Luís Fabiano: novo começo em Sevilha

Aos 24 anos, Luís Fabiano está recomeçando a carreira. É isso que significa para ele a oportunidade de jogar no futebol espanhol, mais precisamente no Sevilla. Depois de um ano de ostracismo, o atacante quer recuperar o tempo perdido no Porto, de Portugal, onde participou de somente 24 jogos - apenas seis deles completos, e marcou míseros três gols - o que nada representa para um artilheiro. "Quero voltar a fazer gols, a ser o artilheiro que sempre fui´´, diz. "E voltar a ser chamado para a seleção brasileira. Não esqueci que em 2006 tem Copa do Mundo e pretendo estar lá´´, acrescenta, nesta entrevista para a Agência Estado. Luís Fabiano chegou a Sevilla em 7 de julho. Ainda está se adaptando à cidade e ao time, que tem vários outros brasileiros - os selecionáveis Júlio Baptista e Renato, o lateral-esquerdo Adriano, ex-Coritiba e que esteve na Copa América do Peru em 2004, e o lateral-direito Daniel, revelado pelo Bahia e que jogou na seleção sub-20 -, mas se sente aliviado, confiante. Quase tão confiante quanto há um ano, quando, depois de ser artilheiro da Copa Libertadores pelo São Paulo e campeão da Copa América pela seleção, trocou o futebol brasileiro pelo português. Na Europa, porém, acabou esquecido pelos treinadores e ainda teve de suportar, praticamente sozinho, um drama pessoal: o sequestro de sua mãe, Sandra, que se arrastou por dois meses. Mas o "tempo ruim´´ é passado. "Agora é hora de recomeçar´´, concentra-se Luís Fabiano. E o início foi promissor. Semana passada, em sua estréia, ele fez o gol da vitória por 1 a 0 no amistoso contra o West Bromwich inglês. AE - No Sevilla, você entra em nova fase de sua carreira, após uma temporada praticamente perdida. Isso aumenta sua ansiedade? Luís Fabiano - Acho que o importante agora é procurar fazer a minha parte. Essa é uma temporada que tem tudo para dar certo para mim. Foi procurar fazer gols, me firmar. AE - O Real Madrid tem o Ronaldo; o Barcelona, o Ronaldinho; o Ricardo Oliveira está no Betis. Teremos um duelo brasileiro pela artilharia do Campeonato Espanhol? Luís Fabiano - Não pensei nisso, mas quero fazer meus gols e esquecer os outros. O principal é ajudar o Sevilla a fazer bom campeonato, depois penso na artilharia. AE - Como está sendo seus primeiros dias de clube? Luís Fabiano - Está sendo legal, fui bem recebido, o pessoal está me apoiando. Aqui também tem vários brasileiros (no Porto eram 10). E já conheço todos, menos o Daniel, que estou conhecendo agora e parece um cara bem legal. O Júlio jogou comigo no São Paulo, o Adriano na seleção e o Renato eu conheço desde os tempos de Campinas. AE - Com sua má passagem pelo Porto, você foi esquecido pela seleção brasileira... Luís Fabiano - Eu não sei exatamente o que aconteceu. De repente, parei de ser convocado. Mas vamos tocar para frente. Todo jogador quer se convocado e, na seleção, se você bobear, vem outro e te atropela. Tem muita gente com condição de jogar na seleção. Eu também me julgo. E vou lutar bastante para merecer nova chance e, depois, buscar um lugar no grupo que vai à Copa. AE - Neste aspecto, foi péssimo para você a temporada no Porto. O que aconteceu? Luís Fabiano - Eu cheguei no Porto com um problema no nervo adutor, que senti na Copa América. E havia ficado dois meses parado. Foi difícil. Além disso, o Porto trocou três vezes de treinador. Não é desculpa, mas isso dificultou. A certa altura, entrou um português (José Couceiro) que sacou meio mundo do time. Não tive mais oportunidade. E num futebol em que só se dá chutão e porrada, se você não tem uma sequencia de jogos, fica difícil. AE - Havia muita pressão? O time foi campeão do mundo (vencendo o Once Caldas no pênaltis, no Japão, jogo do qual Luis Fabiano participou)... Luís Fabiano - Havia. O time não se acertou no Português nem na Copa dos Campeões e isso complicou de vez. AE - Você recebeu que tipo de apoio durante o sequestro da sua mãe? Luís Fabiano - Eles até tentaram me dar apoio. Mas como não estavam vivendo a situação, não entendiam a gravidade do problema. Nessas horas, só os amigos e parentes podem realmente te ajudar. Para mim, foi muito pesado. Era difícil treinar e jogar esperando uma notícia. Mas não deixei de cumprir minha obrigação profissional (ele permaneceu em Portugal durante o sequestro), mas não estava bem de cabeça. AE - Tua mãe está com você aí em Sevilla? Vai ficar na Espanha? Luís Fabiano - Ela e outros parentes estão me ajudando na adaptação.Mas não decidimos se ela ficará aqui. Acho que, independentemente do que aconteceu, no Brasil dá para se viver com um certo nível de segurança. O trauma vai ficar, mas tomando algumas precauções, tem como viver no Brasil. AE - Por não ter ido bem no Porto, sua responsabilidade aumenta? Luís Fabiano - Não vejo assim, mas estou otimista. O futebol espanhol é mais técnico, de mais toque de bola. Bem melhor do que o português. AE - Você assinou contrato por quatro anos, com opção para renovar por mais um. Ficará mesmo no Sevilla durante todo este tempo? Luís Fabiano - Olha, para mim, é o ano do recomeço, do tudo ou nada. Quero voltar a fazer muitos gols, como sempre fiz no São Paulo. Não quero mais passar por sofrimento, ficar no banco. Estou com 24 anos e não dá mais para perder tempo. Se não conseguir meus objetivos por aqui, vou buscar um novo caminho. AE - No ano passado, você foi artilheiro da Libertadores, mas o São Paulo não foi campeão. Esse ano o título veio... Luís Fabiano - Fiquei bastante feliz com isso. Não vi a decisão. Como me apresentei para a pré-temporada no Sevilla, a última partida que assisti foi contra o River, pela semifinal. A minha tristeza foi não ter dado um título expressivo ao São Paulo. Mas quando eu saí, o clube precisava fazer caixa e precisava vender um jogador. Eu fui o escolhido. Mas o sonho da Libertadores se tornou realidade, é isso que vale.

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