Musa Sadulayev/AP
Musa Sadulayev/AP

Líderes usam Copa do Mundo para exibir a ‘nova’ Chechênia

Presidente da região banca equipe de Salah em Grozny para aumentar sua influência no mundo árabe

Jamil Chade, ENVIADO ESPECIAL / MOSCOU

09 Junho 2018 | 07h02

Há cerca de 25 anos, as imagens que o mundo recebia da Chechênia eram as de um sangrento conflito e cidades destruídas. A partir das próximas semanas, porém, o governo russo quer garantir que a Copa do Mundo também sirva para objetivos estratégicos, reposicionando a região como uma interlocutora entre Moscou e o Oriente Médio, além de mostrar à comunidade internacional que Grozny está reconstruída. 

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Mas a iniciativa tem encontrado forte resistência de ativistas locais e internacionais, que denunciam a existência de um regime repressivo na região do Cáucaso, responsável por torturas, assassinatos e a inexistência de liberdade de expressão.

A Chechênia não receberá jogos da Copa. Mas será a base de uma das seleções muçulmanas no Mundial: o Egito. 

O time do astro Mohamed Salah vai inaugurar um luxuoso complexo hoteleiro em Grozny, construído com recursos do Emirados Árabes Unidos. A estadia ainda será em grande parte bancada por Ramzan Kadyrov, líder checheno cujas ambições são as de se apresentar ao Oriente Médio como um aliado. 

No governo local, funcionário chegaram a ser enviados ao exterior para aprender árabe, enquanto os organizadores insistem que torcedores, jogadores e a imprensa contarão com uma das maiores mesquitas da região e alimentos halal. 

Com 20 milhões de muçulmanos, a Rússia quer também usar a Copa para passar uma imagem ao mundo árabe de que o país deve ser considerado como um aliado estratégico. Para o Kremlin, o investimento em Grozny para o Mundial tem uma meta clara de conter o avanço ocidental pelo Oriente Médio e mostrar que a região conta com um “parceiro natural” em Moscou. 

Nessa estratégia, a Chechênia é central. No apoio dado pela Rússia ao governo de Bashar Al Assad, na Síria, foram batalhões chechenos que foram enviados para lutar. Eles ainda participaram da renovação de uma mesquita em Alepo, enquanto o governo de Grozny deu anistias a esposas de combatentes do Estado Islâmico.

Magomed Dudov, presidente do parlamento regional da Chechênia, garante que tudo foi feito para garantir um tratamento de estrela ao time de Salah. “Podemos dizer de forma orgulhosa que estamos prontos para receber nossos convidados”, disse, num discurso há uma semana diante do parlamento. “Os representantes do time egípcio elogiaram nossa infraestrutura, as rotas de transporte, o acesso facilitado aos locais de treinamento, os quartos confortáveis e nossa tradicional hospitalidade do Cáucaso”, disse. Até mesmo o trânsito foi modificado para garantir total tranquilidade – e segurança – ao time de Salah.

Para garantir a total segurança do time do Egito, a região colocou seus melhores serviços de proteção à disposição dos organizadores da Copa. 

A região ainda vive as lembranças da explosão de uma bomba que, em 2004, matou o então presidente Akhmad Kadyrov em plena área VIP do estádio do Dínamo de Grozny.

Em 2007, seu filho Ramzan Kadyrov assumiu o comando da província, depois de ter sido o líder das milícias informais da região. 

A delegação egípcia ajudou na promoção do local, apontando que a arena Ahmat, de Grozny é “uma das melhores da Rússia”. Ali, o treinador Héctor Cúper buscará a formação ideal para o time. 

Para os russos e chechenos, o envolvimento do Egito e dos Emirados Árabes no projeto da Copa do Mundo faz sentido, inclusive por conta do caráter moderado do islamismo. Segundo o especialista James Dorsey, codiretor da Universidade de Würzburg, Cairo e Dubai estão na “linha de frente do esforço de conter o islã político e promover uma interpretação apolítica da fé que sirva de resistência ao conservadorismo saudita e uma visão autocrática”. 

Mas a operação de levar uma seleção muçulmana para Grozny deixou ativistas de direitos humanos preocupados. Grupos de entidades como a Anistia Internacional pediram que a Fifa impedisse que a Chechênia fosse usada como base para a Copa do Mundo por conta do caráter violento e autocrático de seus líderes.

Os ativistas ainda alegam que seus funcionários têm sido detidos ou mesmo mortos por denunciar violações de direitos humanos na Chechênia. Um deles é Oyub Titiev, ativista e religioso que questiona a repressão em Gronzy. Em janeiro deste ano, porém, ele foi detido por suposto porte de maconha e poderá pegar dez anos de prisão se condenado. Seus aliados acusam as autoridades de terem plantado a droga em seu veículo para justificar a prisão de um homem conhecido por seu combate aos narcóticos. Seu julgamento, porém, deverá ser realizado apenas depois da Copa.

 

 

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