Ruben Sprich/Reuters
Ruben Sprich/Reuters

Justiça identifica mais de cem transações suspeitas na Fifa

Copas da Rússia e do Catar podem ser anuladas

Jamil Chade, correspondente em Berna, O Estado de S. Paulo

17 de junho de 2015 | 07h12

O cerco da Justiça contra as Copas da Rússia e do Catar se intensifica e a Justiça denuncia o fato de que dirigentes da Fifa usaram dezenas de contas bancárias na Suíça para lavar dinheiro, em operações que estão sob suspeita de terem sido pagamentos de propinas para garantir os votos para as Copas de 2018 e 2022. Nesta quarta-feira, em Berna, a Justiça suíça deixou claro que atingiu o coração da Fifa - o dinheiro - e que começou a desmontar um vasto esquema de corrupção. Joseph Blatter e Jérôme Valcke poderão ser chamados a depor e as Copas da Rússia e do Catar estão ameaçadas.

O procurador-geral da Suíça, Michael Lauber, afirmou que dezenas de contas suspeitas e transações bancárias foram identificadas depois do confisco de documentos na sede da Fifa, deixando as Copas de 2018 e 2022 em situação ainda mais incerta. Os dados foram levados do gabinete de Blatter, Valcke e da direção financeira da entidade. Segundo Lauber, no total 104 relações bancárias foram encontradas relativas ao escândalo depois de confiscar os servidores da Fifa. Mais de 53 casos suspeitos de lavagem de dinheiro também foram informados pelos bancos suíços depois que a crise eclodiu.

O Estado apurou que “milhões de dólares” já foram congelados e mais de uma dezena de bancos foram convocados a dar explicações, numa operação que agora foi ampliada e não mais investiga apenas os Mundiais de 2018 e 2022. Na semana passada, o auditor da Fifa, Domênico Scala, indicou que se houvesse alguma prova de compra de votos pela Rússia ou Catar, os eventos poderiam ser revistos. Mas Blatter sempre insistiu que nunca nenhuma evidência apareceu. Em mais de dez anos, a KPMG jamais indicou qualquer tipo de problema e assinou todas as contas da Fifa. Por dois anos, a Fifa ainda investigou o caso e diz não ter encontrado "nada de errado" em suas contas.

Mas Lauber garante que ele tem maiores poderes, garante que tem "independência" e admitiu que sua investigação pode ter “efeitos colaterais” na realização dos Mundiais. O resultado apresentado pelo suíço em Berna foi o primeiro desde que, no dia 27 de maio, à pedido da Justiça americana, os suíços prenderam sete dirigentes em Zurique, entre eles José Maria Marin, da CBF. Mas o MP suíço também lançou uma operação para confiscar milhares de documentos na Fifa e em empresas relacionadas com o caso.

Segundo os suíços, o alvo da investigação é a suposta compra de votos para a escolha das Copas de 2018 e 2022. Entre os suspeitos está Ricardo Teixeira, ex-presidente da CBF e que votou pelo Catar para sediar o evento. O brasileiro garantiu na semana passada que nunca recebeu dinheiro por seu voto. Mas o Estado revelou com exclusividade que a Justiça o investiga no que se refere a uma conta em Mônaco e que teria registrado pagamentos vindos de empresas do Golfo. 

No total, mais de 160 bancos já tiveram seus nomes identificados, entre eles o Banco do Brasil em Assunção e o Banco Itaú nos EUA. No caso do BB, as contas foram usadas para fazer transferências. Apenas em referência aos bancos estabelecidos na Suíça, foram 53 suspeitas de crimes financeiros relacionados aos cartolas, que não tiveram seus nomes revelados.

Em Berna, Lauber e sua equipe confirmaram que a busca pelo dinheiro vai ser a forma encontrada pelos suíços para tentar desvendar se houve ou não corrupção na Fifa. “Será um processo complexo”, admitiu. Segundo ele, um total de 9 terabites de documentos e servidores foram confiscados, o que seria equivalente a mais de 600 milhões de páginas de word.  “Até agora, nossa equipe identificou 104 relações bancárias, o que significa mais de uma conta em cada uma dessas relações”, disse Lauber. “Isso representa muitas contas bancárias e temos muitos documentos a processar”, insistiu. “Por enquanto, estamos avaliando os dados abertos dos bancos.”

Lauber indicou ter criado um grupo de trabalho para avaliar as contas, com especialistas em crime financeiro, procuradores e profissionais da polícia. Nos últimos anos, a Fifa se transformou em uma potencia econômica com mais de US$ 1,5 bilhão em fundos e movimentando a cada Copa do Mundo mais de US$ 5 bilhões. “Os bancos cumpriram seu dever de alertar sobre as suspeitas. No total, mais de 53 transações financeiras foram identificadas pelo mecanismo de combate à lavagem de dinheiro.”

O MP insiste em não dar informações extras sobre os suspeitos e sobre as contas, alertando que existe o “risco de perda de evidências”. “Não vou colocar nada em risco”, alertou. Nos EUA, o Departamento de Justiça havia apontado para um esquema que envolveu US$ 150 milhões. Os suíços, porém, evitam falar em números por enquanto. Nesta terça, porém, um dos bancos envolvidos já indicou que abriu sindicância. “Abrimos investigações internas”, informou o banco Julius Baer. 

CÚPULA

A nova etapa do escândalo ainda promete promover uma reviravolta no caso. Blatter sempre insistiu que não está implicado e que foi ele quem, em novembro de 2014, entregou evidências para a Justiça. Mas, desde a eclosão do escândalo de corrupção, o cartola decidiu ficar na Suíça e abandonou a ideia de viajar aos torneios da entidade, como o Mundial Sub-20 ou a Copa do Mundo de Futebol Feminino. 

Lauber, agora, alerta que não existe qualquer garantia de que Blatter será preservado. “Esse processo pode ir a qualquer direção. Não sabemos ainda para onde irá”, declarou. Segundo ele, “por enquanto a Fifa é parte interessada”. Mas ele não exclui nenhuma possibilidade. “Essa investigação pode mudar e o foco também pode mudar”, disse. O MP não exclui ouvir e interrogar nem o presidente da Fifa nem seu secretário-geral. “Teremos entrevista de todas as pessoas interessadas. Não excluímos entrevistar Joseph Blatter e Jérôme Valcke. Começamos com dez pessoas e estamos nesse processo. Mas podemos adicionar novos atores.”

Mas o MP pede que o “mundo do futebol tenha paciência”. “Estamos no começo da investigação. É uma investigação em aberto”, insistiu Lauber. O suíço prometeu “acelerar o processo”.  “Mas vai levar tempo. O mundo do futebol terá de ter paciência. Vai levar mais de 90 minutos”, brincou em referência à duração de um jogo de futebol.

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