Leonardo Soares/AE - 11/09/2011
Leonardo Soares/AE - 11/09/2011

Leandro Damião, da várzea para o mundo

Aos 22 anos, centroavante do Inter aparece como favorito para ser o novo 9 do Brasil

Marcius Azevedo, Jornal da Tarde

12 de setembro de 2011 | 22h44

Os gols do atacante Leandro Damião já valeram R$ 30 nos campos de terra batida da várzea paulistana. Hoje, eles valem mais de A 18 milhões (R$ 41,4 milhões), valor da proposta apresentada pelo Tottenham, da Inglaterra, na última janela de transferências na Europa e que foi prontamente recusada pelo Internacional.

A mudança radical de vida não mudou o cotidiano e o jeito de ser do goleador.Ele mantém a simplicidade que herdou do pai Natalino, o famoso seu Bigode, lavrador que trocou a pequena cidade paranaense de Jardim Alegre por São Paulo, e criou o filho no Jardim Ângela, bairro que fica na Zona Sul da capital às margens da Represa de Guarapiranga e que já foi considerado pela Organização das Nações Unidas como a região urbana mais violenta do mundo.

Leandro Damião não se preocupa se o carro que vai comprar é o modelo mais bonito ou o último da marca, ou se tem todos os acessórios disponíveis. Muito menos ele procura se vestir apenas com roupas de grifes famosas, ou ostentar joias caríssimas nas orelhas e no pescoço. Avesso a colunas sociais, como pessoas próximas gostam de dizer, o atacante se casou com Nádia, namorada de quase dez anos e com quem dividiu os tempos de incertezas.

O futebol entrou cedo na vida do atacante, mas não da maneira que normalmente acontece com os jogadores do seu quilate. Há quatro anos, ele desfilava seu faro apurado para o gol em equipes amadoras de São Paulo. Antes de brilhar pelo Internacional e, aos poucos, conquistar espaço na Seleção Brasileira com o técnico Mano Menezes, o jogador defendeu o ‘Família Tupi City’ e o ‘Nós Travamos’ do próprio Jardim Ângela, além do Estrela da Saúde, do Jardim Aracati.

Por R$ 30 cada vez que entrava em campo, Damião dava o sangue para defender seu time, ignorando muitas vezes o risco que corria, já que alguns desses jogos eram disputados próximo de favelas (com o cheiro de drogas no ar, como ele mesmo afirmou em uma recente entrevista) e os adversários, muitas vezes, não entendiam que sua função era marcar gols.

Leandro Damião foi ameaçado de agressão e até de morte em casos extremos se fosse o autor do tento da vitória.Em campo, as incessantes pancadas que levava dos zagueiros ajudou a forjar um jogador forte, imune aos pontapés, e sempre pronto para surpreender o marcador com um toque rebuscado. Atuar no terrão da várzea nunca foi um problema. O talento era latente.

Faltava uma chance para o futebol, enfim, virar o sustento de sua vida.Foi então que surgiu um teste no Atlético de Ibirama, em Santa Catarina. Tudo resolvido? Nada disso. Para Leandro Damião nunca nada foi fácil. Ele foi reprovado ao tentar a sorte como volante. Sem dinheiro para pegar um ônibus de volta para casa, pediu mais uma chance. Desta vez, como centroavante, e acabou aprovado.

Atuando nos campos catarinenses, o atacante, que ainda passou sem muito brilho por XV de Outubro, Marcílio Dias e Cidade Azul sempre por empréstimo, foi descoberto pelo empresário Vinícius Prates. Ele foi o responsável por levá-lo para um período de três meses de testes no Internacional. Com 40 dias no Beira-Rio, já queriam dispensá-lo.

Quem segurou o jogador foi coincidentemente o atual presidente do Colorado, Giovanni Luigi, que era diretor na época, e Giscard Salton, que trabalhava nas categorias de base. Por insistência de Vinícius Prates, os dois decidiram dar mais um tempo para o atacante provar seu valor. Foi um tiro certeiro.

Leandro Damião se destacou no Campeonato Gaúcho de juniores – foi o artilheiro – e depois na conquista da Copa Arthur Dallegrave com o time B do Inter. Os dirigentes do Colorado perceberam que tinham um jogador com potencial em mãos e decidiram comprá-lo, pagando R$ 400 mil por 70% dos direitos econômicos.Faltava lapidá-lo.

Entrou em ação então o ex-jogador de futsal Ortiz. Responsável pelo Projeto Aprimorar, cuja finalidade é trabalhar fundamentos com jogadores com talento para servir o time profissional do Colorado, ele trabalhou com Leandro Damião, que não passou pelas categorias de base de nenhum clube, durante oito meses, em treinos três vezes por semana.

Com Ortiz, o atacante, que tinha uma habilidade além do normal para um jogador de 1,87m (muitos o comparam com o sueco Ibrahimovic), aprimorou o repertório de jogadas que já apresentava nos campos de várzea de São Paulo. Leandro Damião melhorou o cabeceio e passou a finalizar com precisão cirúrgica com os dois pés.A estreia pelo time principal foi avassaladora. Leandro Damião, então um desconhecido, marcou dois gols na vitória sobre o Ypiranga por 4 a 2 pelo Campeonato Gaúcho, dia 17 de janeiro de 2010, com o então técnico Jorge Fossati sentado no banco.

Coincidentemente, naquela noite no Beira-Rio, um olheiro que trabalhava para o Arsenal, da Inglaterra, acompanhava o jogo da tribuna e ficou abismado com o que viu.Acostumado a ter tabulado as estatísticas das principais promessas do futebol brasileiro, ele ficou surpreso em não ter qualquer informação sobre aquele jogador habilidoso, que era soberano dentro da área, com uma noção fora do comum de posicionamento e um poder de finalização visto apenas nos melhores centroavantes do mundo.

Outro detalhe que chamou a atenção dos olhos calejados em observar bons jogadores do profissional e que é destacado por todos que falam sobre Leandro Damião é que, além da facilidade para marcar gols, ele dificilmente se desconcentra nas partidas. Está sempre pronto para aproveitar qualquer vacilo do seu marcador para empurrar a bola para as redes do adversário.

Leandro Damião também não costuma diferenciar o adversário que tem pela frente. Ele encara o Barcelona, como ocorreu recentemente na Copa Audi, em Munique, na Alemanha, com o mesmo grau de concentração de qualquer jogo válido pelo Brasileirão, ou até mesmo das partidas que ele disputava na várzea pouco tempo atrás.

Não à toa, o atacante tem um desempenho impressionante. Pelo Inter, Leandro Damião registra 36 gols em 44 jogos, média de 0,81 por partida. Pela Seleção, ele marcou o primeiro gol contra Gana, no amistoso disputado na última segunda-feira, em Londres, o segundo jogo que fez como titular – o outro havia sido diante da seleção da Escócia, em 27 de março.

Sem se deslumbrar com o mundo que está se abrindo para ele – pelo menos por enquanto –, Leandro Damião tem tudo para ter um futuro promissor e usar às costas a tal famosa camisa 9 da Seleção Brasileira por longo tempo.

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