Darren Staples|Reuters
Torcida faz contagem regressiva para título inédito na Inglaterra Darren Staples|Reuters

De esqueleto de rei a escândalo sexual: as histórias do Leicester

Modesto time quer se manter na ponta para conquistar título inédito

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

16 de abril de 2016 | 17h00

A cinco jogos do fim do Campeonato Inglês o Leicester enfrenta a própria ansiedade para ser campeão pela primeira vez. O time recebe neste domingo o West Ham no King Power Stadium para tentar manter a diferença de sete pontos para o Tottenham e continuar no rumo para ser o primeiro campeão inédito do país nos últimos 38 anos.

O feito é digno de conto de fadas para um elenco apontado como candidato ao rebaixamento. Na última temporada o clube por pouco não caiu, passou por reformulações e pouco contratou. O clube pequeno desafia os grandes da liga mais cara do mundo, nação onde nos últimos 23 anos, quatro times concentraram 22 títulos.

O clube de 132 anos de histórica tem como melhor campanha no Campeonato Inglês um vice-campeonato em 1929 e constrói os resultados atuais com base em uma equipe que joga como time pequeno. O Leicester tem se mostrado eficiente e rápido nos contra-ataques.

A surpresa, que deixou para trás os grandes favoritos, já está classificada para a inédita Liga dos Campeões. Mesmo que cometa deslizes em sequência e perca a corrida para o Tottenham, deixará como legado histórias curiosas na campanha.

Uma delas está nas tradicionais casas de apostas inglesas. O Leicester era o menos cotado entre os 20 participantes e, por isso, o que mais oferecia ganho. A cada libra depositada no título do time, o apostador receberia o retorno de 50 libras.

A valorização fez a Ladbrokes, uma das principais casas da Inglaterra, rever a premiação. A empresa entrou em acordo com o único a ter arriscado a fé no Leicester. O torcedor, que depositou 50 libras (cerca de R$ 250), recebeu de forma antecipada um prêmio de aproximadamente de R$ 360 mil.

A caminhada do Leicester motivou até um fã na Austrália. Tony Skeffington, de 51 anos, estava com um câncer em estado terminal no fim da última temporada. Para surpresa dos médicos, ele ainda continua vivo. “Ver o Leicester retornar da luta contra o rebaixamento e ver como eles estão indo bem nesta temporada está me ajudando a lutar”, disse em entrevista ao jornal Leicester Mercury.

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Time trocou de técnico após confusão e vídeo de sexo na Tailândia

Clube apostou em Claudio Ranieri, que estava em baixa no futebol

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

16 de abril de 2016 | 17h00

A uma semana do início da pré-temporada o Leicester não tinha técnico e tampouco explicações sobre a demissão de Nigel Pearson. As seis temporadas dele no clube e a simpatia da torcida não o ajudaram a contornar o abalo causado por um escândalo sexual protagonizado pelo filho, o zagueiro James Pearson, que também foi dispensado.

O jogador e outros dois companheiros de clube estavam em uma viagem de férias pela Tailândia, país dos donos do Leicester, onde o trio gravou um vídeo de sexo com garotas locais, em que falavam insultos contra asiáticos. O caso rendeu a saída de todos os envolvidos.

Somente no mês seguinte a diretoria anunciou a demissão do pai de James. Em um comunicado em que disse existir “diferenças fundamentais de perspectivas” e que “a convivência profissional não era mais viável” o Leicester demitiu o técnico, que estava na segunda passagem pelo clube. Nunca houve mais esclarecimentos sobre os motivos da troca.

Pouco mais de um mês antes de sair, Pearson havia tirado o time da zona de rebaixamento e garantido a permanência na Premier League. O técnico é um dos mais importantes da história do Leicester, ao ter dirigido o time na maior crise da história, quando chegou à terceira divisão. Foi o comandante quem liderou a retomada do clube, com os títulos nacionais tanto da terceira, como na segunda divisão. Ainda assim, o currículo não foi suficiente.

A escolha para sucessor recaiu para o improvável Claudio Ranieri. O italiano é experiente, tem 64 anos, mas vinha do pior trabalho da longa carreira, ao ser demitido da seleção grega como o culpado de um dos maiores vexames da história do futebol do país.

A passagem de quatro meses terminou com a derrota em casa da Grécia por 1 a 0 para a Ilhas Faroe, território que pertence à

Dinamarca, tem menos de 50 mil habitantes e não é reconhecido como país pela ONU. O resultado fez a seleção grega praticamente não ter mais chances para a Eurocopa deste ano. Ranieri vem de trabalhos de pouca expressão nos últimos anos. O título mais recente foi a segunda divisão da França com o Monaco em 2013. No futebol inglês havia trabalhado com o Chelsea entre 2000 e 2004.

