Zorya Luhansk
Zorya Luhansk

Longe das grandes ligas, jogadores brasileiros partem atrás de fortuna e retornam por visibilidade

Muitos atuam nos chamados mercados secundários e, mesmo com melhor remuneração, acabam voltando após experiência fora do Brasil

Eugenio Goussinsky, especial para o Estadão

24 de fevereiro de 2022 | 05h00

O meia Silas Araújo da Silva, de 25 anos, é um dos muitos brasileiros que, ainda criança, depositaram no futebol as esperanças de um futuro promissor. Aos 10 anos, Silas ingressou neste esporte com o objetivo de se tornar profissional no Progresso, equipe formadora em sua cidade natal, Pelotas (RS). Ele já sonhava com o sucesso e a independência financeira. Mais de 11 anos depois, só não encerrou a carreira prematuramente porque encontrou no leste europeu uma possibilidade de seguir na profissão.

Em função da enorme concorrência, entre outros fatores, Silas percebeu que estava tendo poucas chances de atuar no Internacional, para onde transferido foi em 2015, e, aos 19 anos, aceitou a proposta do Zorya Luhansk, um time de médio porte na Ucrânia, atualmente na iminência de ser atacada pelo exército russo, que cerca as fronteiras do país com mais de 190 mil soldados.

Ele se tornou, assim, mais um jogador entre centenas de brasileiros que se aventuram nos chamados mercados emergentes do futebol, ou secundários e terciários, em busca, acima de tudo, da possibilidade de se consolidar na profissão, ganhar dinheiro e viver da escolha que fez. "O começo foi difícil, as questões culturais e a linguagem pesaram. Dois meses depois, porém, eu já estava adaptado e me sentia bem. Lá no leste europeu, conheci um estilo de vida bem mais rígido. Se o treino está marcado para as 15h, você tem de estar 10 minutos antes para não perder e ser cobrado por isso", diz.

Silas acrescenta que na preparação física há outras diferenças. Em relação ao percentual de gordura, por exemplo, há critérios que levam em conta apenas fatores como a relação entre altura e peso. "Nunca estive acima do peso, mas era uma dificuldade atender às exigências deles. Os métodos de treinos também são mais antigos, ainda tem tiro (piques) de 300 metros e corrida em volta do campo. Mas quando comecei a jogar, ficou mais fácil. Fui para lá porque queria jogar futebol", conta ao Estadão.

Cerca de 1,2 mil jogadores brasileiros atuavam fora do País, segundo o CIES (Observatório do Futebol do Centro Internacional de Estudos Esportivos), com levantamento de meados de 2021. A CBF tem os registros oficiais de todos eles. Destes, apenas 216 jogavam nas principais ligas da Europa (Premier League, Série A Italiana, a Ligue 1 na França, a espanhola La Liga e a Bundesliga, da Alemanha).

O restante, como Silas, deixa o Brasil para atuar nesses mercados emergentes, que, além do leste europeu, englobam países da Ásia, incluindo os do Oriente Médio, das Américas, da África e da Oceania. "Não me senti frustrado por não ter ido para uma das principais ligas europeias. Não me arrependo da minha escolha. Pelo contrário, fiquei satisfeito com a minha escolha. Realizei o sonho de jogar fora do Brasil, com boa remuneração (em dólar ou euro) e de conhecer novas culturas. Cheguei a jogar na Liga Europa, contra equipes como Atletico de Bilbao e Hertha Berlim. Quando há boas condições de trabalho, um jogador de futebol não tem do que reclamar, independentemente do país em que atua", diz Silas.

O meia permaneceu por três anos no Zorya, antes de ser emprestado para o Irony Kiryat Shmona, de Israel, e atuar no Dínamo de Minsk, de Belarus, de onde retornou para o Brasil. Atualmente, ele está disputando o Campeonato Paulista pelo Guarani. Em 2021, jogou pelo CSA, de Alagoas. Lá fora, mesmo em praças não muito conhecidas do futebol mundial, um jogador em início de carreira pode receber entre US$ 100 mil e US$ 300 mil mensais. Os de carreira consolidada recebem salários semelhantes aos dos grandes times europeus, entre US$ 500 mil e US$ 1,2 milhão por mês.

Para o gestor de carreiras Gélson Tardivo Gonçalves Júnior, conhecido como Gélson Baresi nos tempos de jogador, a situação de Silas pode ser considerada comum dentro da realidade do futebol. Muitos jovens deixam o Brasil em busca da realização profissional e acabam retornando pouco tempo depois. As causas, segundo ele, são muitas e não passam necessariamente por uma experiência de fracasso. Em muitos casos, futebol é a única coisa que o rapaz sabe fazer. 

