Arte/Estadão
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Leão: ‘O Brasil precisa recuperar sua identidade’

Em entrevista ao 'Estado' para a série FUTEBOL EM DEBATE, ex-goleiro do Palmeiras, Corinthians e da seleção brasileira diz que um dos problemas está em tentar reproduzir o que é feito na Europa em vez de valorizar o futebol do País

Entrevista com

Emerson Leão, ex-jogador

Ciro Campos, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2019 | 09h01

O Brasil precisa voltar a ser Brasil para recuperar o caminho vitorioso no futebol, de suas conquistas. Para o ex-goleiro e ex-técnico Emerson Leão, a seleção brasileira e o futebol nacional caíram de qualidade após passar a copiar o estilo e o modelo estrangeiros em vez de priorizar as características originais. Nesta quarta-feira, o Estado publica mais um capítulo da série Futebol em Debate, para analisar a qualidade do futebol brasileiro.

Neste capítulo 3, o Estado entrevista o campeão mundial em 1970, ídolo do Palmeiras e técnico por mais de 20 anos. Para Leão, um dos problema da queda de rendimento está em tentar reproduzir o que é feito na Europa em vez de valorizar o futebol alegre e bonito que o País sempre teve. O ex-goleiro também critica o comportamento de Neymar, considerado por ele um para-raio de problemas.

A entrevista pode ser ouvida em podcast. Basta acessar os canais de distribuição, como a Deezer e Spotify, e baixar o aplicativo no seu computador ou celular. O conteúdo é publicado no canal Estadão Esporte Clube. O Estado se propõe a discutir a qualidade do futebol brasileiro ouvindo personalidades do País, como jogadores, ex-jogadores e téncicos. No capítulo 1 desta séria, a entrevista foi com Paulo Roberto Falcão. O capítulo 2 trouxe o que pensa Roberto Rivellino. Agora é a vez de Emerson Leão.

Neste ano tem Copa América. Na sua opinião, depois de o Brasil não ter ganho mais uma vez a Copa do Mundo, é uma competição que ganhou um outro status, um outro peso?

Sinceramente, na minha maneira de apreciar, não. Porque já tivemos a surpresa de sermos campeões de outras Copas e na hora dos "vamos ver", da Copa que nos interessa, e nós necessitamos, que é a Copa do Mundo, a gente acaba fazendo vexame. Acho que para nós recuperarmos a hegemonia, o moral, a dignidade de tudo do nosso futebol, vai demorar um pouco. E esse pouco representa mais de décadas, porque nós precisamos ganhar mais umas duas Copas.

Por que o Brasil está agora há quase 20 anos sem ganhar uma Copa do Mundo?

Porque não mereceu. É simples de entender. Acho que as coisas, como a fatalidade de um pênalti, pode decidir uma Copa do Mundo. Mas você ficar 20 anos sem ela, não é fatalidade. É realidade. E essa realidade passa por "n" motivos que está ocorrendo aqui no Brasil. Não só dentro do futebol, como fora dele.

Você comentou que o Brasil precisaria ganhar duas Copas talvez para se recuperar. Por que o Brasil perdeu a sua posição?

Estou dizendo que nós perdemos as nossas identidades. A nossa identidade era ter um futebol alegre, um futebol vistoso, que se tornava competitivo e vitorioso. Ou seja, nós olhávamos para nossas origens. Isso não ocorre mais. Nós somos cópias de outras coisas e não conseguimos. Segundo, os nossos espelhos eram as grandes equipes. Agora, não. Hoje você a televisão, jogo de manhã, de tarde, de noite, de todos os países. As nossas lojas vendem mais camisas de times europeus, as nossas sementes deixaram de ser sementes reproduzidas dentro de nosso solo, vão ser reproduzidas na Europa. O dinheiro tomou conta.

Existiu ao seu ver algum ponto de virada em que o Brasil deixou de ter essa identidade?

O ponto de virada não começou. Veio crescendo sem nós notarmos. Eu acho que a nossa ambição financeira e por necessidade às vezes até do clubes, começaram a vender sua origem, sua base. Aqui não se forma mais quase ninguém. Um garoto de 12 anos já saiu do Brasil. Antigamente saíam os mais credenciados, acima de 25, 26 anos. Se nós tivessemos uma coordenação melhor, isso seria uma ajuda. Os jogadores viraram superstars, são intocáveis. Os treinadores têm cada vez mais dificuldade.

Jogador é mais folgado hoje?

Ele é só folgado. O Palmeiras tem um monte de jogadores bons e não estava dando conta do recado. O Felipão chegou. Só dele ficar no meio do campo, já melhora. Porque aquele que está fazendo as coisas lá fala: "Olha o homem lá, agora complicou".

Sente saudades do futebol?

Não sinto saudades. Quando você faz uma coisa com a intensidade do coração, você não sente saudades. Por quê? Porque você deixou um legado. Mas você não consegue desvincular. Eu fico satisfeito de ver novamente acontecendo uma mudança dos treinadores no futebol. Apesar de todo mundo falar: "o experiente virou velho, virou ultrapassado". Agora eles estão voltando todos porque os jovens, que não são experientes, não conseguiram ainda e espero que deem conta do recado. Porque são muito jovens. Então, os mais velhos voltaram a assumir.

