Arnd Wiegmann/Reuters
Arnd Wiegmann/Reuters

Justiça da Suíça abre processo criminal contra Joseph Blatter

Computadores e documentos da entidade foram confiscados

Jamil Chade, correspondente em Zurique, O Estado de S. Paulo

25 de setembro de 2015 | 11h29

O Ministério Público da Suíça abriu um processo criminal contra o presidente da Fifa, Joseph Blatter,  por suspeita de “gestão desleal” e “apropriação indevida de recursos”, além de ter agido “contra o interesse da Fifa”. Uma operação policial ocorreu na sede da entidade e seus computadores e documentos foram confiscados. A operação deixa ainda mais debilitada uma entidade que já afastou seu secretário-geral, Jerome Valcke, e não pode nem mesmo realizar reuniões fora da Suíça sob o risco de prisão de seus cartolas. 

O processo foi aberto no dia 24 e, se condenado, Blatter pode pegar cinco anos de prisão. Ele já é investigado pelo FBI e temia ser questionado ou preso se deixasse o seu país. Agora, o MP deixou claro que nem mesmo permanecendo na Suíça ele estaria blindado. 

Uma das suspeitas apontadas pela Justiça se refere à venda de direitos de televisão para a Copa do Mundo para a União Caribenha de Futebol, a federação regional. Blatter repassou os direitos a Jack Warner, seu ex-vice-presidente e presidente da União Caribenha. O contrato foi concedido por valores inferiores aos que poderiam valer. Ao ser revendidos por Warner, o dirigente teria lucrado milhões de dólares. 

Em 2005, Warner controlava a União Caribenha e recebeu os direitos para a Cpa de 2010 e 2014 por US$ 600 mil. Esse valor foi autorizado por Blatter, em cartas reveladas pela imprensa suíça. Warner então revendeu os direitos para sua própria empresa, com sede nas Ilhas Cayman, a J & D International (JDI).

Em 2007, a  JDI vendeu então os direitos para a televisão da Jamaica, SportsMax, por um valor de até US$ 20 milhões. O contrato assinado por Blatter, porém, tinha apenas 5% do valor real do contrato final. “Existe a suspeita de que ele agiu contra os interesses da Fifa”, disse o Ministério Público. “Esse contrato foi desfavorável para a Fifa”, afirmou a procuradoria, que indicou suspeitas de crimes fiduciários. 

PLATINI

Outra suspeita se refere a um pagamento de Blatter para Michel Platini, presidente da Uefa, no valor de 2 milhões de francos suíços (R$ 8 milhões). Nesta sexta-feira, tanto Platini como Blatter foram interrogados. O pagamento foi supostamente para “trabalhos realizados entre janeiro de 1999 e junho de 2002”. Mas o pagamento foi “executado em fevereiro de 2011”. Naquele momento, Platini e Blatter ainda era aliados.

Segundo o MP, Blatter foi interrogado nesta sexta-feira depois da reunião do Comitê Executivo da entidade, em Zurique. Michel Platini foi ouvido também na qualidade de “pessoa solicitada a prestar informação”. Uma operação de busca e apreensão ainda foi realizada na tarde desta sexta-feira na Fifa, com o apoio da Polícia Federal do país. “O escritório do presidente da Fifa foi buscado e dados confiscados”, indicou.

Em um comunicado, a Fifa indicou que está “colaborando” e que entregou todos os documentos solicitados. A entidade também garantiu que ajudou a organizar os interrogatórios. A operação ocorre no mesmo dia em que Blatter publicava uma coluna na revista oficial da Fifa, indicando que estava disposto sempre a colaborar com as investigações, “mesmo se elas ocorressem ao lado de casa”. Sua referência, porém, era ao caso de Jerome Valcke, afastado na semana passada por suspeitas de formar parte de um esquema de vendas de entradas para a Copa de 2014.   

