Josimar relembra gols históricos de 86

Dois gols levaram Josimar a ganhar notoriedade no futebol brasileiro. O ex-lateral-direito do Botafogo se consagrou na Copa do Mundo de 1986, no México, ao não atender aos apelos do técnico Telê Santana e arriscar duas jogadas ousadas e raras. Numa delas, contra a Irlanda do Norte, driblou três adversários e chegou à linha de fundo. Quando todos esperavam o cruzamento, chutou a gol, sem ângulo. E acertou. Foi o segundo da vitória por 3 a 0.Mas teve mais. Dias depois, em nova arrancada pela direita, arriscou outro chute forte, quase da mesma posição, para marcar contra a Polônia ? o Brasil venceu por 4 a 0. Os dois lances, 17 anos mais tarde, ainda provocam no autor uma reação estranha. Desde então, ele se cansou de ouvir referências pouco elogiosas aos gols. ?Tem gente que diz que foi milagre. Outros falam em sorte, em acidente. É tanta bobagem, isso me irrita. A verdade é que aquilo ali foi treinado à exaustão, todo dia, durante a Copa. Eu chutei com consciência?, jura o ex-lateral, aos 42 anos.Em visita recente ao Botafogo, Josimar foi desmentido por um ex-colega de seleção, o meia Valdo. ?O Telê não se cansava de dizer: ?Cruza Josimar, pelo amor de Deus, cruza!? Depois que ele marcou os dois gols, o técnico entregou os pontos e disse que não falaria mais nada.?Mas Josimar manteve a sua versão. ?O Telê me treinava em separado, para ir à linha de fundo e cruzar ou chutar a gol, dependendo da situação. Sou muito grato aos ensinamentos dele.?Josimar parou de jogar em 1998, após quatro temporadas no Mineros, da Venezuela. Anos antes, em 1994, tinha aproveitado a estada em Manaus para defender o Fast Club (tradicional clube da cidade) e comprar uma pequena frota de táxis e um bar-restaurante, onde o prato principal era costela de tambaqui (um peixe) grelhado. Desfez os dois negócios pouco tempo depois, ?por não poder acompanhar à distância o cotidiano das empresas?.Morou quatro anos em Roraima, onde trabalhou num projeto social da Prefeitura de Boa Vista: dava aulas e palestras para crianças carentes sobre ?como vencer no esporte?. No início deste ano, foi convidado a comandar uma escolinha de futebol em Novo Hamburgo, interior do Rio Grande do Sul. E hoje dirige um grupo de 38 atletas amadores no América, clube local. ?Organizo a parte tática e técnica da equipe. A gente está tentando levar o time para a Primeira Divisão gaúcha?, conta Josimar, que diz desfrutar de uma situação financeira estável. Ele não gosta de falar de seus investimentos ? ?tem muita violência por aí? ?, mas tem renda fixa com imóveis alugados no Rio e em Novo Hamburgo.A vida de Josimar mudou depois que Leandro desistiu de seguir para o México. A lateral-direita da seleção brasileira na Copa de 86 ficou a cargo de Edson, então do Corinthians, e Telê convocou Josimar, do Botafogo, para compor o grupo, basicamente para fazer número.Mas logo na segunda partida, contra a Argélia, um outro episódio inesperado (a contusão de Edson) abriu espaço para o ?azarão? entrar no time. E fazer dois gols incríveis. ?A partir dali, eu nunca mais fui o mesmo. Sempre, na rua, num supermercado ou restaurante, vinha gente pedir autógrafo ou autorização para uma foto. E isso vinga até hoje.?O ex-jogador esteve rapidamente no Rio na semana passada. Foi matar saudades, após alguns anos longe da cidade, e tentar dar uma força ao filho Júnior, de 15 anos, lateral-direito do infanto-juvenil do Botafogo e que já integrou a seleção sub-17. ?Ele leva jeito, é veloz, habilidoso e chuta bem?, defende. O pai, no entanto, evita ver jogos do filho por não saber se controlar. ?É melhor assim. Se ele sofre uma falta mais dura, eu fico impaciente.?Ele também tem uma filha, Sacha, de 12 anos. No entanto, não vive com nenhum dos dois. ?São coisas da vida. As separações deixam marcas, mas o amor por eles é muito grande.?Josimar nota uma grande diferença entre o futebol dos anos 80 e o atual, citando como exemplo a idade avançada de alguns atletas. ?O Júnior deu o pontapé inicial. Depois veio o Mauro Galvão, que jogou até os 39 anos, e agora o Valdo, que parece disposto a superar a marca dos 40. O que chama a atenção nesses casos é que eles mantiveram o alto padrão técnico.?Títulos, Josimar conquistou poucos. O principal veio em 1989, fazendo o Botafogo encerrar um jejum de 21 anos sem conquistar o Campeonato Carioca. Ele se lembra da festa pelas ruas do Rio, da carreata até a sede do clube e do ?delírio? da torcida durante a comemoração. ?Eu vi gente dando cambalhota na frente do nosso carro. Era um foguetório só, parecia que o Brasil tinha ganho uma Copa do Mundo.?

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