O italiano assumiu o cargo para um contrato de três temporadas, com várias decisões inusitadas. Logo antes da estreia, contra o Sunderland, colocou uma música da banda local Kasabian para inspirar o elenco.

Em outubro, prometeu e cumpriu uma promessa italiana. Quando os jogadores terminaram o primeiro o jogo da temporada sem tomar gols, na vitória por 1 a 0 sobre o Crystal Palace, o técnico levou o elenco a uma pizzaria em Leicester. Era um prêmio pela atuação invicta da defesa. Ranieri quem pagou toda a conta do jantar. 

O contrato dele tem uma cláusula curiosa. Como a expectativa era apenas se livrar do rebaixamento, o técnico vai ganhar o equivalente a R$ 500 mil para cada posição que o time terminar acima do rebaixamento. Se terminar como campeão, o prêmio será de R$ 8,5 milhões. 

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Rejeitados em outros clubes formam base de time surpreendente

Jamie Vardy e Daniel Drinkwater já estão na seleção inglesa

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

16 de abril de 2016 | 17h00

Rejeitados por um clube, esquecidos por diretorias, promessas que não vingaram e atletas de times de segundo escalão. A formação do elenco do Leicester foi mais um "colcha de retalhos" do que um planejamento detalhado de apostas que deram mais certo do que o esperado.

A seleção inglesa ganhou nos últimos meses dois jogadores do Leicester. O atacante Jamie Vardy ganhou espaço nas convocações acompanhado de Daniel Drinkwater, meia que é lembrado pelos trocadilhos com o seu sobrenome, que em inglês significar tomar água.

O meia de 26 anos começou a carreira no Manchester United, clube com mais títulos no Campeonato Inglês. “Ele não teve muitas oportunidades lá. Creio que não viram nele potencial suficiente”, contou o meia brasileiro Rodrigo Possebon, companheiro de Drinkwater na equipe B do United.

Os dois atuaram juntos por uma temporada. Foram campeões da Lancashire Cup, competição local vencida sobre o Liverpool graças a um gol de Drinkwater, que na decisão entrou no segundo tempo na vaga de Possebon.

Apesar de fazer toda a carreira de juvenil no Manchester United o inglês jamais atuou pela equipe principal. Foram empréstimos para quatro clubes diferente até o Leicester topar adquiri-lo em definitivo.

“Não acharam que ele era do nível do Manchester. Como o clube tem dinheiro para contratar quem quiser, acabam valorizando mais quem é estrangeiro”, disse Possebon, atualmente jogador do URT-MG. “No clube tinha muita disputa. Na geração dele apostaram mais em outros jogadores”, explicou.

O setor ofensivo também revelou o potencial de Riyad Mahrez. O argelino de 25 anos veio do Le Havre, da segunda divisão da França, e é especulado como possível reforço do Real Madrid e Barcelona na próxima temporada. Também veio da França o volante N’Golo Kanté, que deixou o pequeno Caen para se destacar e ganhar chances pela seleção do país.

No gol o titular é o dinamarquês Kasper Schmeichel, filho de Peter Schmeichel, ex-goleiro do Manchester United. Kasper começou a carreira no Manchester City, onde era considerado um talento precoce.

Mas por demorar a gerar o retorno esperado, o clube decidiu emprestá-lo para times pequenos, até que o goleiro foi contratado em definitivo para jogar a 4ª divisão. Com o Leicester, foi campeão na 2ª divisão e ganhou mais oportunidades na seleção dinamarquesa.

Um dos principais zagueiros é o alemão Ro bert Huth. Revelado pelo Chelsea, jogou uma Copa aos 21 anos, perambulou por times medianos e agora se reencontrou na carreira. 

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Artilheiro ex-operário faltou ao primeiro treino da carreira

Vardy deixa 8ª divisão até carreira virar exemplo de dedicação

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

16 de abril de 2016 | 17h00

No último mês, a Inglaterra venceu a atual campeã mundial, a Alemanha, em amistoso, em Berlim, com um gol de letra de um ex-operário que faltou no primeiro dia de treino em seu time amador. A improvável e surpreendente história de Depois virou exemplo de dedicação em time amador o levou a ser o principal herói da zebra do futebol inglês.

