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Lógica invertida

No torneio feito para os times grandes, a novidade é um pequeno. A decisão, agora em dois jogos, tratará o Santos com certo favoritismo, mas o futebol do Osasco Audax não permite essa certeza toda, merece respeito por ter chegado tão longe e por ser, de certa forma, uma contestação. 

Paulo Calçade, O Estado de S. Paulo

25 de abril de 2016 | 06h27

Com a eliminação do Corinthians, para muita gente as finais perderam o brilho, fruto da lógica comercial que embala qualquer competição. Principalmente as de tiro curto, nas quais são necessários três meses até a decisão e nem sempre é a que se esperava. 

No aspecto técnico, a decisão do Paulistinha é perfeita. Há muito tempo o Santos se preocupa com a qualidade do seu jogo e com a formação de jogadores capazes de sustentar o futebol ofensivo a partir das divisões de base do clube.

Dos quatro semifinalistas, a equipe de Cuca, o Palmeiras, ainda é a que precisa de mais trabalho para adquirir uma feição que possa ser facilmente identificada pela torcida e assimilada pelos próprios jogadores.

Desde a final da Copa do Brasil, no ano passado, o time tem mostrado uma enorme capacidade de luta, de competir, mas ainda carece de um perfil mais bem definido, de conteúdo. Essa é a missão de Cuca.

O Corinthians, quatro meses depois do desmanche, já recuperou sua característica, mas precisa de rodagem, de amadurecimento como Tite tem afirmado. Não se trata de desculpa, é a realidade. A mesma que o levou ao título brasileiro de 2015. Alguns princípios são mais caros e exigentes.

Agora, independentemente de quem será o campeão, paralelamente à qualidade do Osasco Audax, é preciso observar as escolhas de Fernando Diniz. O que levou o treinador do time pequeno a adotar ideias que os grandes abandonaram em nome da competitividade geradora de títulos e do pensamento que aprimora a destruição do nosso futebol?

Não é a primeira vez que uma equipe fora do clubinho das potências desembarca na decisão do campeonato, mas elas geralmente chegam comprometidas com a pobreza de um padrão que serve, inicialmente, apenas para lhes garantir a sobrevivência.

A bola trabalhada desde o goleiro chama a atenção, é a parte visível de um modelo que encanta e incomoda. Não é recurso estético, é ferramenta do modelo do jogo, que obviamente retém o olhar e causa espanto.

Pode-se concluir que numa equipe pequena, sem pressão da torcida, torna-se mais fácil optar por esse estilo, como se qualquer coisa servisse. Não é bem assim. Prefiro fazer um exercício de inversão dessa lógica.

Se é possível numa equipe com menos recursos financeiros e técnicos, imagine o que poderia acontecer num dos gigantes do futebol brasileiro? É natural que surjam uma série de preocupações. A primeira delas: e se um zagueiro, próximo ao goleiro, perder a bola?

É óbvio que se a falha produzir um gol ou, pior, uma derrota, imediatamente o erro será atribuído às escolhas, ao sistema, às ideias “revolucionárias” de um treinador maluco, ao perigo de se trocar passes na defesa. Fica muito fácil apontar o problema.

E o inverso? O jogo desprovido de conteúdo, atemorizado pelo passe e concebido sobre bases conceituais paupérrimas também causa danos. A diferença é que nos acostumamos com a bola que bate no ataque e volta, que também gera gols por ser mal trabalhada, mal passada, desprezada. 

A final entre Santos e Osasco Audax, que por justiça merece uma partida na Vila e outra em Osasco (e é o que deverá ser ratificado hoje, em reunião na federação), não pode se transformar na validação das ideias em disputa no confronto. A vitória do grande não diminui o pequeno e nem a vitória do pequeno haverá de causar fraturas no grande. É apenas um jogo, que aceita tudo, o conformado e o inconformado.

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