Kafala escraviza os trabalhadores de fora do Catar

Imigrantes têm suas despesas pagas pelas empresas para as quais vão trabalhar, mas ficam com documentos retidos

Leonardo Maia, O Estado de S. Paulo

29 de dezembro de 2013 | 05h02

DOHA - Ao longo dos próximos oito anos, o mais grave dos problemas do Catar só tende a se agravar. O ritmo acelerado da expansão do país e a consequente necessidade por mão de obra estrangeira evidenciou a tragédia do sistema kafala, uma legislação trabalhista que tem o potencial – e na prática tem se confirmado – de escravizar o imigrante. Como sede da Copa do Mundo de 2022, tal situação se intensificou e deixou de ser um problema interno de uma nação diminuta para atrair os olhares do mundo.

No período em que a reportagem do Estado esteve em Doha, no mês passado, a Anistia Internacional visitou o país para apresentar um dossiê com dados assustadores sobre a situação dos trabalhadores, principalmente da construção civil, e cobrar medidas mais enérgicas do governo e dos organizadores do Mundial.

A kafala é um sistema em que os imigrantes têm suas despesas de passagem e visto, entre outras, pagas pelas empresas para as quais vão trabalhar no Catar. Durante o tempo do contrato, os documentos ficam de posse das companhias e os trabalhadores não podem se demitir ou até mesmo retornar a seu país sem a permissão dos patrões.

Diante da negligência do governo catariano em aplicar o mínimo de rigor ao cumprimento das frouxas leis que já existem, os empregadores não pagam o prometido, muitas vezes não pagam nada, além de não garantir condições de segurança e hospedagem minimamente decentes.

"Os empregadores no Catar demonstram um revoltante descaso com direitos humanos básicos dos operários estrangeiros. Muitas (das construtoras) estão se aproveitando de um ambiente permissivo e de frouxa aplicação das leis trabalhistas existentes para explorar os trabalhadores da construção civil", disse Salil Shetty, secretário geral da Anistia, durante a apresentação do levantamento.

O repórter viajou a convite do Supremo Comitê Catar 2022.

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