Kia planeja vôos mais altos

O novo chefão do Corinthians, Kiavash Joorabchian, ou simplesmente Kia, da Media Sports Investiment (MSI), pretende usar o clube como base para ambiciosas operações na economia brasileira. Perspicaz, com prática em vultosos empreendimentos desde 1989, quando se tornou negociador internacional de petróleo, o executivo iraniano - canadense ou inglês, de acordo com suas cinco identidades - viu no Brasil as chances ideais para fazer dinheiro. Sua intenção é se apossar dos direitos de transmissão dos times e das competições brasileiras e, utilizando sua capacidade de negociação, revendê-los a preços maiores no exterior.Veio ao País no ano passado e reuniu-se com integrantes do Clube dos 13. Inteligente, observador, sondou o terreno onde pisava e percebeu que a politicagem dos cartolas seria um entrave a seu objetivo. Aconselhado por advogados e empresários, decidiu primeiramente instalar-se em um grande clube do País. Buscou o Santos, Guarani, foi paquerado pelo Flamengo e acabou no Corinthians.Detalhou sua estratégia logo no primeiro encontro com os dirigentes do Parque São Jorge. Se associaria ao clube e, mais tarde, negociaria com outras equipes a venda das transmissões das partidas, subvalorizadas em sua opinião. Nos bastidores, conta-se que Kia tem se encontrado com representantes das maiores emissoras de TV brasileiras e, já a partir de 2006, entraria neste mercado. O primeiro passo seria o lançamento do Canal Corinthians, emitido via cabo e com cobertura exclusiva do dia-a-dia corintiano."Ele agora faz o que quiser, é o novo dono do Corinthians", lamentou a ex-presidente Marlene Matheus após a aprovação da parceria, há um mês. As garras do iraniano de 33 anos (ou 34, conforme um de seus registros ingleses) puderam ser percebidas segunda-feira, na festa de apresentação da megacontratação Carlos Tevez, do Boca Juniors, ao custo de US$ 19,5 milhões à MSI.Se Tevez era paparicado pelos convidados, Kia não deixava por menos. Deu autógrafos, beijou crianças e se divertiu quando uma dançarina do ventre se aproximou da mesa. Seis seguranças faziam sua guarda e era ele quem mandava na festa. Fez o octogenário Alberto Dualib se tornar figura decorativa no evento, determinou o momento em que o argentino subiria ao palco e deixou claro: nada de entrevistas. Tomando tequila e fumando suas inseparáveis cigarrilhas, ria satisfeito e fazia piadas ao lado do taciturno dirigente. Em determinado momento, virou-se para Dualib e elogiou, em português, a festança. Fala inglês, francês, iraniano e já se faz entender na língua nacional.A empolgação de Kia pôde ser percebida também nas noites paulistanas. Freqüentador dos melhores restaurantes e boates da zona sul da capital, várias vezes foi visto rodeado de belas mulheres. Coisa do passado: hoje namora uma advogada brasileira e reduziu suas saídas noturnas. A mudança, em parte, se deve à insegurança. Pessoa próxima conta que ele ficou chocado com o recente seqüestro de Marina Souza, mãe do jogador Robinho, e por isso alterou seus hábitos.Os conselheiros do Corinthians contrários à parceria suspeitam que Kia seja um testa-de-ferro, representaria capital ilícito e usaria o clube para lavar dinheiro. O iraniano, aliás, jamais afirmou que poderia bancar sozinho os US$ 35 milhões prometidos no início dos 10 anos de contrato.Não que passe perto de ser pobre. Sua fortuna inclui uma residência em Abbey Road, norte de Londres, um imóvel no luxuoso bairro Hampstead, noroeste da capital inglesa, e ainda há indícios de que possui uma vila no sul da França e mais três propriedades na Inglaterra.Com a criação da MSI tornou-se sócio de sua 13ª empresa. Em 1999, por meio da American Capital Investiment, ele e Reza Kermani adquiriram 85% do jornal russo Kommersant. Boris Berezovski, milionário russo condenado por envolvimento com a máfia de contrabando de armas da Chechênia, estaria por trás da operação e, meses depois, assumiu o comando do meio de comunicação. "Nós só vendemos o jornal a um grupo interessado nele", alegou Kia, garantindo não ter tido mais nenhum negócio com o empresário.O milionário russo, contra o qual há um mandado de prisão internacional, vive exilado em Londres e teria conhecido Kia na revendedora da Mercedes Benz de seu pai, Mohammad Joorabchian, próspero homem de negócios que se mudou para a capital inglesa após a Revolução do Islã, em 1979.Berezovski afirmou ao Estado em novembro ser um grande amigo de Kia e disse que ainda não havia decidido se participaria da parceria com o Corinthians. Futuramente, no entanto, não descartava construir o estádio do clube. O iraniano confirma o relacionamento, mas nega o envolvimento dele no negócio."Não há a menor dúvida de que o Berezovski é uma das pessoas que financiam a MSI", declarou o conselheiro e deputado estadual Romeu Tuma Jr., que promete entrar na Justiça contra os integrantes do fundo de investimentos assim que o contrato for registrado em cartório, o que ainda não ocorreu. "Assim que o dinheiro deles entrar no clube, os juízes russos vão pedir a apreensão do capital", disse.Em agosto, Dualib chefiou a delegação que esteve em Londres e visitou, ao lado de Kia, o russo Berezovski. "Eles gastaram US$ 500 mil com a gente", contou o dirigente na reunião do Conselho Deliberativo, dias depois. "Eles têm dinheiro demais", enfatizou, empolgado.

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