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Liberdade

Não eram despretensiosos e sem outra obrigação maior, senão honrar a camisa

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2017 | 04h00

Sua carreira era uma sucessão de subidas e descidas. Idas para o exterior, grandes equipes, e grandes quedas, volta ao Brasil e de novo o êxito e o fracasso. Ultimamente mais fracassos. Nesse subir e descer viu que tinham passado os melhores anos. O que viria a seguir? Para onde ir? Não chegaram muitas ofertas, principalmente grandes ofertas. Finalmente um clube em dificuldades fez um aceno.

Era um tradicional time no momento metido em dificuldades de toda ordem. Aceitou, que mais podia fazer? Desembarcou no aeroporto e não havia um só torcedor à sua espera. Durante a rápida viagem aérea leu os jornais e sobre sua contratação apenas uma linha sem comentários. 

Assinou contrato entre sorrisos protocolares e nenhum pedido de entrevista e só voltou no dia seguinte para o primeiro treino. Olhou os companheiros e viu que conhecia alguns na mesma situação dele. Não eram atletas em decadência, eram apenas jogadores como ele, dos quais não se esperava mais muita coisa. O resto eram garotos da base, felizes de estar no time de cima. 

O treinador era um novato sobre o qual ele não sabia nada. Não conhecia ninguém que tivesse atuado sob ordens dele. O sentimento geral era de esperança, mas ninguém sabia dizer esperança do quê. Certamente de não fazer um papel muito ruim e não chegar perto dos últimos lugares. 

Nos primeiros dias dois sentimentos se apossaram dele. O primeiro foi uma certa decepção com o pouco interesse da imprensa e torcedores. Não estava acostumado á falta de pressão.

O segundo sentimento, contraditoriamente, era quase de liberdade. Pelo menos em campo durante os treinos constatou que se sentia até mesmo melhor. Mais leve, sem responsabilidades e sem muitas cobranças. Notava que havia jogadores igualmente descontraídos na equipe, gente que tirava das costas peso que torcidas mais esperançosas tinham depositado sobre eles. Estavam ali para fazer o melhor e só. 

À medida que o tempo passava percebeu que o quase anonimato lhe fazia bem. Não era mais obrigado a dar declarações cautelosas, cuidar do que falava e usar sempre as expressões que lhe tinham ensinado para os momentos de perigo. Tanto mais porque não havia quase nenhuma declaração a fazer.

Alguns torcedores que o encontravam e conheciam seu passado e seu futebol, limitavam-se a um sorriso levantando o polegar em sinal de positivo. Os mais atrevidos lhe davam um ambíguo tapinha nas costas. Vieram os primeiros jogos e ele notou que tinha começado de novo a gostar de jogar.

Sorria mais, fazia coisas que tinha quase esquecido. Todas essas impressões que tinha eram divididas com os colegas da mesma idade e com a mesma vivência no futebol. E viu uma liberdade geral, jogavam com pouca preocupação e pressão. Afinal, eram os azarões. Puderam aprimorar seu futebol e conversar livremente com o técnico que, aliás, ninguém chamava de professor, pois tinham a certeza de que não estava ali para ensinar nada a ninguém. Ao contrário, parecia um deles. E como eles, se considerava no mesmo barco de rumo incerto. 

Tudo mudou num clássico. A equipe da qual pouco ou nada se esperava, cheia de moleques e quase veteranos, ganhou com autoridade de poderoso rival. Não eram jogadores despretensiosos e sem outra obrigação maior, senão honrar a camisa. Provaram que eram mais do que isso. Fizeram o que ninguém esperava. Ele fez o que ninguém esperava. 

Após o jogo reencontrou a habitual loucura de torcedores ensandecidos, dirigentes empolgados e imprensa à procura dele. Olhou para aquilo e, de novo, dois pensamentos passaram pela sua cabeça: o primeiro era de euforia pela volta por cima. O outro, uma pergunta: será que terminou a liberdade e a alegria?

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