Imagem Ugo Giorgetti
Colunista
Ugo Giorgetti
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Lance raro?

Por que ficamos tão pobres na cobrança de faltas? Ficou mais difícil ultrapassar barreiras?

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2017 | 07h00

Vejo um jogo de futebol e, às vezes, fico com a sensação de que falta alguma coisa. Algo que antes estava não está mais. Será apenas uma sensação? Por exemplo: tenho a impressão que não há mais batedores de falta no futebol brasileiro. Ainda vejo aqui e ali um gol de falta, mas são raros. 

Isso me ocorreu outro dia ao ver uma falta bem batida. Não foi gol, não lembro se o goleiro pegou, mas tinha a forma das antigas cobranças. A bola fez uma curva elegante, ultrapassou a barreira e passou raspando a trave, com o goleiro apenas torcendo. Acho que foi esse lance que me chamou a atenção para a raridade da coisa. Será que me engano quando penso que entre as coisas que estamos deixando para trás está também o grande batedor de faltas? Aquela falta nas imediações da área que, quando o batedor ajeitava a bola, fazia correr um frio pela espinha do torcedor. Será que é só impressão minha, ou o lance está em vias de desaparecer?

Qual o time grande hoje que tem um daqueles batedores implacáveis,de outros tempos? Quem hoje tem um Pita,um Neto, um Alex para não ir mais para trás e falar de um Zico, um Jorge Mendonça, Edu Jonas, Éder Aleixo, Nelinho e outros e outros. A impressão que tenho é que a falta maliciosa, que encobria a barreira, desviava caprichosamente sua trajetória e caia no gol, era um invenção tão genuinamente brasileira como o drible. 

Lembro de um jogo dos anos 50, quando o Benfica de Portugal esteve por aqui enfrentando o Corinthians. Claudio Cristóvão Pinho bateu uma falta da entrada da área como costumava fazer. O goleiro nem se mexeu. Depois do jogo entrevistado ainda no campo, disse com voz atônita e no delicioso português de Portugal: “Não sei, pareceu-me que ia fora, mas de repente a bola fez uma curvita!” 

É claro que não espero que uma bola com curva surpreenda alguém no mundo de hoje e sei que a falta bem batida não desapareceu de todo. Alguns jogadores até parecem ter algo dos grandes jogadores do passado. Vejo Lucas Lima, do Santos, canhoto como convém, com todos os trejeitos do grande batedor, e, contudo, não é um deles. 

Por que ficamos tão pobres na cobrança direta de faltas? Atualmente é muito mais utilizado o cruzamento para a área na esperança que a bola bata em alguém no meio do bolo e entre no gol. A habilidade do antigo batedor que desafiava barreiras e goleiros hoje passou para alguém que sabe cruzar e colocar a bola num lugar adequado e fatal, em velocidade e altura precisas, para bater na cabeça de alguém a poucos metros do goleiro. Ou se recorre a uma jogada ensaiada que também dispensa o tiro direto. Nossa maneira de chegar ao gol pode estar mudando. Por que? Gostaria de fazer essa pergunta para os treinadores famosos que se tornaram comentaristas. Ficou mais difícil ultrapassar barreiras? A média de altura do jogador brasileiro aumentou, são mais altos e difíceis de transpor? Os goleiros tem mais envergadura e chegam a lugares antes inalcançáveis por antigos goleiros? 

Qualquer explicação pode ser correta, mas, num tempo em que se sofisticaram os treinamentos, em que há exercícios especiais para corrigir qualquer defeito, por que não há mais batedores com antes? Gostaria de acreditar em outra explicação: ainda existem no futebol coisas que não se ensinam nem se apreendem, que dependem somente de talento, essa palavra esquecida. Hoje, qualquer falta é perigosa, menos as que realmente ofereciam perigo. 

Qualquer falta no meio do campo é motivo de apreensão e zagueiros vão para a área adversária, desesperados, às cotoveladas e empurrões. E as faltas perto da área, quase na meia lua, não são mais fatais. Devemos concluir que a habilidade perdeu mais uma para a força bruta? 

Tudo o que sabemos sobre:
Futebol

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.