Somente aos 29 anos, o jogador ganhou destaque, ao superar períodos em equipes amadoras, passar por clubes da 8ª e 5ª divisões e desembarcar no Leicester em 2012 ainda longe de qualquer expectativa como a vivida hoje, como vice-artilheiro do campeonato com 21 gols.

“Ele sempre foi especial e muito rápido. Mas antecipar esse sucesso era impossível”, disse ao Estado Allen Bethel, diretor do clube onde Vardy começou a carreira, o Stocksbridge Park Steels, time amador de Sheffield. A cidade industrial no norte da Inglaterra é onde o atacante nasceu e precisou penar para superar a realidade local da dura rotina nas fábricas.

Os treinos do time eram apenas a segunda obrigação dele até 2010. “Jamie trabalhava em período integral em uma indústria de próteses de carbono para pessoas com deficiência”, contou o dirigente. Nos primeiros quatro anos como amador, ele não recebeu salário no time.

A determinação em superar dificuldades fez Vardy não desanimar quando aos 16 anos foi dispensado por um dos principais clubes da cidade, o Sheffield Wednesday. Nas sete temporadas no time que o acolheu, a principal preocupação de Vardy ao sair do trabalho era comer algum lanche no caminho para ter disposição nos treinos. Nem sempre a escolha era saudável, ele próprio admite.

Depois de anos nas divisões inferiores do Stocksbridge, veio a chance de ser promovido. “No primeiro dia de treino com a equipe principal ele faltou. Foi a única ausência dele em todas as sete temporadas no clube. Quase sempre ele era o primeiro a chegar e o último a sair. Tinha vontade de melhorar”, disse Bethel.

Nas sete temporadas na equipe o maior salário dele foi de R$ 2,4 mil. Em 2010, Vardy deixou o clube para ser contratado pelo Halifax Town, onde venceu a 8ª divisão. As boas atuações o levaram ao Fleetwood Town para novo feito: campeão e artilheiro da 5ª divisão.

As duas equipes pequenas avisaram ao Estado que não dariam entrevistas sobre o atacante. O enorme volume de pedidos da imprensa internacional as impediam de dar conta.

Os sucessos em divisões inferiores chamaram a atenção do Leicester. O clube ainda estava na 2ª divisão quando apostou nele e agora colhe os frutos. Vardy detém o recorde de marcar em 11 jogos seguidos no Campeonato Inglês.

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Funeral de rei do século XV marca ascensão do Leicester na Inglaterra

Time reage após enterro de esqueleto achado em estacionamento

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

16 de abril de 2016 | 17h00

Tirar o esqueleto de um rei de um estacionamento e colocá-lo em uma catedral em Leicester deu sorte à equipe. A curiosa coincidência anima os torcedores na boa fase que parece nortear o caminho rumo ao título inédito.

A virada na história da monarquia inglesa – e na do Leicester – começou em setembro de 2012. Arqueólogos encontraram enterrado metros abaixo de um estacionamento um esqueleto. Durante os meses seguintes pesquisadores da Universidade de Leicester realizaram exames de DNA e estudos para comprovar a identidade do cadáver. E descobriram que se tratava de Ricardo III, o último rei inglês a morrer durante uma guerra.

Em 1485, o monarca foi assassinado durante a Batalha de Bosworth, disputa de dinastias considerada por historiadores um dos marcos do fim da Idade Média. O rei foi retratado em uma das obras do escritor inglês William Shakespeare como um tirano. 

A personalidade controversa de Ricardo III não lhe impediu de ter a descoberta do esqueleto comemorada. A cidade se mobilizou para em março de 2015 organizar um funeral digno de rei. Os restos mortais desfilaram em carruagem, foram saudados nas ruas pelas pessoas e o caixão foi enterrado em uma catedral da Leicester.

Naquela época, o time estava em péssima fase. O último colocado da Premier League tinha perdido 18 dos 29 jogos. Após o funeral, porém, a história mudou de rumo. Nas nove rodadas restantes foram sete vitórias, um empate e apenas uma derrota. A equipe escapou do rebaixamento com folga.

Na temporada seguinte, a boa fase continua. O Leicester é líder com sete pontos de folga e caminha para desfilar tão aclamado pela população da cidade como foi o caixão do rei. “Parece que há mesmo uma coincidência no caso. Nossa cidade tem um grande orgulho de ser a casa do rei”, disse a diretora de marketing do Centro Turístico Rei Ricardo III, Emma Lay.

O local foi inaugurado pouco depois do esqueleto ter sido encontrado. Durante o processo de identificação, torcedores do Leicester e até os donos do clube fizeram doações para que os festejos para o funeral do rei fosse grandioso e compensasse o tempo de esquecimento.

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