"Depende de cada situação, de fatores específicos. Há atletas que saem para mercados emergentes para depois ter uma oportunidade nos grandes centros na Europa, por meio de portas de entrada, como Portugal. Muitos obtêm êxito, vão para equipes maiores depois. Outros não conseguem novos mercados e então tentam a recolocação no Brasil mesmo", explica o agente. "Mas os que voltam ao Brasil, mesmo percebendo que não encontraram o paraíso fora do País, acabam voltando mais maduros e com maiores conhecimentos táticos, por exemplo. Costumam voltar melhores como pessoas e como jogadores também." Muitos fazem o pé de meia.

No caso de Silas, o seu retorno para o Brasil ocorreu no momento em que ele viu esgotadas suas alternativas no mercado internacional, muitas vezes instável e também com verbas menores e estipuladas para cada temporada. Exatamente como ocorre com boa parte dos brasileiros que retornam.

Ele já havia saído da Ucrânia em função da mudança de treinador da equipe. Sua curta passagem por Israel foi marcada pelo drama da pandemia. E, por causa do coronavírus, quando foi atuar em Belarus, sua mulher, Nicole, ficou grávida de sua primeira filha. Quis voltar. Aliás, esses atletas, depois de algum tempo, se apressam para colocar a família no mesmo barco. Se ainda são solteiros, quem os acompanha são os pais.

"Ela teve de ficar isolada em um hospital em Minsk, sozinha, com toda aquela pressão, sem entender o idioma, ainda mais sendo sua primeira gravidez. Foi muito difícil para nós, em um país de costumes rígidos. Acabei rescindindo o contrato e voltando para o Brasil. Aqui, vou atrás de novas experiências", explica.

Silas tem a sensação de que precisa fazer um caminho de volta. Uma readaptação ao futebol nacional e também por ser mais conhecido em outros países do que em sua própria terra. "Não sou conhecido no Brasil, mas tenho de provar que consigo ajudar, por ter atuado bastante tempo lá fora. É difícil, mas acredito que ganhei condições de crescer profissionalmente. Tenho a esperança de ir um dia para uma equipe considerada grande", diz.

ORIENTAÇÃO DO GESTOR

Já no início da carreira de um jogador, a orientação básica de Gélson Tardivo, assim como a da média dos gestores, é que o atleta tenha plena consciência ao tomar a decisão de abrir mão do sonho de atuar em uma das principais ligas europeias.

"Fazemos uma avaliação individual de cada um, de cada atleta que temos. Procuramos orientar de acordo com cada realidade. Em geral, quando o jogador chega a 25, 26, 27 anos, e percebe que não irá para um dos principais centros da Europa, ele está na fase ideal para encontrar outros mercados e realizar o sonho de jogar fora do País", ressalta. 

Jogar no exterior ainda é o sonho de todos os jogadores. São cada vez mais raros os que querem vestir apenas uma camisa e permanecer no Brasil. Recentemente o goleiro Marcos publicou um texto nas redes dizendo que "deixou de ser apenas um atleta do Palmeiras quando abriu mão de uma proposta da Inglaterra para permanecer na Série B". Esse tipo de atleta não existe mais. Os que ainda estão em grandes equipes, se sustentam um pouco mais. Mas aqueles que rezam para que seu contrato seja prorrogado nas equipes menores, vai embora na primeira chance.

Para Tardivo, o importante é ter um planejamento estratégico que esteja aberto para possíveis mudanças de rota. "Trabalhamos com um planejamento para cada atleta, buscando que ele chegue ao seu ápice por etapas. Claro que o objetivo é a seleção brasileira e uma grande liga europeia, mas só uma minoria consegue chegar lá. O planejamento vai se modificando dentro da realidade, para que o jogador esteja satisfeito sempre", diz.

São os próprios jogadores, segundo Gélson Tardivo, que devem ter o poder de decisão do seu futuro. O papel do gestor, do empresário ou do agente, ressalta, é ajudar o atleta a ir desenhando sua carreira, de modo a conseguir abrir portas com suas apresentações, dribles e gols. "Já estive em campo e, com minha experiência, dou toda a orientação. Fala sobre propostas, sobre perspectivas, contratos... Agora, a decisão sempre é do jogador, é ele que tem o sonho. O dinheiro, de maneira geral, não deve estar na frente. Mas sempre pesa. A satisfação pessoal é a prioridade, a remuneração é consequência", observa. 

Os empresários, em sua maioria, têm contratos de percentual do salário do jogador. Cerca de 5%. Então, para eles, uma transferência para fora tem um valor. Alguns ganham no valor da transação.

Um aspecto importante na análise de um novo campo de trabalho é o conhecimento do contexto sócio-econômico de cada país. Isso tem provocado mudanças no cenário futebolístico. Nos últimos meses, a China, por exemplo, que até 2021 era o centro com melhor remuneração fora da Europa, diminuiu o ritmo na contratação de brasileiros. E até "devolveu" alguns deles, como Ricardo Goulart, que está no Santos.

Alguns clubes chineses, refletindo a desaceleração da economia do país, deixaram até de pagar salários. Outros, como o antigo Evergrande, se transformaram. O clube voltou a se chamar Guangzhou Football Club após uma forte crise financeira, realçada em dezembro, abalar o grupo imobiliário Evergrande, por causa de uma redução do investimento no setor.

