Lucas Jackson/Reuters
Lucas Jackson/Reuters

Julgamento de José Maria Marin tem início em Nova York

Ex-presidente da CBF é acusado de recebimento de propina; sentença pode demorar até oito semanas

Raphael Ramos, O Estado de S.Paulo

06 Novembro 2017 | 07h00

Ex-presidente da CBF, José Maria Marin senta hoje no banco dos réus do Tribunal do Brooklyn, em Nova York. O julgamento começa dois anos e meio depois de ele ter sido preso na Suíça. Marin é acusado de receber propinas em negociações de direitos de TV em edições da Copa América e ainda suborno em contratos da Copa do Brasil.

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Marin diz ser inocente. Ao todo, 42 dirigentes ligados à Fifa são acusados de fazer parte de um grande esquema de corrupção que teria movimentado US$ 200 milhões (R$ 662,7 milhôes) em vários países. O brasileiro, Manuel Burga (ex-presidente da Federação Peruana de Futebol) e o paraguaio Juan Ángel Napout (ex-presidente da Conmebol) ainda não se declararam culpados.

Entre as acusações contra Marin está uma viagem feita pelo cartola em abril de 2014 a Miami, nos EUA, para participar de uma conferência de imprensa. Ele teria aproveitado para se reunir com J. Hawilla, dono da Traffic, para acertar pagamentos das propinas. Marin, o ex-presidente da CBF Ricardo Teixeira e o atual comandante da entidade, Marco Polo Del Nero, teriam divididos R$ 2 milhões por ano de suborno da Traffic, que tinha os direitos de TV.

Nas últimas semanas, o Tribunal do Brooklyn anunciou duas sentenças contra dirigentes esportivos que servem de alerta para Marin. Ex-secretário-geral da Federação da Guatemala, Hector Trujillo foi condenado a oito meses de prisão e a pagar multa de US$ 415 mil (R$ 1,3 milhão). Já o ex-secretário-geral da Associação das Ilhas Cayman e ex-assessor da presidência da Concacaf, Costa Takkas, foi condenado a 15 meses de prisão. Terá de devolver US$ 3 milhões (R$ 9,9 milhões) à federação, juntamente com Jeffrey Webb, ex-vice da Fifa e ex-presidente da Concacaf.

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Marin foi detido dia 27 de maio de 2015, em Zurique. Depois de cinco meses, foi extraditado aos EUA, onde, desde então, cumpre prisão domiciliar em seu apartamento na 5.ª Avenida, no arranha-céu Trump Tower, numa das regiões mais valorizadas de Nova York.

A defesa de Marin passou os últimos dois anos tentando, em vão, enfraquecer a acusação. O dirigente pediu, por exemplo, à Justiça norte-americana a anulação da acusação de participação de “grupo conspiratório”, o equivalente à formação de quadrilha no Brasil, o que agravaria sua pena, e teve o recurso indeferido. Mais recentemente, Marin reclamou de gravações usadas como provas contra ele.

Também questionou o anúncio de Stefan Szymanski, professor da Universidade de Michigan, como testemunha de acusação. Ex-presidente da Associação Europeia de Assuntos Econômicos do Esporte, Szymanski foi escolhido para falar sobre os efeitos da corrupção no futebol. Ele está impedido de conceder entrevistas e ter contato com pessoas interessadas no caso. “Não posso falar porque sou uma testemunha pericial do governo. Só posso falar depois que o julgamento acabar’’, informou Szymanski em breve contato com o Estado.

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Por enquanto, a única vitória de Marin foi ter conseguido autorização da Justiça para sair até sete vezes por semana do seu apartamento. Às segundas, quartas e sextas-feiras, ele vai à academia de ginástica do prédio para fazer exercícios físicos. Às terças, quintas, sábados e domingos, pode fazer compras, caminhar e ir à missa, desde que permaneça dentro de um raio de até duas milhas (o equivalente a 3,2 quilômetros) de seu apartamento e esteja acompanhado de um segurança. Todo o monitoramento eletrônico é feito por meio de tornozeleira e ele paga os custos de sua vigilância.

O ex-presidente CBF, de 85 anos, tem o hábito de ir a uma livraria perto do Central Park. Ele não fala inglês, mas tem compreensão geral do que lê. Ainda costuma ir a restaurantes nos arredores da 5.ª Avenida. A linha de defesa do dirigente será dizer ao júri que ele presidiu a CBF por três anos (de março 2012 a abril de 2015), enquanto que a denúncia feita pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos afirma que o esquema de corrupção durou mais de duas décadas, a partir de 1991.

O brasileiro negará que confederações de vários países formavam uma organização criminosa. O seu argumento é que as entidades eram independentes e promoviam seus próprios torneios. A única competição organizada por mais de uma confederação foi a Copa América Centenário, realizada em 2016 nos EUA por Conmebol (América do Sul) e Concacaf (Américas Central e do Norte).

A defesa estima que o julgamento dure entre seis e oito semanas até que a Justiça anuncie sua decisão. Assim, o caso pode terminar no fim de dezembro ou se arrastar até 2018.

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