Juventus, tradição sob suspeita

A Juventus é um dos símbolos de eficiência do futebol da Itália. Equipe ligada à Fiat, em seus 107 anos de existência tem tradição de formar grandes esquadrões, jamais foi rebaixada e é também a maior vencedora de títulos nacionais - 27 scudetti. Essa instituição do calcio, porém, está abalada por escândalo de doping. Depois de longa investigação, por conta de suspeita de uso de drogas para aumentar competitividade de jogadores, um tribunal condenou o médico do clube, Riccardo Agricola, a pena de 22 meses de reclusão. Assim, abriu polêmica em torno da lisura de seus métodos de preparação física.O caso começou seis anos atrás, quando o técnico Zdenek Zeman (hoje no Lecce) deu entrevista bombástica em que afirmava, sem rodeios, que a Juve não tinha só bons jogadores, mas contava com auxílio extra de estimulantes. "O futebol italiano tem de sair da farmácia", disse na época.A reação, nos meios esportivos, oscilou entre incredulidade e insinuações de que Zeman só queria tumultuar. Mas o promotor público Raffaele Guariniello investigou e abriu a caixa preta de métodos usados pelos times profissionais.O cerco aos poucos se fechou em torno da Juventus, embora todos envolvidos negassem comportamento ilícito. O desfecho, embora parcial, ocorreu dias atrás, com a condenação de Agricola, considerado culpado por administrar a substância EPO a jogadores. O tribunal, no entanto, absolveu o secretário geral do clube, Antonio Giraudo, da acusação de ter sido conivente com o médico.A polêmica está longe de terminar. A Gazzetta dello Sport ouviu dirigentes da WADA, a agência internacional que combate o doping no esporte, que se indignaram com o fato de Giraudo ter se safado de pena. "O clube deveria perder os títulos conquistados no período tido como suspeito", alertou Dick Pound, presidente da WADA. A legislação italiana, porém, não prevê essa reprimenda.Marcello Lippi, treinador da seleção da Itália, foi responsável por algumas das conquistas da Juve nos anos 90. E não se conforma com as insinuações. "Nosso time vencia porque tinha força moral estratosférica", esbravejou, além de cutucar Zeman. "Não acho correto que alguém critique um sistema e continue a fazer parte dele", avisou. A resposta veio na bucha. "Quero tornar o sistema mais limpo", replicou Zeman. E a discussão continua aberta.

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