Lei Pelé é trunfo para clubes economizarem

O Corinthians levou 12 jogadores para o Parque São Jorge, o Santos reforçou-se com 7 e o São Paulo, sonhando com o tri da Libertadores, contratou 6. Há alguns anos teriam gasto milhões para tanto, mas, por incrível que possa parecer, não tiraram quase nada do bolso, ou de seus cofres. Não é tão incrível assim. Os dirigentes apenas resolveram explorar a Lei Pelé - em vigor desde março de 2001 -, que tantas vezes os prejudicou.Foram atrás de atletas que não tinham mais contrato com seus antigos ?proprietários? ou que haviam se desvinculado de suas agremiações. E, assim, tiveram só o trabalho de fazer o contrato com o jogador, bancando seus salários e nada mais.O grande astro corintiano para 2004, por exemplo, será Fábio Costa. O goleiro, no entanto, chegou de graça, pois seu vínculo com o Santos terminou em 31 de dezembro.Até pouco tempo atrás, os cartolas sofriam com a Lei Pelé, embora atualmente ainda não estejam totalmente habituados a ela. Perdiam seus jogadores sem nada ganhar em troca e não podiam fazer nada. Com o fim do passe, os clubes deixaram de ter a garantia sobre sua ?mercadoria?. Pois basta o contrato expirar para que o atleta fique livre.O Grêmio perdeu dinheirão com Ronaldinho Gaúcho, a Portuguesa deixou seu principal jogador nos últimos anos, Ricardo Oliveira, escapar... De acordo com Ives Gandra da Silva Martins, advogado e presidente do Conselho Consultivo do São Paulo, os grandes favorecidos com a Lei Pelé foram os empresários, que passaram a controlar o mercado.Seu clube de coração perdeu, no ano passado, Maldonado para o Cruzeiro. O volante chileno preferiu transferir-se para Belo Horizonte a renovar seu vínculo com os paulistas. Situação parecida ocorreu com Sandro Hiroshi, que saiu do Morumbi sem bônus para os são-paulinos. Com o tempo, porém, os dirigentes são-paulinos aprenderam a lidar com a nova lei e usaram e abusaram dela nas últimas semanas.Contrataram Rodrigo, que se livrou da Ponte Preta na Justiça por falta de pagamento, o ex-atleticano Cicinho, cuja situação é a mesma do ponte-pretano, e Danilo, que teve seu contrato encerrado com o Goiás. O São Paulo só gastou com Vélber. Pagou R$ 800 mil ao Paysandu por 60% de seus direitos.É discutível, no entanto, se as contratações vão dar bom resultado. Nenhum fora de série chegou para os clubes paulistas e brasileiros - com exceção de Rivaldo, que acertou com o Cruzeiro. Até porque, os verdadeiros craques costumam manter contratos mais longos com suas agremiações, método utilizado pelos dirigentes para garantir sua permanência. E quem quiser levá-los terá de pagar elevada multa rescisória. É o caso, por exemplo, de Luís Fabiano, do São Paulo.Folhas enxutas - O Fluminense ficou com Leonardo Moura, dispensado pelo São Paulo, e o Vasco repatriou Marcelinho Carioca, que fugiu do mundo árabe. Em Porto Alegre, Grêmio e Inter só vão se reforçar com os chamados bons e baratos. A exceção no País é o Cruzeiro, que contratou Rivaldo. O meia receberá R$ 230 mil mensais, mas só metade será paga pelos mineiros. A outra parte ficará sob responsabilidade de um patrocinador.A maior preocupação dos clubes é manter a folha de pagamento enxuta. O Corinthians, apesar dos 12 novos atletas, não verá seus custos aumentarem - mantêm-se em R$ 1,3 milhão mensais. Com a dispensa de César, André Luiz, entre outros, reduziu em cerca de R$ 400 mil e ainda conseguiu aumento de aproximadamente R$ 100 mil na receita proveniente da Pepsi, sua patrocinadora. Essa gordura é suficiente para pagar seus reforços.A situação de Santos, que gasta cerca de R$ 1,3 milhão, e São Paulo, R$ 1,5 milhão por mês, é idêntica. E o Palmeiras, que tem a folha mais baixa dos grandes paulistas (R$ 850 mil), foi o único que pouco usufruiu da Lei Pelé. Trouxe apenas o zagueiro Nen, ex-Gama. Aposta na base campeã da Série B de 2003.O recordista em gastar pouco no momento, porém, vem do Rio. Trata-se do Vasco, cuja folha não passa dos R$ 400 mil. Nesse valor já está computada a dívida de R$ 130 mil paga a Romário mensalmente. A nova diretoria do Flamengo também pôs fim à farra das contratações e tenta retomar a velha máxima de que craque se faz em casa. A fábrica rubro-negra está para ser construída em um terreno em Vargem Grande, zona oeste do Rio, e está orçada em R$ 10 milhões.

Agencia Estado,

10 de janeiro de 2004 | 09h59

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.