Everton Oliveira/Estadão
Everton Oliveira/Estadão

Jurista quer usar caso de assédio para conseguir alterações na lei russa

Alena Popova já conseguiu mais de 26 mil assinaturas em petição pedindo a punição de responsáveis pelos atos

Entrevista com

Alena Popova, jurista russa

Glauco de Pierri e Jamil Chade, enviados especiais / Moscou, O Estado de S.Paulo

23 Junho 2018 | 05h00

Ativistas russas querem usar os incidentes de assédio na Copa do Mundo com torcedores estrangeiros para pressionar por mudanças nas leis no país. Em entrevista ao Estado, uma das principais porta-vozes do movimento em busca por direitos das mulheres na Rússia, a jurista Alena Popova, elogia o comportamento da opinião pública brasileira que se mostrou indignada com a atitude de torcedores que assediaram mulheres durante a Copa.

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Ela iniciou uma petição que, até sexta-feira, contava com mais de 26 mil assinaturas, pedindo que os responsáveis fossem punidos. Além disso, apresentou uma queixa formal na embaixada do Brasil, entrou em contato com a polícia e quer o envolvimento da Fifa. Eis os principais trechos da entrevista.

Como a senhora teve conhecimento desse caso e do vídeo?

Uma jornalista (Luiza Oliveira, repórter do UOL) me enviou esse vídeo há dois dias. Ela me perguntava se eu conhecia a mulher que aparecia no vídeo, se era certo ela aparecer no vídeo e como eu me sentia ao vê-lo, como uma cidadã da Rússia. Fiquei chocada e triste. Eu não entendia o que estavam gritando e pedi que ela traduzisse. Quando ela traduziu, foi como uma bomba para mim. Isso é proibido, de acordo com nossa lei. Temos dois artigos incluídos em nossos códigos administrativos sobre hooliganismo. É sobre humilhação, honra e dignidade de uma pessoa, em termos de raça, gênero. E foi como um “uau, o que está ocorrendo?”. Então criei uma petição, com a ajuda da change.org. Graças aos cidadãos do Brasil que apoiaram – traduzimos para inglês e português –, em duas horas tínhamos mais de 5 mil assinaturas. E fiquei muito satisfeita.

A senhora considera que essa reação no Brasil pode ser usada como uma lição? Há algo de positivo nessa história?

Tenho certeza que essa é a lição para todos. Não apenas para os brasileiros. Temos já cinco vídeos e, com tais casos, acho que todos precisam entender isso. Quando você vem ao nosso país, deve se comportar de uma forma civilizada. Você deve ter mais informações sobre nossa cultura e nossa lei e não pode humilhar nenhuma pessoa em seu entorno. O que eu vi nesse vídeo é que os russos são muito gentis, acolhedores, todos sorriem e tentam ser boas pessoas. E quando se comportam dessa forma, esmagam nossa gentileza.

 

Quais são as leis aqui? O que pode ocorrer com a pessoa que atua dessa forma na Rússia?

Por nossas leis, temos normas éticas. Não é correto assediar uma mulher ou agir como um hooligan. Mas, de acordo com nossas leis, temos códigos administrativos e uma pessoa pode ser presa por até quinze dias ou pagar uma multa. Ela não é elevada e vai até 3 mil rublos, cerca de US$ 50 dólares (aproximadamente R$ 180). Não é muito dinheiro se você veio até aqui. Mas é uma sanção e, depois de acumular três delas, você pode ser expulso de nosso país e pode ser impedido de pedir um novo visto de entrada.

Há a possibilidade de o Ministério do Interior tomar uma ação ou pelo menos abrir uma investigação. A senhora considera que isso pode mesmo ocorrer?

Liguei para os representantes da polícia. Conheço muita gente que trabalhava no departamento de polícia e perguntei se eles poderiam iniciar uma investigação sobre essas ofensas. Eles precisam de 30 dias para entender se eles podem iniciar ou não. Mas acho que vamos continuar a influenciar esse caso, com a ajuda do público.

Com a reação no Brasil, a senhora acha que isso pode ser positivo, não apenas no Brasil, mas para a Copa também?

O povo brasileiro é perfeito para isso. Essa reação foi positiva e em apoio às pessoas que foram alvo de assédio por esses brasileiros, argentinos e latino-americanos. Muita gente me mandou e-mails para pedir desculpas sobre o que ocorreu, dizendo apoiar minha petição e que, por favor, devemos punir essas pessoas. Isso mostra que, quando estamos juntos, somos mais fortes, e podemos mudar essa forma cultural de pensar e que humilhação e assédio são proibidos.

Como é a situação da mulher na Rússia? Ainda existe um desafio com relação aos direitos?

Temos um grande desafio. Ainda não temos uma lei padrão sobre a violência doméstica. Lutamos por isso e eu sou coautora para essa lei. Essa é uma dura luta. No ano passado, violência doméstica foi descriminalizada. Se você bater na sua mulher em casa, apenas paga uma multa pequena. Estamos tentando mudar isso. E ainda não temos uma lei ou emenda em nossas normas sobre assédio. Houve um deputado, no Parlamento, que assediou três jornalistas mulheres e ele não tem problemas com isso. Ele continua na Duma e deu muitas entrevistas com explicações dizendo que não foi assédio e que foi “atenção a mulheres lindas”.

Qual seria sua mensagem para torcedores e mulheres russas?

Somos um país lindo, repleto de mulheres lindas. Qualquer torcedor que vier aqui deve respeitar nossos direitos. Temos uma forte cultura de respeito aos direitos. Precisam entender que é proibido. Talvez não possamos mostrar nossa reação negativa. Mas não está certo fazer isso. Parem.

 

 

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