Cesar Greco/Palmeiras
Cesar Greco/Palmeiras

Jovens estrangeiros viram apostas das categorias de base dos clubes brasileiros

Boa estrutura, negociações mais simples e superinflação do mercado interno explicam grande presença de gringos nas categorias inferiores

Ricardo Magatti, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2021 | 05h00

Gustavo Gomez, do Palmeiras, Arrascaeta, do Flamengo, Emiliano Rigoni, do São Paulo, e Nacho Fernández, do Atlético-MG, são jogadores que vieram de fora e atuam com protagonismo na principal divisão do futebol nacional. O sucesso deles - e outros fatores -  fizeram os clubes repetir esse movimento também nas categorias de base. Contratar jogadores do mercado internacional tem sido uma estratégia cada vez mais comum das equipes, que buscam promessas estrangeiras a fim de obter retorno esportivo e financeiro.

O futebol brasileiro é a principal vitrine do continente para os atletas que desejam jogar no futebol europeu. Segundo o levantamento mais recente do Observatório do Futebol do Centro Internacional de Estudos Esportivos (CIES), o País tem o maior número de atletas atuando no exterior. De acordo com os dados, são 1,2 mil jogadores atuando em 23 campeonatos pelo mundo. E esse caminho, muitas vezes, inclui uma passagem pela base dos times brasileiros. Atualmente, considerando os clubes da Série A, 22 jovens estrangeiros fazem parte da base de 13 times diferentes.

A visibilidade seduz as promessas estrangeiras, que enxergam no futebol uma oportunidade de alavancar suas carreiras, com a possibilidade de brilhar nos gramados daqui e rumar à Europa. A possibilidade de revenda para o exterior faz com que os times facilitem as negociações, já que em todos os acordos, o clube formador mantém um percentual do passe do atleta para vendas futuras. Outro aspecto que torna o Brasil um destino interessante para esses jogadores é a estrutura de treinamento e formação das agremiações brasileiras, que são avançadas em relação a outros países da América do Sul.

O atacante Newton não é sul-americano, mas escolher o Brasil foi um caminho natural para ele. O grandalhão de 1,91m é natural de Bocas del Toro, um povoado que fica a 12 horas distante da cidade do clube em que jogava no Panamá (CD del Este). Ele chegou ao País no fim do ano passado e já teve chance de atuar pelo profissional, inclusive marcando gol, no Paulistão deste ano.

“Estou em casa. Me sinto feliz aqui no Palmeiras, e a adaptação tem sido muito boa. Tive um pouco de dificuldade nos primeiros dias pois de onde eu vim só se falava inglês. Fiz um curso para conseguir me comunicar em português e tive a ajuda de colegas do clube que falam espanhol”, afirma Newton ao Estadão.

O pai e o agente do atleta panamenho são brasileiros, o que lhe ajudou a optar pelo futebol brasileiro, além da estrutura que encontraria aqui. “Meu pai e meu agente me ajudaram bastante nesse processo e me aconselharam de que aqui seria o melhor país para desenvolver o meu futebol. O Palmeiras abriu as portas para mim e sou muito grato por isso”, explica o jogador. 

Ele gosta de picanha, aprecia o clima quente, semelhante ao de seu país, e está bem adaptado à cultura brasileira. Em campo, seu jogo se desenvolveu desde que passou a defender o Palmeiras. “Jogo de camisa 9, mas aqui todos são condicionados à polivalência, e isso faz a diferença principalmente na parte tática”, avalia.

Aproveitando a sua tradição em contar com talentos do Uruguai, o São Paulo foi buscar no Defensor o jovem Facundo Milán. Embora jogasse entre os profissionais em sua equipe no país vizinho, o atacante integra o elenco sub-20 do time tricolor. A ideia é que o jogador de 20 anos seja promovido de Cotia à equipe principal na próxima temporada.

Fenômeno nas categorias inferiores, Milán ostenta o recorde histórico de gols na base do Defensor. Foram impressionantes 130 gols em 113 jogos. No sub-20 do São Paulo, no qual é treinado pelo ex-meia Alex, balançou as redes quatro vezes e deu uma assistência em 25 partidas. 

O atacante é forte, goleador e tem a tradicional garra uruguaia. No dia a dia, ele é tímido, mas se dá bem com seus colegas. Um de seus desafios tem sido aprender a falar português. “Ainda estou me adaptando, mas cada dia que passa, me sinto melhor”, resume o uruguaio.

“Tive um pouco de dificuldade para me adaptar ao futebol brasileiro, porque aqui é muito mais técnico do que no país de onde eu venho. Com o tempo, aprendi muitas coisas sobre tática e movimentos que estão me fazendo melhorar cada dia mais”, complementa Milán.

Por que há tantos estrangeiros também na base?

Além da capacidade de seduzir atletas, a superinflação do mercado interno, com jogadores protegidos por multas rescisórias milionárias, e o investimento alto na captação e formação dos jovens contribuem para haver tantos estrangeiros no Brasil. 

