Líder de maio de 68, Dany, le Rouge, faz 'carreata' pelo Brasil

Viajando de trailer pelo País, Daniel Cohn-Bendit 'cobre' a Copa do Mundo por meio de comentários filmados para jornal francês

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

30 de junho de 2014 | 05h00

Daniel Cohn-Bendit, o Dany, le Rouge das passeatas de maio de 1968 em Paris, depois deputado pelo Partido Verde e membro do Parlamento Europeu, está no Brasil. Cobrindo a Copa do Mundo. Cohn-Bendit percorre o país, a bordo de um trailer meio precário, que ele mesmo dirige, e envia seus comentários filmados ao jornal Libération, de Paris. 

São filmetes de dois a três minutos, flagrando aspectos do país da Copa do Mundo, que em geral passam despercebidos aos correspondentes estrangeiros.

Por exemplo, num dos programas, Dany foi a Ribeirão Preto, ao bar onde o Dr. Sócrates costumava beber. Fala longamente de Sócrates, como de um irmão libertário, e relembra a participação do jogador na Democracia Corintiana e na campanha pelas Diretas-Já. 

No final, ergue um brinde ao jogador, morto em 2012: “À la tienne, Socrates!”.

Da mesma forma, em outro filmete, encontra-se com o igualmente rebelde Afonsinho, que hoje pratica a medicina comunitária e comanda uma fundação em Paquetá, no Rio de Janeiro. As semelhanças entre Sócrates e Afonsinho vão além do fato de ambos terem se formado em medicina e terem sido barbudos e cabeludos quando jovens. Há, nos dois, uma ideologia social que os aproxima, e que parece bastante simpática aos olhos do antigo agitador da Sorbonne e do Quartier Latin.

Atento a detalhes que muitas vezes ficam longe das câmeras, Cohn-Bendit percebeu que um dos personagens da abertura da Copa 2014, o índio guarani Jeguaká, teve suas imagens cortadas na edição da Fifa (que controla a edição televisiva que vai ao ar). Ele apareceu na cerimônia de abertura, junto com outros dois meninos, um branco e um negro (para simbolizar a diversidade étnica do Brasil), e desfraldou uma bandeirola vermelha pedindo a demarcação das terras indígenas. Cohn-Bendit vai atrás desse menino guarani, conversa com ele e outros índios e coloca na pauta de sua cobertura o problema da demarcação das terras.

Dany passa por Brasília e, diante dos monumentos de Oscar Niemeyer e do traçado de Lúcio Costa, comenta o projeto futurista da Capital, ao mesmo tempo em que admite que não se sente muito confortável na cidade - “totalmente destoante das outras grandes cidades brasileiras”.

Aproveita que está sendo realizado um congresso do PT e posa abraçado com Dilma Rousseff. Fala com Lula e lhe pergunta quem vai ganhar a Copa. Lula responde que a seleção francesa o surpreendeu em campo. Em sua gravação, Dany comenta sobre Lula: “un mec sympa” (um cara simpático), embora dele discorde politicamente. Dany, le Vert é ecologicamente engajado e acredita em desenvolvimento sustentável.

Cohn-Bendit reflete também a crítica sobre a construção dos estádios da Copa, falando dos “elefantes brancos” de Manaus e Cuiabá. Conta como São Paulo já dispunha de um estádio em condições de abrigar os jogos, com algumas reformas, e optou por construir outros, “a 40 quilômetros do centro da cidade”.

Pela escolha de temas e abordagens, nota-se que Cohn-Bendit se pauta muito pelas preocupações da imprensa local. Ao mesmo tempo, busca enfoques originais. Como a visita à fundação Gol de Letra, do ex-jogador Raí, irmão de Sócrates. Para Dany, um modelo de inclusão, em que as crianças recebem um tratamento social adequado.

A viagem de Dany, esse correspondente que não se enquadra nas normas, é uma tentativa de compreensão do País, através de um evento incomparável, como a Copa do Mundo. 

Fala a respeito de Neymar como “um deus do futebol”, encanta-se com as pessoas, espanta-se com as mazelas e contradições brasileiras, e não deixa de se admirar pela grandeza do País. 

Em um dos seus últimos filmetes, viaja, sempre por estrada de rodagem, de Brasília rumo a Salvador. Espanta-se com a selvageria do trânsito, mas a mistura de plantações e matas nativas e um pôr do sol magnífico são, como ele diz, de cortar o fôlego.

Cohn-Bendit mescla olhar crítico e de simpatia pelo Brasil. Dessa mistura fina de racionalidade e empatia saem esses registros tão breves quanto saborosos e agudos. Vale a pena vê-los.

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