Carla Carniel/Reuters
Carla Carniel/Reuters

Laço entre Brasil e Colômbia se fortalece após tragédia da Chapecoense e colombianos na Série A

Segundo especialistas, além da união entre os países causada pela fatalidade da queda do avião, fatores técnicos e de mercado levaram ao aumento de jogadores estrangeiros no País

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2021 | 12h01

O número de jogadores colombianos atuando no Brasileirão é uma das maiores de toda a história da competição. Nos três últimos anos, incluindo a temporada de 2021, o total foi o mesmo: 17 atletas em cada uma das edições. O estreitamento dos laços afetivos com o país sul-americano pode ser explicado pela onda de solidariedade após a tragédia do voo da Chapecoense, em 2016, que vitimou 71 pessoas. No entanto, fatores como a melhoria no monitoramento de atletas e a atratividade do mercado brasileiro também contribuem para esse movimento. 

Ao contrário de todos os outros anos da era dos pontos corridos, de 2003, essa é a primeira vez que o número de atletas vindos da Colômbia jogando no País não fica atrás dos argentinos, também com 17 atletas atuando na elite deste ano.

Em 2013, ano em que o então diretor executivo do Grêmio, Rui Costa, atualmente no São Paulo, protolocou o pedido na CBF para o aumento do número de estrangeiros em campo para cinco atletas, apenas três colombianos jogavam na Série A. Em 2015, esse número subiu para sete, aumentando para 12 no ano seguinte. Na temporada de 2017, os colombianos atuando na elite do Brasil eram 15. Em 2018, foram 13. 

Para Gustavo Grossi, diretor executivo da base do Internacional, e com passagem marcante pelo River Plate nos últimos cinco anos, um dos motivos para isso está relacionado ao laços afetivos que envolveram os dois países após o fatídico acidente com a delegação da Chapecoense no fim de 2016, antes da partida contra o Atlético Nacional, da Colômbia, pela final da Copa Sul-Americana, em Medellín.

"Criou-se um vínculo emocional e bem próximo entre Brasil e Colômbia. Os dois países criaram laços profundos e se aproximaram muito, dentro e fora de campo", aponta. Há ainda, segundo o especialista, questões técnicas e financeiras para este avanço. "Acho que envolvem outros dois fatores. O atleta colombiano possui uma genética privilegiada, individualidades específicas, e geralmente são atletas em projeção, que podem dar certo no Brasil e serem vendidos posteriormente. Depois, vemos a questão econômica. Os atletas argentinos e uruguaios estão num valor de mercado acima, quase 300% maior que o colombiano, e isso também pesa em algumas situações", detalha.

"Esse ano começamos a olhar mais para o mercado sul-americano. A passagem do Yesús Cabrera não dá para analisar muito por que ele só chegou em agosto, ficou um período no departamento médico, mas fez bons jogos e tem de tudo para crescer. Por isso considero um mercado interessante. Não são jogadores com perfil do argentino e uruguaio, com adaptação mais fácil, mas são atletas de qualidade, com jeito de jogar do atleta brasileiro, e se hoje temos 17 na Série A, tenho certeza de que a tendência será mantê-los para os próximos anos", explica Cristiano Dresch, vice-presidente do Cuiabá.

Mercado e análise de desempenho contribuem

Gerente de futebol do Bahia, Júnior Chávare destaca o fator de os clubes terem se estruturado em seus departamentos de análise, fazendo com que mais atletas sul-americanos, consequentemente os colombianos, passassem a jogar no Brasil. "Os clubes se estruturam muito em departamentos com análises de dados e desempenho, e esse departamento aqui no Bahia, conhecido como DADE, faz isso com excelência aqui no clube, tanto é que trouxemos bons atletas vindos da Colômbia e de outros mercados sul-americanos", acrescenta.

Em 2021, a quantidade de estrangeiros atuando na Série A do futebol brasileiro ultrapassou a marca de 70 jogadores, mas ainda é o menor dos últimos cinco anos, de acordo com dados do site Transfermarkt. Até o momento, 73 atletas de outros países atuam na elite nacional. Em 2020, foram 84. Em 2019, 76. Em 2018, 78. Em 2017, 77. E em 2016, 79. 

O número é superior a 2015, quando 57 passaram pelo Brasil. Dos 73 atletas, 17 são de Colômbia e Argentina, 11 do Uruguai, 9 do Paraguai, 7 do Chile, 5 do Equador, 2 da Venezuela e 1 do Peru, Itália, EUA, Espanha e Coréia do Sul.

"O mercado sul-americano cresceu esportivamente e o Internacional sempre foi um celeiro de atletas vindos de países vizinhos. Hoje mesmo temos profissionais de nacionalidades diferentes em nosso grupo e não creio que isso aconteça apenas pela questão financeira ou pelo leque maior de opções que temos na América do Sul, mas muito mais pelo crescimento técnico e o quanto isso pode representar em termos de resultados dentro e fora de campo", opina o presidente Colorado, Alessandro Barcellos.

A opinião é corroborada pelo presidente do Fortaleza, Marcelo Paz. O mandatário do clube de Juan Pablo Vojvoda — técnico argentino sensação do Brasilerão — destaca a importância do intercâmbio de profissionais. 

"Acho válida essa miscigenação. Já está claro que podemos ter bons jogadores no Brasil, tanto argentinos, colombianos, chilenos, uruguaios e por aí vai", diz. "Então, muito clubes já entendem a operação, tem relacionamento com clubes de outros países da América do Sul, e isso facilita nesse intercâmbio e troca esportiva", explica.

Visibilidade no Brasil atrai atletas estrangeiros

Eduardo Carlezzo, advogado especializado em negócios do futebol e sócio do Carlezzo Advogados, vê a potencialidade do Campeonato Brasileiro como um atrativo. Nos últimos meses, seu escritório trabalhou na transferência de diversos atletas para o País,: Matias Lacava (Santos), Palacios (Internacional), Eduardo Vargas (Atlético Mineiro), Cesar Pinares (Grêmio) e Kuscevic (Palmeiras). 

"Os jogadores sul-americanos querem jogar no Brasil. Há um interesse claro em disputar essa competição, seja pelo nível de jogos, superior aos demais países do continente, seja pela estrutura dos clubes, dos estádios e, também, pelos salários. No âmbito do continente americano, o Brasil, tradicionalmente, concorre com os clubes mexicanos na busca pelos melhores talentos da região. Essa concorrência, neste ano, ficou ainda mais forte pois os clubes dos EUA passaram a abrir os cofres e estão gastando altas quantias no mercado de transferências", diz.

Confira os jogadores colombianos que jogam no Brasileirão

Orlando Berrío - América-MG

Dylan Borrero - Atlético-MG

Nicolás Hernández - Athletico-PR

Juan Pablo Ramírez - Bahia

Hugo Rodallega - Bahia

Stiven Mendoza - Ceará

Yony González - Ceará

Victor Cantillo - Corinthians

Yesús Cabrera - Cuiabá

Jhon Arias - Fluminense

Miguel Borja - Grêmio

Jamintin Campaz - Grêmio

Juan Manuel Cuesta - Internacional

Juan Quintero - Juventude

César Haydar - Red Bull Bragantino

Luis Orejuela - São Paulo

Santiago Tréllez - Sport

 

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