Esse processo dos mais experientes reassumirem parece algo recente. Talvez o próprio título do Felipão do ano passado tenha sido um comprovante disso...

Não. Nós já temos o Mano (Menezes) algumas vezes, nosso treinador da seleção brasileira, que não é tão jovem...uma casta muito grande de quem aceitou retornar. Eu fico satisfeito com isso. Acho legal. Eles voltaram e voltaram com uma maneira diferente de trabalhar. Passaram a ser protetores do futebol brasileiro e dos treinadores jovens. Então, os dirigentes precisam entender que os mais velhos não são para derrubar os mais novos e sim para auxiliar os mais jovens.

Qual a sua avaliação sobre o trabalho do Tite?

Treinador de seleção brasileira não trabalha dentro do campo. Ele precisa ficar viajando, conversando com jogador, conversando com dirigente, vendo postura, arrumando amistoso. O Tite tem pouco tempo para trabalhar. O que precisamos entender é que precisamos convocar a seleção brasileira para trabalhar. Como? Nós temos de ficar no mínimo 30 dias trabalhando em treinamento, em decisões, em táticas. Agora, coitado do Tite. Eu passei por lá também. A gente passa viajando. O jogo já foi marcado e vendido lá para trás para uma empresa, uma patrocinadora.

O torcedor perdeu identificação com a seleção?

Sim. Antes a gente ficava sentado olhando para a televisão para ficarmos sabendo da convocação ou não. Hoje a coisa é diferente. Os nossos últimos craques, esquecem de jogar, mas querem ser o Brad Pitt, serem astros. Nós precisamos voltar para a nossa origem. Tem horas que voltar atrás é muito melhor do que seguir à frente errando.

Dos goleiros brasileiros atuais, tem algum que você gosta?

Essa pergunta estão me fazendo há mais de dez anos. Agora está na moda: goleiro tem de saber jogar com o pé. É lógico. Ele tem dois. Faz parte do corpo humano. Goleiro tem que pegar é bola. E antes de pegar a bola, para que ela não chegue tanto, você tem de ter comando. Através do comando, você tem uma hierarquia dentro do campo, para coordenar as coisas de trás. Vejo uma falta nisso nos goleiros também. Os goleiros nossos, os mais velhos são os melhores. O Fábio, do Cruzeiro, é regular há mais de dez anos, ele ganha títulos no Cruzeiro há mais de dez anos.

Por que o Neymar não chegou ainda ao posto de melhor do mundo?

Curto e grosso? Porque ele não mereceu. O dia em que ele merecer, sei lá se vai existir esse dia, porque a gente falava quando ele tinha 17 anos. Hoje ele tem 27. E não aconteceu nada. Só problema, sem solução. Então, vida que segue.

No Brasil o Neymar rende polêmica por ir ao Carnaval, frequentar festas. Na sua opinião a postura dele deveria ser melhor?

Ele vai para todo lugar. Não tem hierarquia. Acabou. Eu não gosto de falar dele, não. Não dá para falar que não é bom jogador. É bom jogador. Mas é problema, é um pára-raio. Ele alimenta essa pára-raio. Desagradabílissimo. Problema dele e dos treinadores dele.

O futebol brasileiro sente uma carência de centroavantes, de camisa 9, de matador...

Isso se chama volta ao passado. Ninguém quer jogar mais de centroavante, não. Os treinos hoje são todos em campo pequeno. Mas nós vamos jogar em campo grande, não em pequeno. Por isso quando aparece um cara mais ou menos que mete gol as pessoas se assustam, porque fica dentro da área. É porque ele é uma exceção. Goleador não precisa ser bom jogador, precisa ser goleador.

Sente orgulho de ver ex-jogadores seus virarem técnicos?

Eu acho que sinto muito mais orgulho, recompensa, pagamento, do coração, quando vejo um ex-atleta me elogiando. "O professor era chato, pegava no pé, mas devo a ele tudo o que eu aprendi". Isso é muito interessante, muito bom de se ouvir. Sinal que você fazia as coisas certas. Sobre ver muitos jogadores que foram meus atletas sendo treinador, isso é muito bom. Eu recebo muitos telefonemas deles.

A relação da imprensa com o futebol mudou bastante. Como isso impactou no esporte?

Eu trabalhei um ano agora em uma televisão, por prazer. Porque paga pouco para caramba. A imprensa mudou. Esse negócio de técnico esconder o treino, para quê? Isso eu nunca fiz na minha vida como treinador. Esconder o quê? Vamos jogar, vamos treinar, vamos substituir. Você faz uma coisa tão bem feita que o outro não consegue segurar.

Gosta da presença de estrangeiros?

Os ídolos brasileiros dos times são estrangeiros que foram para a Europa, não deram certo e voltaram. Aqui virou um Shangri-Lá financeiro. Todo mundo corre para cá agora. O Brasil é um país pobre, que paga como rico. A verdade é essa. Eu acho que tem cada empresário muito bom, porque coloca cada cara muito ruim dentro de grandes equipes. O jogador não é o bom, o bom é o empresário dele.

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