CAOS

A operação ocorreu uma vez mais quando a Fifa realizava sua reunião do Comitê Executivo, uma espécie de governo mundial do futebol. O incidente levou a Fifa a tomar a decisão inédita de cancelar uma coletiva de imprensa depois da reunião do Comitê Executivo da entidade. Com o presidente da entidade, Joseph Blatter, sem poder sair da Suíça, com o secretário-geral, Jerome Valcke, afastado e todos os computadores confiscados pela polícia, a entidade passou a ser controladas pela Justiça e por advogados.

No início da tarde, o Estado foi informado de que um “incidente” ocorreu durante o dia e que os executivos foram instruídos a não falar com os jornalistas e nem dar detalhes. A Fifa também anunciou que fecharia sua sala de imprensa, às 17 horas de Zurique (meio dia do horário brasileiro).

Tradicionalmente, os encontros da Fifa são seguidos por entrevistas coletivas. Desta vez, cerca de cem jornalistas foram informados primeiro que o evento seria adiado em meia hora. Depois de serem retirados da entrada do local, os jornalistas foram comunicados sobre mais um atraso. Finalmente, uma hora depois, por email, todos foram informados de um cancelamento definitivo de qualquer evento público. “Algo grande ocorreu”, confirmou ao Estado um alto dirigente da Fifa. 

Em um comunicado de imprensa, a Fifa apenas explicou que sua próxima reunião, marcada para dezembro, não ocorrerá mais no Japão, como estava planejado. Para evitar uma eventual prisão de Blatter, o evento foi transferido para a Suíça. 

ADVOGADOS

Com seus computadores confiscados e sob a ameaça da polícia, a Fifa passou a ser de fato controlada por escritórios de advocacia. Blatter contratou a peso de ouro o advogado americano William Burck do poderoso Quinn Emanuel Urquhart & Sullivan. Ex-conselheiro de George W. Bush na Casa Branca, Burck já defendeu políticos africanos e coleciona casos de corrupção.

Desde a prisão dos cartolas em maio, tudo passa por ele na Fifa, inclusive as declarações à imprensa e decisões de viagens de dirigentes. O contrôle de segurança para acesso ao prédio também foi reforçado, inclusive aos jornalistas credenciados.

Para uma reunião regular e sorteio esvaziado do Mundia de Clubes, jornalistas foram origado a passar por revistas e impedidos de entrar no saguão de entrada da Fifa, aberto tradicionalmente a todos. A Fifa também fechou suas portas para turistas. 

A segurança da entidade fez questão de não deixar qualquer brecha para um eventual protesto durante o sorteio. Todos os jornalistas tiveram de se registrar com dias de antecedência, malas foram abertas antes da entrada no edifício e o saguão da Fifa foi fechado à imprensa, obrigada a entrada por uma porta lateral. 

As medidas foram tomadas depois que, em julho, o comediante britânico conseguiu entrar em uma conferência de imprensa concedida por Blatter e, antes do evento, jogou notas de dinheiro sobre o cartola. As imagens rodaram o mundo e, visivelmente afetado, Blatter exigiu mudanças profundas no acesso ao prédio. 

Foram os advogados também que recomendaram que o local de reunião da Fifa em dezembro não seja no Japão, como inicialmente programado, sob o risco de registrar novas extradições aos EUA.

No lugar de cartolas, os assuntos do futebol passaram a ser dominados por um exército de advogadoso. Timothy Treanor, do escritório Sidley Austin passou a assumir a Concacaf, enquanto o ex-vice-presidente da Fifa, Jeffrey Webb, recorreu a Edward O'Callaghan, ex-chefe do Combate ao Terrorismo da Unidade de Manhattan do Ministério Público americano. 

Já a família de Jack Warner, acusado de propinas na escolha das sedes da Copa, contratou o escritório Brafman & Associates, de Nova Iorque, e responsável por conseguir retirar da prisão o ex-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, em um caso de suposto assédio sexual. 

O brasileiro José Hawilla foi defendido ainda pelo advogado Lewis Liman, enquanto José Maria Marin montou uma equipe com advogados da Suíça, Brasil e EUA. 


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