Rubens Chiri/São Paulo FC
Rubens Chiri/São Paulo FC

Juros e burocracias menores fazem agentes de jogadores virarem 'bancos'

Em crise financeira, clubes recorrem a empresários de jogadores para fazer empréstimos; prática é legal

Guilherme Amaro, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2019 | 04h30

Com problemas financeiros, os clubes têm recorrido a empréstimos para honrar seus compromissos. Além dos tradicionais socorros em bancos, os times encontraram outros financiadores: empresários dos jogadores. Os agentes viraram alternativa principalmente por conta dos juros e burocracias menores. A prática não é ilegal. 

O último caso aconteceu com o São Paulo, que contratou o atacante Raniel do Cruzeiro e só pagará pelo jogador a partir de janeiro de 2020. Isso porque o empresário André Cury financiou os cerca de R$ 13 milhões à vista ao clube mineiro e receberá de forma parcelada do time tricolor. Cury é o empresário de Raniel e tem boa relação com os dirigentes são-paulinos.

Procurado pelo Estado, o agente disse que foi a primeira vez que emprestou dinheiro a algum time. “Tem que fazer em clube com pessoas de confiança”, justificou Cury ao ser questionado sobre possíveis problemas para receber os valores.

Se no caso de Cury foi a primeira vez que participou deste tipo de operação, o empresário Carlos Leite coleciona empréstimos aos clubes. Ele já defendeu-se ao dizer que a prática sempre foi “de forma pública e notória”. Os próprios times costumam divulgar em seus balancetes os agentes credores.

Carlos Leite goza de boa relação especialmente com Corinthians e Vasco. O empresário tem a receber cerca de R$ 5,8 milhões do clube paulista. Em relação aos cariocas, ele já realizou empréstimos diversas vezes nos últimos anos. Agora, de acordo com o Vasco, não há débitos com o agente. 

Em  2018, Carlos Leite emprestou R$ 11 milhões para o São Paulo pagar a multa rescisória de Everton, seu cliente, com o Flamengo. Ainda emprestou R$ 5 milhões ao Fluminense. O valor foi pago logo depois com a venda de Ayrton Lucas, também seu cliente. O agente está na lista de credores do Botafogo.

Outro empresário que aparece como credor no balancete do Corinthians é Giuliano Bertolucci, com aproximadamente R$ 6,6 milhões. Ele também emprestou dinheiro ao Santos na gestão Modesto Roma Júnior, em 2017, e acionou a Justiça para receber a quantia. Os cerca de R$ 8 milhões foram pagos no ano passado.

Os empréstimos com agentes não são exclusividades de clubes paulistas e cariocas. No Sul, o Internacional chegou a dever R$ 25 milhões a Delcir Sonda. O valor, porém, foi perdoado e passou a ser uma doação ao time colorado.

Prática mudou. Antigamente, em diversos casos, os empresários recebiam parte de direitos econômicos de jogadores pelos empréstimos. Era como se o agente comprasse porcentagem de atletas do clube.

A prática era normal, e um exemplo foi o caso de Giuliano Bertolucci com o Grêmio em 2013. Em crise financeira, a diretoria do time gaúcho vendeu 50% dos direitos de Bressan e Ramiro para Bertolucci por US$ 4 milhões cada (R$ 9 milhões, na cotação da época).

A partir de 2015, porém, essa prática passou a ser proibida. A Fifa vetou a participação de investidores em direitos econômicos de jogadores. 

“Depois que saíram os investidores, os clubes alegam que ficaram sem moeda de troca. Encontraram essa outra saída de contrato de empréstimo com juros, algo que não é proibido. É um risco do empresário. Só é ilegal se a garantia for alguma venda de jogador e a palavra final for do empresário”, declarou o presidente da Associação Brasileira de Agentes de Futebol, Jorge Moraes.

O Cruzeiro, por exemplo, está sendo investigado por ter usado parte de direitos econômicos de dez jogadores como pagamento de empréstimo de R$ 2 milhões feito pelo empresário Cristiano Richard. Após a denúncia, um novo contrato foi feito entre o clube e o agente.

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