DANIELA RAMIRO/ESTADAO
DANIELA RAMIRO/ESTADAO

Livro aponta mercado empresarial como caminho para fortalecer clubes

Advogado Rodrigo R. Monteiro de Castro lança coletânea de artigos

Paula Reverbel, O Estado de S.Paulo

01 Setembro 2018 | 05h00

Jogadores de futebol estão deixando o Brasil muito cedo, sem preparo, formação ou condições de enfrentar a mudança, ainda mais em uma Europa que volta a flertar com o nacionalismo. O resultado do êxodo, na visão do especialista em direito comercial Rodrigo R. Monteiro de Castro: o enfraquecimento dos times nacionais e o distanciamento dos jogadores – e até da seleção – com seu povo. Até aí, nenhuma grande novidade. Mas o advogado também apresenta o que ele diz ser a causa fundamental do problema: a penúria financeira e consequente fragilidade dos clubes, que são, no Brasil, associações sem fins lucrativos.

São muitos os nomes do futebol brasileiro que entraram no campo das ideias para defender a visão do advogado: Luiz Gonzaga Belluzzo, ex-presidente do Palmeiras; Daniel Nepomuceno, ex-presidente do Atlético Mineiro; Luis Paulo Rosenberg, diretor de marketing do Corinthians; Raí, diretor-executivo do São Paulo, e Leco, presidente do Tricolor, para citar alguns. Todos estão nos agradecimentos do novo livro de Castro, Futebol e Governança, da editora Migalhas.

Trata-se de uma coletânea de artigos escritos ao longo dos últimos anos em que Castro discorre sobre o fato de que os clubes, sendo associações, não têm como se financiar. Logo, argumenta ele, sobrevivem a base de patrocínios, de direitos de transmissão e – tragicamente – de venda de jogadores. O são-paulino não fica devendo devendo uma solução: a inserção dos times no mercado como empresas, remédio que ele detalha com minúcia.

Não é à toa que, quando Leco quis saber se era possível criar uma empresa e separar o futebol profissional das atividades amadoras do São Paulo, pediu que Castro, junto com o advogado José Francisco Manssur, elaborassem um estudo de viabilidade.

O livro mostra que, enquanto os clubes ingleses têm absoluta liberdade organizacional, os times alemães mantêm o controle societário, salvo raras exceções. O Bayern de Munique separou o clube amador da atividade econômica do futebol, com a criação de uma empresa e atração de investidores. Já o PSG é mais radical: toda sua estrutura é uma empresa cujo capital foi integralmente comprado em 2012 pelo Qatar Sports Investments. E times como o Arsenal e Juventus oferecem ações na bolsa de valores. Todos os modelos, aponta Castro, trazem receitas.

No Brasil, onde os jogadores são profissionais mas os cartolas são amadores, isso não ocorre. O maior clube brasileiro em receitas era, em 2014, o Flamengo, que ocupava a 40.ª posição no ranking mundial, onde potências do futebol brasileiro ficam atrás de times sem expressão. Nas suas críticas à governança do futebol brasileiro, Castro não deixa de invocar R$ 4,8 bilhões de dívidas com que os 20 times da primeira divisão do campeonato de 2015 fecharam o ano.

Enquanto isso, o que Castro chama de “nações prevalentes” aproveitam para importar jogadores brasileiros a preço de commodity, desprezando seus processos de adaptação, submetendo-os a campanhas difamatórias e impondo “padrões táticos escolásticos criados para superar a falta de qualidades técnicas e de improvisação, de que não padecem, neutralizando as características inatas que os diferem dos demais”.

“A nação de chuteiras está, na verdade, descalça, e não sobre um campo de várzea: mas de joelhos, sobre o asfalto, pedindo bênção e perdão, a todos, pelas suas virtudes”, alerta o advogado. Para superar o quadro, Castro defende usar o mercado para fortalecer os times, preservar o jogo da bola como patrimônio cultural e driblar os interesses de quem lucra com clubes enfraquecidos e endividados – alguns à CBF –, com menor poder para negociar contratos de transmissão ou de reter seus talentos.

E alerta que insistir no dogma de que futebol e empresa são irreconciliáveis – já que o primeiro seria paixão enquanto o segundo seria razão – é desonesto. “Como se cartolas amadores não negociassem jogadores, em momentos críticos ou às vésperas de situações importantes, em troca de lucro. Como se alguns deles não tomassem decisões que desestabilizam o ambiente de trabalho em defesa de interesses políticos ou pessoais.

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