“No mercado interno, contratar um atleta titular da seleção brasileira de base, por exemplo, é quase impossível, a valorização desse jogador é muito grande”, explica Júnior Chávare, gerente de futebol do Bahia, com passagens pelas bases de Grêmio, São Paulo e Atlético-MG.

“Muitas vezes as negociações realizadas fora do país são mais simples do que as do mercado brasileiro, tanto no aspecto comercial, quanto no financeiro. Na maior parte dos casos, os clubes daqui já possuem uma estrutura forte, e se colocam em um patamar de referência financeira que não permite que você traga um jogador para ser observado com mais calma e menos riscos”, emenda o executivo.

As negociações envolvendo jovens revelações estrangeiras costumam seguir o mesmo padrão: são realizados acordos de empréstimo de um ou dois anos, com data para aquisição definitiva previstas de acordo com cada contrato. Esse modelo permite que os clubes brasileiros analisem com mais calma os jogadores antes de realizar grandes investimentos. 

A maior parte dos jovens que chegam aos clubes brasileiros possuem passagens pelas seleções e atuações de destaque nos torneios internacionais. É o caso de Juan Martínez, atacante de 20 anos contratado pelo Fortaleza, que defendeu a seleção colombiana nas categorias sub-15, sub-17 e sub-20.

“A qualidade do futebol brasileiro em estrutura e formação, em comparação a outros países latino-americanos, é muito desenvolvida. O jogo aqui é mais intenso, agressivo, com um nível técnico mais apurado, isso chama a atenção dos atletas. Por parte do clube, há uma preocupação quanto à adaptação desses jovens, especialmente do departamento psicossocial. Por estarem inseridos em uma cultura diferente, não dominarem o idioma, é preciso dar toda a assistência necessária para que eles tenham tranquilidade e desenvolvam um bom futebol”, diz Marcelo Paz, presidente do Fortaleza. 

No Internacional, o executivo argentino Gustavo Grossi foi contratado para o cargo de diretor-executivo da base com a missão de reestruturar o departamento de formação do clube e potencializar a captação de atletas estrangeiros. Ele ocupou essa posição durante cinco anos no River Plate, obteve resultados de sucesso e é visto como uma referência no desenvolvimento de talentos na América do Sul.

"Nenhum outro país tem tanta visibilidade, segmento e investimento como o Brasil. É muita diferença. Eu vim de uma equipe grande na Argentina, do River, e a diferença que tem em comparação com o River já é muito grande. Em outros países, como Colômbia, Venezuela, Paraguai, equipes menores da Argentina, Uruguai, a discrepância é ainda maior", afirma o executivo.

“É muita diferença de organização, quantidade de gente. São clubes de futebol. Os outros clubes têm muitas atividades, então o investimento se divide. Aqui o investimento vai para o futebol”, acrescenta o argentino.

Para Marcelo Segurado, ex-executivo de clubes como Goiás e Ceará, a busca de atletas no exterior é positiva, mas é preciso trabalhar para aprimorar os talentos brasileiros. Em transferências internacionais, a Fifa só permite que o atleta deixe o país depois de completar 18 anos, e isso faz com que os atletas já cheguem formados de seus clubes de origem.

“É válido trazer atletas do exterior, do mercado latino-americano, com 18, 19 anos.  Mas é preciso olhar de forma criteriosa para a nossa base, para que os clubes se preocupem cada vez mais com o processo de desenvolvimento dos nossos atletas. A legislação não permite que tenhamos estrangeiros mais novos, e os jogadores de 18, 19, 20 anos chegam aqui praticamente formados. Enquanto isso, nós estamos perdendo promessas com grande potencial de 14, 15, 16 anos para o mercado europeu”, esclarece Segurado.

Veja a lista dos estrangeiros presentes na base dos clubes da Série A:

  • Athletico-PR - Gastón Kevin, zagueiro (Paraguai) e John Mercado, meia (Equador)
  • Atlético-MG - Diego Acosta, atacante (Paraguai)
  • Bahia - Williams Boum Kouame, volante (Camarões)
  • Corinthians - Thomas Agustin "Argentino", volante (Argentina) 
  • Cuiabá - Alan Mendez, atacante (Paraguai)
  • Flamengo - Fabrizio Peralta, volante (Paraguai) e Camilo Durán, atacante (Colômbia)
  • Fortaleza - Juan Martínez, atacante (Colômbia)
  • Grêmio - Mateo Velasco, volante (Colômbia), Wilmar Rivas, meia (Colômbia), Kevin Quejada, atacante (Colômbia) e Mateo Barrios, meia (Uruguai)
  • Inter - Kevin Quiñones, atacante (Colômbia) e Juan Manuel Cuesta, meia (Colômbia)
  • Juventude - Paul Henry, atacante (Camarões)
  • Palmeiras - Marino Hinestroza, atacante (Colômbia) e Newton, atacante (Panamá)
  • Santos -  Leonardo Zabala, zagueiro (Bolívia), Matías Lacava, meia-atacante (Venezuela)
  • São Paulo - Facundo Milán, atacante (Uruguai)

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