Andrew Yates/Reuters
Andrew Yates/Reuters

Liga Inglesa tem receita cinco vezes superior à do Brasileirão

Boa gestão e teto para gastos fazem lucro se equiparar ao da Copa

Jamil Chade - correspondente em Genebra, O Estado de S. Paulo

25 Março 2015 | 21h25

Folclóricos dirigentes dão lugar a administradores profissionais, regras para impedir o endividamento são estabelecidas e, pela primeira vez, o futebol europeu se equipara a uma Copa do Mundo em renda e lucros e amplia sua distância em relação aos valores praticados no Brasil. Dados divulgados pela consultoria Deloitte revelam que apenas a Liga Inglesa obteve em receitas na temporada 2013/14 cerca de 3,3 bilhões de libras, cerca de R$ 15,5 bilhões. O valor é bem próximo dos R$ 16 bilhões que a Copa do Mundo de 2014 gerou e é mais de cinco vezes a receita do Brasileirão de 2013.

Segundo o levantamento, a Liga Inglesa registrou seu primeiro lucro em 15 anos, com volume de 193 milhões de libras. O total é parecido ao lucro que a Fifa obteve em 2014, ano da Copa do Mundo. A renda, principalmente com a televisão, explodiu. Entre 2013 e 2014, a alta foi de 29% e, apenas em salários, clubes pagaram 1,9 bilhão de libras. Com uma gestão profissional de ligas e clubes, o setor do futebol na Inglaterra abandonou as perdas que acumulava de 2,6 bilhões de libras na última década.

Um dos aspectos fundamentais dessa transformação foi a criação de uma regra em que um clube pode ser até mesmo rebaixado se ficar provado que, numa temporada, ele gastou mais que arrecadou. Dan Jones, um dos parceiros do Sports Business Group na Deloitte, destaca como o aumento de renda em 2014 não significou um aumento de gastos com salários. Segundo ele, a alta foi de apenas 7% nos custos, contra uma alta na receita de 29%. O resultado é que, hoje, a relação entre salários e renda do futebol inglês é de 58%, contra 71% há apenas três anos.

O contraste com o Campeonato Brasileiro da primeira divisão é evidente. Em 2013, a receita da elite do futebol nacional chegou a R$ 2,6 bilhões. O Cruzeiro, campeão de 2014, teve receita de R$ 103 milhões, enquanto as dívidas dos demais se acumulam. "A introdução de controles de custo na Europa obrigou os clubes a tomarem cuidado com o que gastam", explicou Adam Bull, consultor da Deloitte. "Além disso, o contrato de transmissão deu aos clubes uma grande vantagem de receita sobre as demais competições europeias, o que possibilita que ainda possam atrair talentos sem fazer exageros financeiros."

Segundo ele, com um lucro recorde, a questão é saber o que será feito a partir de agora com o dinheiro. A Uefa, por exemplo, insiste que os clubes invistam nas categorias de base, principalmente no Reino Unido onde os estrangeiros dominam os clubes.

UEFA

Uma realidade muito parecida é vivida pela Uefa, que prevê renda de 4,6 bilhões de euros para os anos 2015 e 2016, com a Eurocopa na França e a Liga dos Campeões. Para o torneio continental de nações, a receita será 66% superior ao que se registrou na última Eurocopa, em 2012 na Polônia e Ucrânia. Já a Liga dos Campeões de 2015-2016 irá gerar Renda de 2,2 bilhões de euros, 30% superior a desse ano. Hoje, o torneio conta com o financiamento de multinacionais como MasterCard, PlayStation, Nissan e Heineken. Segundo a Uefa, mesmo que a Eurocopa fosse cancelada, o futebol europeu continuaria lucrando com seus clubes.

CAMPO

a gestão do esporte e ainda o volume de dinheiro permitem hoje que a Europa se consolide como a maior potência no esporte. "Somos hoje a maior potência do futebol", declarou Michel Platini, presidente da Uefa e que acaba de ser eleito nesta semana para um terceiro mandato. Na Copa do Mundo, a última vez que uma seleção não-europeia venceu foi há 13 anos, com o Brasil em 2002. Em dez anos de Mundial de clubes, são sete títulos de times europeus e apenas três dos sul-americanos, todos eles brasileiros.

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