Juninho promete conduzir o Palmeiras

Quando estava no São Paulo em 1993, Juninho Paulista ficou chocado com Toninho Cerezo. O mineiro de 37 anos era um ídolo do então jovem de 20 anos. E Cerezo incendiou o ambiente. Contaminou a todos na concentração na conquista do bicampeonato mundial.Mal sonhava Juninho que 12 anos depois chegaria a sua vez de assumir a postura de incendiar, redescobrir a auto-estima. E, ao contrário do que aconteceu com Cerezo, sua missão será muito difícil: o Palmeiras nem de longe lembra o São Paulo bicampeão mundial."Os garotos daqui precisam valorizar a camisa, saber que estão no Palmeiras. É uma chance maravilhosa. E não tem essa conversa de brigar só por vaga na Libertadores. O time tem que querer ser campeão brasileiro. Não se pode querer pouco na vida. E vou avisando: quero voltar para a seleção."Agência Estado - Por que retornar ao Brasil, justo para o Palmeiras, quando tinha proposta de um time mais forte, o Santos?Juninho Paulista - Minha escolha foi profissional. Não estou preocupado se a imprensa não acredita no Palmeiras. Eu acredito. O Palmeiras me namora há anos. Antes de ir para o Flamengo, em 90, quase fui para o Parque Antártica. Os dirigentes procuraram o meu pai em janeiro deste ano pedindo a prioridade se eu resolvesse sair do Celtic. Quando o Santos fez a proposta, tinha me comprometido com o Palmeiras. Não me arrependo.AE - Não tem um ingrediente amador nessa escolha?Juninho - Nada disso. A minha escolha foi profissional. Vim para um dos melhores clubes do Brasil e com todas as condições de ser campeão. Se fosse pelo lado amador, lado afetivo, minha ligação com o São Paulo pesaria. Fui muito feliz por lá.AE - Os dirigentes prometeram reforços? Só por isso aceitou jogar no Palestra Itália?Juninho - Não. Foi esse time mesmo com quem estou treinando que me animou. Não vim porque me prometeram a chegada de vários jogadores. Os que estão aqui são ótimos.AE - Você já passou por situação parecida?Juninho - Me lembra um pouco a minha primeira passagem pelo Middlesbrough, que nunca havia conseguido um título na Inglaterra. Havia muita ansiedade. Quando o time se conscientizou da sua força, chegou a duas finais no mesmo ano. Na mesma temporada acabou rebaixado no Campeonato Inglês por um surto de gripe. Mas isso não vai acontecer aqui, não (risos).AE - Mas dá para imaginar um meio-de-campo com você e o Pedrinho? Vocês são frágeis...Juninho - Aí que você se engana. Jogamos bem no Vasco (os dois estavam juntos na virada histórica na final da Copa Mercosul no Palestra. O Palmeiras vencia por 3 a 0 e perdeu por 4 a 3). O Pedrinho é habilidoso e atua mais aberto pela esquerda. Eu jogo no meio. Vamos formar ótima dupla.AE - Há dúvida em relação ao seu potencial, continua o mesmo?Juninho - Com o tempo passando fui descobrindo os atalhos do campo. Só corro na certa. Não perco a bola como fazia tempos atrás tentando driblar três, quatro jogadores. Também me aprimorei nas cobranças de falta. Mas continuo o mesmo meia, jogador vertical que pensa no gol o tempo todo.AE - As graves contusões que teve não deixaram resquícios?Juninho - Não. Só tive duas. Uma, em 98, no tornozelo esquerdo, que me tirou da Copa de 98. E a outra foi no joelho esquerdo, logo depois da Copa de 2002. Estou recuperado. E fisicamente sempre fui responsável.AE - E o peso psicológico das contusões?Juninho - A primeira foi terrível. Eu estava em uma fase maravilhosa. Era titular absoluto da seleção que iria disputar a Copa do Mundo. Estava animadíssimo quando veio a contusão. Fiz um trabalho louco para me recuperar. A previsão era para ficar recuperado em seis meses. Em três eu já estava bem. Mas, infelizmente, foi um esforço em vão. Não fiz nem teste para a seleção. Sei que estava bem e não fui para a Copa. Foi duro, triste. Agora, a segunda não. Foi depois do Mundial. Já havia cumprido a minha missão. Encarei a cirurgia de outra maneira.AE - Sobre a Copa que você jogou e ganhou, doeu perder a posição de titular?Juninho - De jeito nenhum. Joguei as três primeiras partidas e na decisão entrei nos minutos finais. Cumpri o meu papel. Joguei fora de posição, atendi um pedido do Felipão. Joguei pela direita para cobrir as descidas do Cafu. As pessoas me cobravam o porque de não ser o mesmo Juninho que saía driblando para o ataque. Sou grato porque o Felipão confiou em mim. Quando resolveu me tirar para colocar o Kléberson foi muito leal. Fui pentacampeão. É o título mais importante da minha carreira.AE - Que significou ser campeão do mundo?Juninho - Sensacional. O respeito que desperta nas pessoas, principalmente na Europa, é incrível. Os clubes ficavam orgulhosos em ter um campeão do mundo.AE - O que aconteceu no Celtic?Juninho - O treinador do Celtic (Martin O?Neill) me telefonou e insistiu que precisava de mim. Ele sabia que eu era franzino, habilidoso, enfim, não era um jogador de força. Combinamos tudo e no fim fui jogar de ala esquerda. Entrei para marcar ponta. Não deu certo. Infelizmente, a pior decisão que poderia tomar foi ter ido para o Celtic.AE - Acabou perdendo dinheiro no seu retorno?Juninho - Perdi. Tinha contrato até o final de 2006. Mas chegou uma hora na minha carreira que vale mais a felicidade pessoal. Poderia ficar encostado e ganhar o salário sem fazer nada. Mas não sou esse tipo de jogador.AE - Quando pretende parar?Juninho - Meu contrato com o Palmeiras vai até o final de 2006. Mas me sinto preparado para seguir adiante. Tenho planos. Vou lutar muito para voltar à seleção. Na minha posição tem o Kaká, o Ronaldinho Gaúcho e outros talentosos. Mas acredito em mim. Assim como acredito no Palmeiras. O futebol ainda me reserva muitas alegrias. Tenho plena convicção disso.

Agencia Estado,

18 de abril de 2005 | 09h45

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