Lúcio foi criado dentro de presídio

A vida de dona Célia nunca foi fácil. Principalmente depois que perdeu o marido, vítima de um ataque do coração, e se viu obrigada a lutar em dobro para criar os 11 filhos. Cada um se virava do jeito que dava. Mas para Lúcio, o caçula entre os homens, o tratamento foi diferente. Sem ter com quem deixá-lo em casa, dona Célia passou a levar diariamente o menino, então com 11 anos, ao Presídio Aníbal Bruno, em Recife, onde trabalhava na cozinha. E foi ao lado dos presos, a maioria prestes a ganhar a liberdade, que nasceu na cabeça do atual lateral do Palmeiras o sonho de ganhar a vida jogando bola."Minha mãe não tinha com quem me deixar em casa. Por isso, sempre me perguntava se eu não gostaria de acompanhá-la ao seu trabalho. Eram tempos difíceis, e eu fazia de tudo para colaborar porque não havia dinheiro para pagar alguém que cuidasse de mim", diz Lúcio.O lateral se lembra muito pouco do Aníbal Bruno. Mas a imagem do campo de terra onde os detentos se divertiam durante o banho de sol jamais saiu de sua cabeça. Aos poucos, foi ganhando a confiança de todos, especialmente de "Chopinho". "Ele era o único preso que me incentivava a jogar bola com os demais, apesar da pouca idade que eu tinha. Lembro que as partidas eram muito disputadas, mas raramente acontecia alguma entrada mais dura." A bola só parava de rolar na hora do almoço. E lá ia Lúcio, ao lado de Chopinho, balançar o sino do presídio para avisar que estava na hora de voltar para as celas.Mesmo morando em São Paulo, o lateral gostaria de reencontrar o amigo que não vê há 13 anos, e que hoje mora no Cabo de Santo Agostinho. "O Chopinho me mostrou até onde eu poderia chegar. E ensinou que temos que pensar muito antes de fazer alguma coisa errada."

Agencia Estado,

15 de janeiro de 2004 | 09h28

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