Leipzig, um símbolo da reconstrução

Pronto, quem esperava encontrar algum tipo de adaptação dos perfeccionistas alemães se satisfez em Leipzig. A única sede da Copa das Confederações - e, por extensão, do Mundial - localizada onde era a antiga Alemanha Oriental se transformou em enorme canteiro de obras. Reformas em prédios públicos, ampliações de avenidas, construção de novas vias para metrô de superfície agitam a cidade que era uma das pérolas do regime que caiu em 1989 com a unificação. As mudanças chegaram ao esporte e atingiram em cheio o estádio local. O Zentrumstadion é o retrato da Leipzig da reconstrução, de um centro urbano dividido entre a modernidade do robusto capitalismo alemão e o tradicionalismo dos 45 anos de dominação comunista. A arena original foi erguida em 1956, em estilo pesado, clássico, sóbrio em demasia. O novo palco do futebol da região começou a surgir em novembro de 2000, ficou pronto no ano passado e consumiu mais de 100 milhões de euros - a maior parte com dinheiro público. As duas épocas convivem com relativa harmonia. A fachada do estádio não foi removida - e nos salões velhos do prédio de sete andares hoje se encontram o centro de imprensa, o quartel-general da organização local, tanto da Copa das Confederações como do Mundial, escritórios da Fifa. Computadores, luminárias, aparelhos de telefone e televisão, móveis de escritório - tudo de última geração - espalham-se pelos espaços amplos de uma arquitetura que envelheceu. A maquiagem funciona, mas não esconde totalmente marcas de outros tempos e de uma ou outra parede descascada. Por trás do prédio velho, os alemães fizeram um dos maiores e mais impressionantes estádios da próxima Copa. São 44 mil lugares para abrigar torcedores. Bem menos, é verdade, do que os 100 mil do projeto dos tempos de socialismo e que tornaram o Zemtrunstadion o maior das duas Alemanhas. As duas competições de futebol servirão como tentativa de acelerar o processo de integração entre um povo que durante décadas esteve dividido. As diferenças ainda existem, apesar dos 16 anos da queda do muro de Berlim (a menos de duas horas de carro). O ex-alemão oriental tem menos jogo de cintura do que o ex-alemão ocidental, que já não é tão maleável assim. Além disso, é mais reservado, menos aberto a aceitar estrangeiros, menos disponível. Há menos gente que fala inglês com relativa fluência, ao contrário de outras regiões do país, há mais rigidez no trato com o público e pequenos gestos de gentileza (como pedir licença, responder a um agradecimento, prestar informação para turista) nem sempre são observados. Não se perdem sem traumas traços de personalidade forjados por regime autoritário.

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