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Robson Morelli
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Kaká deixa um legado

Meia-atacante anunciou aposentadoria neste domingo; ele foi o último brasileiro a ser eleito o Melhor do Mundo

O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2017 | 03h00

Em rede nacional, para um dos maiores comunicadores do Brasil, Kaká anunciou sua aposentadoria. Galvão Bueno fez a pergunta, num programa especial da Rede Globo com o meia na manhã de ontem, dentro do palco onde ele mais brilhou, o Morumbi. A resposta era esperada, embora ele tenha dito a mim, dois meses atrás, ainda antes de deixar o Orlando City, dos EUA, que tinha, aos 35 anos, gás, preparo físico e entusiasmo para mais uma temporada no futebol brasileiro. O São Paulo era um destino certo, todos imaginavam.

Entre essa nossa conversa e seu anúncio oficial, Kaká teve tempo para voltar ao Brasil, pensar e negociar seu futuro. Apoiado por seus pares e familiares, decidiu trocar as chuteiras por uma carreira na gestão do futebol, que ainda não começou, mas que é sua vontade nesse momento. Kaká é uma daquelas joias raras que aparecem no futebol brasileiro de tempos em tempos.

Sua história vai na contramão da maioria dos meninos que descobre nos campinhos de terra das periferias uma forma de ajudar a mãe, ganhar respeito e se incluir na sociedade. Kaká já tinha tudo isso, mas como seus amigos de infância e os garotos que conheceu nas categorias de base do São Paulo, também adorava jogar futebol. E assim, com o apoio dos pais, jogou por 20 anos. Sua primeira entrevista foi dada ao Estado quando ele tinha 15 anos. Fizemos outra quando completou 20 de carreira, antes de voltar dos EUA.

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Kaká foi eleito o melhor jogador do mundo em 2007, época em que defendia o Milan e era referência para uma legião de seguidores italianos. Foi seu primeiro clube na Europa e onde foi mais feliz, muito mais do que no Real Madrid. Na eleição da Fifa, concorreu com Messi e Cristiano Ronaldo. Mal sabia que depois de sua escolha, a dupla reinaria na preferência dos eleitores durante os próximos dez anos.

Portanto, Kaká foi o último brasileiro a nos dar alegria nesta coroação. Depois dele, nenhum outro. Neymar deve quebrar a hegemonia do português e do argentino muito em breve. Mas ainda não aconteceu. O mérito, e a lembrança do prêmio, ainda é de Kaká.

Mas a importância do meia para o futebol, sobretudo o brasileiro, vai muito além das premiações e troféus que recebeu. Kaká estreou no Morumbi para ser o novo Raí. Em pouco tempo, traçou caminho próprio e foi tão importante para o São Paulo quanto seu antecessor de Ribeirão Preto, camisa 10 e atualmente gestor do clube.

Kaká brilhou no São Paulo e no Milan, inconteste. Deixará saudades. Foi importante no Real Madrid, mas teve de provar para José Mourinho e para si mesmo que poderia render mais. Não rendeu como ele próprio esperava. Ajudou o Orlando City a rabiscar um time nos Estados Unidos, onde também deixará seu legado técnico, esportivo e de muito profissionalismo. Talvez sua maior glória tenha sido vestir a camisa da seleção em três Copas. Em 2002, foi campeão do mundo na “Família Scolari”. Em 2006, em sua melhor fase, defendeu o time de Parreira na Alemanha. Ele próprio diz que aquele foi um timaço, mas que não chegou até o fim. Em 2010, com Dunga, estava machucado, embora tenha desembarcado na África do Sul como estrela da seleção. Tinha uma ponta de esperança de disputar o Mundial no Brasil, em 2014, mas ficou fora da lista dos convocados.

Kaká põe ponto final à carreira sem antes deixar um legado, o do jogador profissional acima de tudo, que cultuou o corpo e soube de sua importância em campo, do exemplo para as crianças, da responsabilidade e envolvimento, da procura pela melhora e aperfeiçoamento, da busca incessante pelo limite, pelo moderno. Kaká será lembrado por tudo isso e ainda pelas passadas largas, arrancadas objetivas e gols bonitos e importantes. Isso foi Kaká.

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