Matt Dunham/AP
Matt Dunham/AP

Londres fica atônita após eliminação da Inglaterra diante da Croácia

Euforia é substituída por decepção após derrota inglesa na semifinal da Copa do Mundo

Célia Froufe, correspondente / Londres, O Estado de S.Paulo

11 Julho 2018 | 19h28

“Não me leve para casa.” Os vários pedidos feitos como o título da trilha sonora de um documentário de 2017 sobre futebol (Don’t take me home) e que virou tema da Copa do Mundo de 2018 para os torcedores ingleses não foram suficientes mais uma vez. A Inglaterra perdeu para a Croácia na prorrogação nesta quarta-feira, deixando uma das cidades mais cosmopolitas do mundo atônita. Foram muitas as apostas – até literalmente, já que o jogo de azar é um hobby comum no Reino Unido – de que desta vez os “Três Leões” poderiam voltar a disputar uma final, e com a sua arqui-inimiga histórica, a França.

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Não à toa, o jogo desta quarta foi chamado de “a maior partida em uma geração” e deixou milhares de jovens ingleses mais uma vez órfãos pelas ruas e metrôs da capital britânica após a disputa. A reportagem do Estado circulou a pé e de transporte público por áreas turísticas durante e após a partida para conversar com esses jovens e ouvir suas impressões. “Tinha a sensação de que desta vez ia”, comentou, em Trafalgar Square, o empreendedor de uma fintech, Mikey Collons, de 29 anos. Neto de irlandeses, ele sonhava em poder testemunhar um avanço maior do país na Copa.

Estagiário em uma empresa de engenharia, Larry Ross, de 19 anos, mostrava mais raiva do que decepção com o placar, enquanto caminhava perto da Piccadilly Circus, outro centro turístico da cidade. Abordado pela reportagem, sua primeira reação quando questionado sobre se poderia conversar foi de insulto. Depois se desculpou, argumentando que pensava que a repórter poderia ser croata. “Demoramos 28 anos para chegar até aqui. Sabe quando isso vai acontecer de novo? Só em 28 anos de novo. Não tenho esperança de que um resultado semelhante ocorra em 2022”, desabafou.

Até o príncipe Harry, com seus 33 anos, tinha apenas cinco anos quando a Inglaterra chegou à mesma fase de agora. Até aqui, havia sido 28 anos sem disputar uma semifinal. A Inglaterra conseguiu vencer o torneio apenas uma vez, em 1966. O irmão William, que é presidente de uma associação de futebol local, também joga com os amigos e costuma viajar para eventos de grande porte, como é a Copa, ficou desta vez em casa. O motivo? Um boicote promovido contra a Rússia pela primeira-ministra Theresa May, em função de envenenamentos recentes em solo britânico por um agente neurotóxico que foi desenvolvido na então União Soviética. Para o governo local, o Kremlin está por trás dos episódios que já resultaram em uma morte até o momento.

 

Mesmo assim, 10 mil britânicos foram para a Rússia. A expetativa era de cerca de 20 milhões assistindo à partida pela tevê, em casa ou nos tradicionais pubs do país. Por que não dizer, a partida foi de certa forma um alívio para Westminster, que viu no jogo uma forma de distrair a população e os próprios membros do governo de uma semana muito tensa, que começou com a renúncia de dois ministros em função da discordância em relação ao Brexit (retirada do Reino Unido da União Europeia). Resta saber agora se o placar contra será mais um problema para a administração.

No coração da cidade, a prefeitura de Londres disponibilizou um telão no Hyde Park, o maior desde 1996, para que locais e turistas pudessem ser testemunhas da primeira partida nacional em uma semifinal desde 1990 ao ar livre neste verão. “A febre da Copa do Mundo pegou Londres e o resto da nação”, afirmou o prefeito da cidade, Sadiq Khan. Conhecidos pela organização, foram sorteados antecipadamente 30 mil ingressos gratuitos em duas etapas. “Não adianta ir para o local sem o ticket, apenas quem foi selecionado poderá entrar”, avisou a organização do evento.

O casal de estudantes Maysie (22 anos) e Jack (21 anos), ela com uma bandeira da Inglaterra amarrada nos ombros, escolheu o local para assistir à partida. Ao final do tempo regulamentar, explicaram ao Estado que decidiram aproveitar o intervalo para ir a um pub, temendo que o clima esquentasse por ali no caso de uma derrota. O policiamento foi altamente reforçado na cidade – principalmente nos locais em que se esperavam maiores aglomerações e também em pontos que já haviam sido alvo de atentados terroristas, como a London Bridge e o Borough Market.

A tão conhecida disciplina britânica, porém, já caiu por terra algumas vezes quando o assunto foi futebol. É preciso lembrar que o país criador das primeiras regras do jogo também ficou conhecido em todo o mundo pela torcida agressiva dos “hooligans” (agressivos, em português). A euforia tomou conta de Londres, quando a Inglaterra abriu o placar contra a Croácia. Mesmo perdendo, muitos torcedores não pararam de cantar seus hinos. Assim continuaram pelas ruas da cidade. Assim continuaram nos trens e estações de metrô. Mesmo naquelas, como no caso de Liverpool Street, em que a entrada de usuários passou a ser limitada por causa do grande volume de passageiros após o jogo.

Eventos raros de serem presenciados na cidade, porém, a reportagem encontrou nesta quarta à noite um homem na faixa de 40 anos urinando contra a parede dentro da estação de metrô Charring Cross. Outro, em Tottenham Station, jogava objetos na plataforma e nos trilhos. Ambos pareciam alcoolizados e foram abordados pelos funcionários que trabalham no local. Não foram vistos grandes incidentes durante e nem depois do jogo.

Os jornais já pediam que o atacante Harry Kane, (conhecido como Hurricane, um trocadilho sonoro entre o seu nome e a palavra furacão) tivesse garra: “Vá e vença por nós, Harry!”, trazia a manchete esportiva do Evening Standard, edição vespertina que é distribuída gratuitamente no metrô da capital britânica. Não deu mais uma vez.

 

 

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