Leverkusen ignora seleção brasileira

Uma espessa fumaça branca escapa da chaminé de pouco mais de 300 metros, dia e noite. Ao lado da chaminé uma enorme logomarca da Bayer. À noite, o símbolo da poderosa multinacional química resplandece em Leverkusen. Mais ou menos assim: aqui a Bayer manda. E manda mesmo. A cidade sobrevive da sua gigante que banca quase tudo, inclusive o futebol do lugar. O futebol é um acontecimento em Leverkusen. Dizem na cidade que o Bayer Leverkusen é mesmo o orgulho do povo. O time compra jogadores brasileiros desde 1980. Juan e Roque Júnior, servindo a Seleção, são os mais recentes astros de uma linhagem que começou com Tita, ex-Flamengo, no início dos anos 80, passou pelos tetracampeões Jorginho e Paulo Sérgio, e mais Zé Roberto, Emerson, Lúcio, os três da atual Seleção, e ainda França, Rodrigo Pontes. Tamanha admiração por brasileiros era de se esperar uma veneração aos pentacampeões que desde sábado estão na cidade. Que nada! Leverkusen ignorou solenemente a Seleção. Não se viu uma bandeira do Brasil nas ruas, fachadas, esquinas. Apenas algumas lojas estamparam a camisa amarelinha - a mais barata e não oficial vendida a 15 euros (R$ 52,5). No centro da cidade, uma teia de pequenos shoppings entrelaçados em ruas de lazer, quase ninguém vestia amarelo. Um turco dono de uma fluricultura era a exceção. Em uma sorveteria, a funcionária portuguesa, admiradora do Brasil, nem sabia que a Seleção estava em Leverkusen e muito menos o que era Copa das Confederações. "Jogo de futebol? Brasil, Copa? Não, não sei de nada", se desculpou a moça de Portugal. Nas ruas, indiferença geral. Velhos e jovens alemães trafegando de bicicletas, tocando suas vidas. Nos parques, e quantos parques têm Leverkusen, crianças voltando da escola. Metódicos senhores e senhoras vivendo o cotidiano sem a menor idéia de que os pentacampeões da bola estavam ali pertinho. Leverkusen não parou nem se entusiasmou com a Seleção. A cidade completou 75 anos dia 1º de abril. Festas oficiais pipocam desde o início e devem continuar até o final do ano. Há uma paixão por flores. Em outubro, acontece a Estação Horticultural Show, exposição de flores e festa, muita festa municipal. A Bayer está por trás disso tudo. Nas suas instalações de 3,4 quilômetros quadrados trabalham 20 mil dos 160 mil habitantes de Leverkusen. Os jovens gostam de futebol. Em nome da paixão, 15 mil deles lotaram a BayArena para ver o treino da Seleção Brasileira no domingo. Foram ao estádio como fiéis vão ao templo. O resto do povo seguiu o seu normal. E fumaça branca não parou de sair da enorme chaminé.

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