Diego Haliasz|River Plate
  Diego Haliasz|River Plate

  Diego Haliasz|River Plate

Libertadores volta com aporte de R$ 500 milhões em logística e times com medo de virem ao Brasil

Torneio desafia equipes a viajarem pelo continente dentro de "bolhas móveis" e a enfrentarem a insegurança com as condições de saúde

Ciro Campos , O Estado de S.Paulo

Atualizado

  Diego Haliasz|River Plate

A Copa Libertadores volta a ser disputada nesta terça-feira após seis meses de paralisação e com uma realidade bastante complexa para clubes, dirigentes e principalmente para a própria Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol). Para concretizar o retorno do torneio em meio à pandemia do novo coronavírus, a entidade investiu cerca de R$ 500 milhões no custeio de viagens em voos fretados e testes PCR para as equipes. Mas isso não foi suficiente para resolver o temor de alguns times em viajar pelo continente, em especial quando se trata de enfrentar adversários brasileiros.

O Estadão apurou com fontes na Conmebol de que dois países manifestaram preocupação com o Brasil, nação com o maior número de casos e mortes por covid-19 na América do Sul. Chile e Uruguai questionaram a segurança tanto de virem ao País como até de receberem em seus estádios e hotéis equipes brasileiras. Procurada para comentar o assunto, a Conmebol avisou que não se manifestaria.

A entidade elaborou um protocolo médico de cuidados com a proposta de que os times viajem pela América do Sul dentro do que tem sido chamado de "bolhas móveis". Os elencos se deslocam com o mínimo de contato externo possível. As viagens são em voos fretados e exclusivos para a delegação. A hospedagem será em hotéis com alas isoladas, além da rotina de testes e os jogos em estádios sem torcida. Ainda assim, para especialistas há um risco calculado.

"Nenhuma bolha é impenetrável. Por mais que se aprimore, não é 100% seguro", disse ao Estadão o infectologista argentino Tomás Orduna, chefe de Medicina Tropical do Hospital Francisco Muñiz e consultor médico do Boca Juniors. "É perfeitamente normal que alguns países tenham medo de receber times do Brasil. No Uruguai, por exemplo, a pandemia está controlada. Mas ter de receber times de fora significa que pode voltar a ter transmissão comunitária com pessoas infectadas e assintomáticas", explicou.

766E3C01-53A8-483E-9B06-CCE0C7108013
É perfeitamente normal que alguns países tenham medo de receber times do Brasil
E0EAB005-9061-4B3D-86B9-AEB61693E313
Tomás Orduna, Infectologista e consultor do Boca Juniors

As equipes uruguaias do Peñarol e do Nacional foram procuradas para comentar se estão receosas com os jogos e não quiseram se manifestar. Mas um time argentino que virá ao Brasil admitiu se sentir inseguro. O Defensa Y Justicia tem viagem prevista para enfrentar o Santos na Vila Belmiro mês que vem. "Nós vamos tomar todas as precauções necessárias seja no estádio ou no hotel. Mas vamos cruzar os dedos para nada acontecer no Brasil", afirmou o presidente do clube, José Lemme. O elenco teve seis casos positivos da doença recentemente.

Os cuidados da Conmebol com a Libertadores provocaram algumas mudanças na tabela. Rival do São Paulo no grupo D, o Binacional, do Peru, não vai mais mandar os jogos na cidade de Juliaca, a cerca de 3,8 mil metros de altitude. O governo peruano proibiu partidas para fazer a localidade cumprir uma quarentena rígida. O time vai atuar agora na capital, Lima. Adversário do Palmeiras, o Guaraní, do Paraguai, vai mandar as partidas em um outro estádio em Assunção para poder atender com mais segurança ao protocolo médico.

766E3C01-53A8-483E-9B06-CCE0C7108013
Nós vamos tomar todas as precauções necessárias seja no estádio ou no hotel. Mas vamos cruzar os dedos para nada acontecer no Brasil
E0EAB005-9061-4B3D-86B9-AEB61693E313
José Lemme, Presidente do Defensa Y Justicia

SEM QUARENTENA NA VOLTA

Segundo especialistas em infectologia ouvidos pela reportagem, o maior problema da Libertadores não está tanto antes e durante as partidas, mas sim no pós-jogo. A avaliação é que seria necessário os elencos permanecerem em quarentena por uns dias depois do retorno aos respectivos países. Porém, no caso dos clubes brasileiros, logo depois de partidas fora de casa na Libertadores, o calendário continuará normalmente, com treinos e compromissos no fim de semana pelo Brasileirão. Ou seja, não haverá quarentena e a rotina seguirá normalmente.

