Kaká e Milan: a lua de mel continua

A lua-de-mel de Kaká com a torcida do Milan e a imprensa italiana começou dia 23 de agosto - quando ele entrou em campo pela primeira vez com a camisa rubronegra, jogando 45 minutos no amistoso com o National Bucarest em Cesena - e não dá sinais de que terminará tão cedo. Ele joga cada vez melhor, é cada vez mais ídolo dos torcedores e os elogios que recebe dos jornalistas são cada vez mais abundantes - já foi comparado a Platini, Cruyff, Van Basten... O Milan, que festeja o fato de tê-lo comprado "quase de graça" (US$ 8,2 milhões) para jogar até 2008, está a caminho de ganhar outro presente: Kaká está se mexendo para conseguir o passaporte italiano e com isso abrir uma vaga de extra-comunitário (sem nacionalidade de países que integram a União Européia) no elenco."Uma das minhas bisavós nasceu na Itália e foi muito pequena para o Brasil. Não sabemos muita coisa sobre ela, mas estamos vendo. É um interesse familiar, para facilitar as coisas aqui na Europa", disse por email.Na primeira entrevista que deu ao JT depois de ter sido contratado pelo Milan, publicada na edição de 22 de setembro, Kaká dizia estar preparado para "quando a lua-de-mel terminasse e as cobranças chegassem". Hoje, cinco meses depois, ele ainda não sabe o que é ser criticado ou vaiado. E tornou-se peça-chave no esquema tático do técnico Carlo Ancelotti, não só pela velocidade que dá ao jogo como por ter começado a fazer gols. Foram nove desde outubro, quando fez o primeiro - sete no Campeonato Italiano e dois na Copa dos Campeões -, que o transformaram no vice-artilheiro da equipe na temporada. O ucraniano Shevchenko é o líder com 18 gols, Inzaghi fez apenas quatro - foi atrapalhado por várias contusões e por isso jogou poucas partidas - e o atacante dinamarquês Tomasson marcou sete. "Fazer gols é sempre importante e felizmente estou conseguindo marcar."Kaká tem mais carinho por três dos gols que marcou no clube italiano, dois pela importância e um pela beleza."Os mais importantes foram o primeiro, no dérbi com a Inter, e o que fiz na vitória por 1 a 0 contra o Brugges, na Bélgica, pela Copa dos Campeões. E o mais bonito foi o que marquei contra o Empoli. Foi com um chute de fora da área, coisa que eu não estava acostumado a fazer."A maioria dos gols de Kaká coincidiu com a longa ausência de Inzaghi - ficou quase dois meses afastado por causa de uma lesão muscular na coxa esquerda e ainda não conseguiu jogar 90 minutos em nenhuma partida desde que foi liberado. O time se encaixou bem no esquema em que Shevchenko era o único atacante nato e o meio-de-campo tinha três meias - Kaká, Rui Costa e Seedorf -, mas o brasileiro diz que não tem preferência por jogar atrás de um ou dois atacantes. "O melhor esquema quem decide é o treinador. O que eu quero é estar sempre no time. E para nós a recuperação do Inzaghi foi ótima. Ele é um grande jogador e um grande artilheiro."O Milan lidera o Campeonato Italiano e semana que vem voltará a disputar a Copa dos Campeões, enfrentando o Sparta Praga nas oitavas-de-final. Mas no meio da semana foi eliminado da Copa da Itália ao perder para a Lazio em Roma por 4 a 0 na semifinal. A repercussão do desastre foi péssima na Itália e provocou críticas furiosas do vice-presidente Adriano Galliani, mas Kaká - que não participou da partida porque o treinador preferiu escalar um time quase só de reservas - acredita que o resultado não afetará o ânimo do time na luta pelos dois títulos que ainda pode ganhar."Tenho certeza de que a eliminação da Copa da Itália não vai nos abater. Sempre tivemos como meta ganhar o Campeonato Italiano e a Copa dos Campeões e vamos continuar muito fortes nessas duas competições."O que chateou mesmo Kaká este ano foi o fracasso da Seleção Sub-23 no Torneio Pré-Olímpico. Ele esperava que a Seleção se classificasse mesmo sem contar com seu futebol, porque sonhava em entrar para a história ganhando a medalha de ouro em Atenas. Acompanhou o torneio à distância, sem conseguir ver os jogos, e sofreu muito com a derrota fatal para o Paraguai na última rodada."Ficava ligando para amigos no Brasil que estavam vendo o jogo e ia recebendo informações sobre o andamento. Se o time não se classificou, tenho certeza de que não foi por culpa dos jogadores nem do Ricardo Gomes, que é um ótimo profissional e tem um caráter incrível. Sempre que fui convocado para o time Sub-23 tive o respaldo de profissionais muito competentes na comissão técnica. Perder é do jogo, nem sempre há culpados quando acontece uma derrota."Kaká não foi liberado para o Pré-Olímpico porque a competição não foi considerada "oficial" pela Fifa. Entre 6 e 25 de julho, no Peru, será disputada a Copa América - essa sim, uma competição oficial. Mas, cauteloso, ele prefere não dar certeza de que poderá jogar, já que o torneio coincidirá com o fim das férias e início da pré-temporada na Itália."Quero estar com a Seleção toda vez que for convocado, mas isso sempre depende de um acerto entre a CBF e o Milan. A Copa América é uma competição importante para o Brasil. Vamos ver como as coisas acontecem até lá."Hoje ele se apresentará em Dublin ao técnico Carlos Alberto Parreira para o amistoso de quarta-feira contra a Irlanda. E reencontrará um velho companheiro: Júlio Baptista, seu melhor amigo no futebol. "A convocação do Júlio não foi surpresa para mim. Ele está em ótima fase no Sevilla e é um jogador muito importante para qualquer time. É forte, tem habilidade e é de um espírito de grupo incrível. Tenho certeza de que ele vai agarrar essa chance na Seleção. E esse amistoso também vai ser bom para eu rever o Luís Fabiano. Vai ser bom poder reviver um pouco os tempos de São Paulo."

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