, fez um alerta: “o futebol deixa as pessoas loucas”. 

Se Platini for eleito, a Uefa voltará a controlar o futebol mundial, depois de 40 anos fora do governo da Fifa. “É isso que eles querem”, alertou Blatter, insistindo que a “predominância” de uma entidade sobre as demais pode ser perigosa. Para Blatter, o poder nas mãos dos europeus pode influenciar no calendário do futebol mundial e reduzir o espaço para seleções sul-americanas realizar amistosos e torneios locais. 

Como o senhor se sente diante de tanta pressão desde as prisões de dirigentes em Zurique? 

Eu estou relaxado. São vocês jornalistas que têm de me enfrentar. E não apenas me escrever. O sol brilha. Estamos no processo de reforma da Fifa e a primeira reunião está marcada para os dias 2 e 3 de setembro. A Fifa funciona. Todas torneios continuam. Não posso resolver sozinho tudo isso. Há 40 anos eu tenho o hábito de pressão. A Fifa não é um monstro. É imensa. Mas vocês me colocam sob pressão. O futebol não está sob pressão. Nunca houve tanta qualidade e tanta repercussão. Vocês precisam ajudar a entender o motivo para essa pressão.

Por que o senhor pediu demissão após a eleição?

Eu não me demiti. Isso é um erro. Nunca fiz isso. Estávamos numa situação de pressão. Um dia, vou dizer o que houve. Só me restava jogar a bola pra fora. Sou o presidente até que novo nome seja eleito.

Que pressão foi essa?

Precisamos analisar como isso ocorreu. Vocês são os jornalistas investigativos. Façam algo de bom pelo futebol.

Nos próximos seis meses antes da eleição, acha que alianças e amizades serão testadas?

Com o tsunami, houve pressão de todas as partes. Mas principalmente da imprensa internacional. Aqueles que me elegeram tiveram dificuldades para entender por que eu coloquei meu mandato à disposição. Mas estou convencido de que, na família do futebol, haverá respeito. Claro, haverá uma corrida agora pela presidência da Fifa, mas comissões éticas vão ser instauradas em várias partes e mais controle será colocado. Teremos mais fair-play. Temos de nos unir. Fomos atacados. A Fifa não é uma empresa comercial. É um entidade com 300 milhões de membros. Essas pessoas acreditam no futebol, com emoção. A Fifa, com 111 anos, não pode ser afetada por qualquer ataque. Esse é o sentimento. Todos no Comitê Executivo concordaram em sair dessa situação terrível. Foi a melhor decisão que jamais tomamos. 

O senhor teme que, com a vitória de um europeu, o calendário internacional possa ser modificado e assim prejudicar os torneios na América do Sul e na África?

Sim. Esse é ainda um ponto fundamental. Uma confederação que se sobreponha às demais. Isso não pode ocorrer na Fifa. Isso foi o movimento de reconquistar a presidência.

Pensa em voltar um dia ainda a ser presidente da Fifa?

Não. Por favor. Uma pessoa precisa saber parar. Já fui o número 9 e não pedirei de novo.

Desde as prisões em maio, conversou com João Havelange?

Claro. Ele está muito bem. Ele disse: ‘você criou um monstro.’ Mas não é um monstro. É apenas porque o futebol foi além do jogo. É também um fator econômico e que todos querem apostar. No campo de jogo, há limites. Mas fora, não. Como controlar as pessoas? No campo, tem cartão vermelho e amarelo. Mas no mundo não existe isso. O que vivemos foi um terremoto, foi feito por pessoas fora da Fifa. Foi feito pelas confederações regionais, que não são membros da Fifa.

Como o senhor quer ser lembrado? Como uma pessoa que se serviu do futebol ou que serviu ao futebol?

Sou um servidor do futebol ha 40 anos. Eu não me uso do futebol. Por isso que me afetou o que ocorreu. O futebol é uma filosofia de vida. Aprendi a perder, mas sempre em grupo. É difícil de aceitar. Mesmo nas regiões em guerra, o futebol é jogado. O futebol é algo que vai além de questões pessoais. Concordo com os franceses quando dizem que o futebol deixa as pessoas loucas.

O senhor era muito próximo de Platini. O que o acha dele como candidato?

Não vou comentar isso. 

Quem são seus amigos?

Minha melhor amiga é minha filha. Não se pode fazer amizades com todos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.