"A quarentena seria uma medida prudente, principalmente em se tratando de outros países da América do Sul, onde a situação está mais controlada, como no Uruguai. Isso ajuda o resto da população a ser protegida", explicou a médica da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e professora da Universidade Federal do Pará (UFPA) Tânia Chaves. "Ainda não é o momento de viajar pela América do Sul e acho que seria preciso uma quarentena de alguns dias depois que os times voltassem", defendeu o professor de infectologia da faculdade de Medicina de Córdoba, na Argentina, Hugo Pizzi.

766E3C01-53A8-483E-9B06-CCE0C7108013
A quarentena seria uma medida prudente, principalmente em se tratando de outros países da América do Sul, onde a situação está mais controlada, como no Uruguai. Isso ajuda o resto da população a ser protegida
E0EAB005-9061-4B3D-86B9-AEB61693E313
Tânia Chaves, Médica da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI)

Essa medida de quarentena foi aplicada com bastante rigor na China. Jogadores brasileiros que retornaram ao país asiático para a disputa da liga local permaneceram duas semanas trancados em quartos de hotel. Já para o médico da seleção brasileira feminina de futebol, Nemi Sabeh, o isolamento dos times no retorno não se faz necessário porque a rotina de testes PCR no Campeonato Brasileiro garante a segurança. "Os exames de rotina vão mostrar se tem alguém infectado. Se alguém tiver caso positivo, será colocado em isolamento e não vai participar das partidas seguintes", afirmou.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Times uruguaios e argentinos se trancam em hotéis antes de retomar a Libertadores

Precavidos, clubes iniciam longa quarentena antes de encararem viagens internacionais pela competição

Ciro Campos, O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2020 | 14h00

Os dois principais rivais do futebol brasileiro na América do Sul estão com uma programação bem rigorosa para a retomada da Copa Libertadores. Times argentinos e uruguaios estão com os elencos fechados em hotéis há alguns dias e sem liberar os jogadores para voltarem para casa. A medida foi tomada especificamente para minimizar o risco de contaminação com o novo coronavírus durante as viagens para o exterior.

Boca Juniors e River Plate tiveram vários casos da doença e estão confinados em seus centros de treinamento há alguns dias. Os times só vão sair de lá rumo ao aeroporto, de onde embarcam para compromissos fora de casa pela competição. Embora longe de ter a mesma estrutura que os dois grandes argentinos, o Defensa Y Justicia também está em isolamento, já que a liga local ainda não foi retomada.

"Estamos com uma estrutura mínima para funcionar. Tem os jogadores, dois cozinheiros e um camareiro para manter as atividades diárias da nossa bolha. Nossa orientação para o time é procurar ficar o maior tempo possível em ambiente aberto", disse ao Estadão o presidente do clube, José Lemme. O próximo compromisso da equipe argentina será na quinta-feira diante do Delfín, do Equador, dentro de casa.

766E3C01-53A8-483E-9B06-CCE0C7108013
Estamos com uma estrutura mínima para funcionar. Tem os jogadores, dois cozinheiros e um camareiro para manter as atividades diárias da nossa bolha
E0EAB005-9061-4B3D-86B9-AEB61693E313
José Lemme, Presidente do Defensa Y Justicia

O dirigente disse ter pedido para a Conmebol aprimorar com os aeroportos até o processo de desembarque. "É importante ser rápido para fazer a imigração no novo país, sem precisar de filas e de aglomeração. Para mim, a parte de viagem é a mais delicada. Quando se está no estádio, eu sinto que estamos mais seguros", comentou o dirigente.

O Campeonato Uruguaio recomeçou em agosto. Para voltar a jogar pela Libertadores, os dois grandes clubes do país, Nacional e Peñarol, produziram uma cartilha de cuidados em conjunto com as autoridades médicas do país. Os jogadores vão ficar em regime de concentração a partir desta semana até o fim do mês e só depois disso poderão voltar para casa. Até os alimentos consumidos pelos atletas vão passaram por uma rígida inspeção.

Em vez de utilizar o próprio centro de treinamento, o Nacional vai se preparar no resort onde está hospedado. A maior preocupação do time é com uma longa viagem para a cidade de Mérida, na Venezuela, na próxima semana. Como os aeroportos venezuelanos fecham cedo, a equipe terá de permanecer um dia a mais por lá e só vai retornar para Montevidéu na manhã seguinte.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.