Lugano, seriedade e raça no São Paulo

O estilo de Lugano, feito de seriedade e raça, é algo que se estende após o final das partidas. Não aceita, por exemplo, trocar a camisa com jogadores de Santos, Palmeiras e Corinthians. Uma homenagem à torcida do São Paulo, time que ele defenderá pela 100ª vez nesta quarta-feira, contra o Quilmes (ARG), no Morumbi. "Podem dizer que não é um ato de esportista, mas eu sou assim. O torcedor detesta o adversário e nós temos de respeitar isso. Respeito a camisa que visto e não fico trocando sem mais nem menos", explica o uruguaio.Há uma exceção. "Se a gente ganhar o clássico por 3 a 0 e não houver muitas faltas ou atritos no jogo, aceito trocar de camisa, mas o pedido tem de vir do outro lado. Não troco a camisa que defendo", garante Lugano. E se o adversário é o Santos, fica mais difícil ainda fazer com que o uruguaio aceite a troca. "Adoro ganhar do Santos porque quando cheguei aqui, eles tinham um grande time e houve algumas discussões em nossos jogos."Na quarta-feira, contra o Quilmes, pela Copa Libertadores da América, Diego Lugano completa cem jogos pelo São Paulo. Um feito que ele comemora com muito orgulho, por haver vencido muitos adversários antes de chegar ao reconhecimento que goza hoje. "Não me deram dois meses, dois jogos, para começarem a me criticar. Quando desci no aeroporto, já começaram as cobranças", conta o "jogador do presidente", como é chamado por Marcelo Portugal Gouvêa, presidente do clube.Um apelido que o prejudicou. "Disseram que eu era protegido, que o Oswaldo (de Oliveira) caiu por minha causa e que eu era violento e grosso. Eu tinha apenas 21anos e fiquei assustado um pouco, mas resolvi enfrentar tudo isso. Um uruguaio não gosta de voltar a seu país derrotado. Também não aceito isso", revela. Ainda mais em seu caso. Vir para o Brasil tinha sido uma aposta muito alta. "Eu podia ficar no Nacional, onde estava ganhando um lugar de titular ou ir para o Sporting Cristal, do Peru, que tinha me feito uma oferta muito maior que a do São Paulo. Não sei se foi muita confiança ou irresponsabilidade, mas resolvi jogar no São Paulo, um grande time do futebol pentacampeão mundial."Quando as coisas começaram a mostrar-se difíceis, Lugano resolveu trabalhar mais e mais. "Quando eu era cortado do jogo, no sábado, fazia uma hora de exercícios físicos. No dia seguinte, voltava e trabalhava mais uma hora. Depois dos treinos, fazia exercícios na piscina. Quando terminava o treino, praticava passes. E, de noite, em casa, não conseguia dormir."As chances voltaram e terminou 2003 como titular e em alta com a torcida. Aí, chegou Cuca e o colocou novamente como reserva. "Comecei tudo de novo. Não desisto. Então, o Cuca disse que se tivesse seis Luganos ficaria feliz. Não vi ele falar isso de ninguém. Hoje, já posso dizer que venci no futebol brasileiro. Para outros, pode não ser nada. Para mim, é tudo."A recompensa chegou com a convocação pela primeira vez para a seleção uruguaia - 17 de novembro de 2004, contra o Paraguai, pelas Eliminatórias de 2006. "Era jogo de vida ou morte porque a gente (Uruguai) vinha de três derrotas. Marquei bem o artilheiro Cardozo e ganhamos de 1 a 0", lembra.Foi a entrada em um novo mundo para ele, que só havia defendido a seleção de seu país como júnior. "Olha, aquilo é diferente de tudo o que existe no mundo. É um grupo de 25 jogadores totalmente unido em busca de um objetivo. Quando um cruza com o outro no café, no almoço, em qualquer lugar, só se ouve palavras de incentivo. Todo mundo tem orgulho da camisa celeste e sonha em colocar o Uruguai em seu lugar de novo", diz Lugano.O zagueiro do São Paulo sabe ser difícil o Uruguai voltar a ser campeão do mundo, mas não admite a situação a que se chegou. "Ficar fora de dois mundiais, é um absurdo. Nós podemos perder para o Chile, Paraguai, se eles tiverem uma boa geração, mas só nós temos condição de vencer Brasil e Argentina. Isso é o que desejamos."

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