Com isso, o Guangzhou, que contava com brasileiros como Elkeson, Ricardo Goulart, Ânderson Talisca e Paulinho, entre outros, praticamente já não conta com mais nenhum jogador nascido no Brasil, segundo o site de mercado internacional Transfermarkt. Apenas o atacante Alan, brasileiro naturalizado chinês, continua na equipe, treinada pelo italiano campeão mundial Fabio Cannavaro.

A GESTÃO E A ECONOMIA

O professor Paulo Azevedo, de estratégia financeira do Ibmec (Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais), ressalta que, apesar dos percalços, a China não perdeu toda a sua força nos investimentos no futebol. Por outro lado, ele vê novos mercados em crescimento. Outros, retomando a força de décadas atrás.

"A China ainda tem sua força. Mas países do Oriente Médio, que não têm tanta tradição no futebol, voltaram a se destacar na contratação de vários jogadores brasileiros, como faziam há algumas décadas, com o intuito de fortalecer o seu futebol e ganhar destaque no mercado internacional. O futebol dos Estados Unidos também tem contratado brasileiros, com esse mesmo objetivo", observa. O teto salarial lá é de US$ 100 mil (R$ 560 mil) por mês.

Azevedo destaca que os mercados periféricos no futebol acabam sendo uma boa solução para um jogador que busca sua valorização. "Muitas vezes esses mercados se tornam uma boa solução para muitos jogadores que não conseguem se transferir para a Europa e buscam uma realização financeira. Claro que, pelo lado técnico, eles acabam perdendo um pouco, mas, dentro da estratégia de carreira, as questões financeiras e de experiência de vida podem compensar", diz.

É preciso ter força de vontade dos dois lados, do atleta e do clube. Não dará certo se uma das partes não se entregar e cumprir o combinado. Os clubes, muitas vezes, adiantam dinheiro para o jogador e seus representantes. Isso inviabiliza a saída do atleta antes de cumprir o contrato. Assinar contrato, colocar a mão no dinheiro e voltar depois de seis meses não é possível por parte do jogador. Muitos até confiscam o passaporte do estrangeiro. Da mesma forma, o clube precisa honrar com suas promessas.

Outro fator apontado por Azevedo é o da chamada "carta de apresentação". Neste sentido, ele destaca que atuar em países da Ásia, do leste europeu e nos Estados Unidos, entre outros, pode abrir portas depois no Brasil.

"Em geral, o jogador que retorna é porque sentiu dificuldade em relação ao idioma. Isso aparece em primeiro lugar. Depois, sentiu que o jogo praticado não era propício para seu desenvolvimento. De qualquer maneira, quando ele volta para o Brasil, tem em sua bagagem toda a experiência adquirida, que acaba valorizando o seu trabalho. Ter atuado na China, no Oriente Médio e, mais recentemente nos Estados Unidos, é muito útil para um jogador que, por exemplo, quer se reinserir em um clube da Série B, visando depois ganhar mais notoriedade", afirma.

Nem sempre são as dificuldades econômicas do Brasil, em comparação com os países europeus, o principal motivo para a mudança. O País, afinal, se mantém entre as principais economias do mundo. E, mesmo com a moeda (real) desvalorizada em relação ao dólar e ao euro, haveria condições de manter muitos jogadores em solo brasileiro.

A questão, conforme ressalta Azevedo, está muito mais ligada à forma de gestão dos clubes do que às condições econômicas do Brasil. "Por questões de cultura e infraestrutura, o Brasil se mantém como o maior exportador de jogadores. Ainda é muito mais fácil jogar futebol, é o esporte mais acessível. Por essas características, bons jogadores continuam sendo revelados. O problema é que a saúde financeira dos clubes não possibilita que eles sejam mantidos. Endividados, os clubes veem como alternativa vender os direitos de seus jovens talentos. Existe, dentro do sistema vigente, o interesse do clube em negociar seus atletas para o exterior", destaca.

Hoje, é comum um jovem, que atua em uma equipe de ponta no Brasil, se transferir com satisfação para um time da Segunda Divisão da Inglaterra. Mas, conforme ressalta Azevedo, isso ocorre mais pela questão cultural e pela organização do futebol do que pelo lado financeiro. O atleta quer ter a experiência de atuar fora, e acredita que pode chegar por baixo, na segundona, e depois ser "descoberto".

Com uma melhor gestão dos clubes brasileiros, o fator financeiro deixaria de ser o principal motivo para a saída de um jogador, ressalta Azevedo. "Talvez aí a situação seria definida pelo mindset (mentalidade) do atleta. Ele até poderia optar por jogar na Segunda Divisão da Inglaterra. Mas também poderia escolher continuar no Corinthians ou no São Paulo, por exemplo, por serem equipes de ponta e terem se estruturado com gestões mais eficientes, dentro de um sistema muito mais profissional, o que também seria uma vantagem para o jogador", completa.

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