Luta contra o preconceito no futebol ainda é discreta

Luta contra o preconceito no futebol ainda é discreta

Poucos clubes brasileiros têm campanhas para combater o mau comportamento de seus torcedores nos estádios e ficam sujeitos a punições

Almir Leite, Raphael Ramos, O Estado de S.Paulo

20 Setembro 2014 | 17h00

Os estádios brasileiros têm sido palco da intolerância dos seus torcedores, com gestos racistas e homofóbicos. O caso mais grave ocorreu com o goleiro Aranha, do Santos, xingado de "macaco" e "preto fedido" por torcedores do Grêmio. É comum, no entanto, jogadores serem chamados de "veado" e "bicha".

O STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) promete ser bastante rigoroso com esse tipo de comportamento, a exemplo do que aconteceu com o Grêmio, excluído da Copa do Brasil. Por isso, foram lançadas recentemente algumas campanhas contra o mau comportamento nas arquibancadas. Os exemplos, porém, ainda são raros e poucos clubes aderiram ao movimento.

"As medidas que os clubes estão tomando não servem ainda para avaliar se são suficientes ou não. Mas os clubes têm de se prevenir, senão serão responsabilizados caso ocorra alguma situação. O clube responde pelos atos praticados por seus torcedores, faz parte do risco do negócio", diz o procurador geral do STJD, Paulo Schmitt.

O artigo 243-G do CBJD (Código Brasileiro de Justiça Desportiva) abrange todo tipo de ato discriminatório, não apenas racial e incluiu a intolerância em relação a sexo, religião e gênero. Há previsão de punição para atletas, clubes e ao torcedor que for identificado.

Logo após os episódios do dia 28 de agosto, na Arena, o Grêmio passou a fazer campanhas de conscientização, inclusive no horário nobre da televisão aberta. Umas das peças publicitárias homenageava os ídolos negros da história do clube, entre eles Zé Roberto, Dener, Paulo Cézar Caju e Marcelinho Paraíba. O Grêmio também retomou o slogan lançado em 2013 "somos azul, preto e branco''.

O presidente Fábio Koff chegou a apelar à Fifa e enviou uma carta ao presidente da Força Tarefa contra o Racismo e a Discriminação da entidade, Jeffrey Webb. Desde 2006, o clube é signatário de um Termo de Cooperação com o Ministério Público do Rio Grande do Sul, no qual se comprometeu a promover campanha de conscientização contra o racismo nos estádios.

A diretoria, no entanto, reconhece que esse é um problema difícil de ser resolvido. "Se a exclusão do Grêmio da Copa do Brasil servisse para acabar com o racismo em todo o País, tudo bem. Mas sabemos que isso não vai acontecer. Infelizmente vivemos num contexto social no qual a segregação está presente em todos os setores'', disse o diretor de futebol Rui Costa.

Ações isoladas

Na esteira do que aconteceu com Aranha em Porto Alegre, o Bahia lançou a versão negra e feminina da sua mascote. "Lindona da Bahêa'', personagem da Mulher Maravilha, passou a fazer parceira com o Super-homem, tradicional mascote do clube.

"Ela simboliza as características do povo baiano. A negritude está no DNA do Bahia. Não temos vergonha de assumirmos que somos negros, doa a quem doer'', conta o gerente de negócios do clube, Lênin Franco.

Já o Cruzeiro organizou uma campanha com faixas e mensagens nos telões do Mineirão sob a alegação de que identificou, através das redes sociais, torcedores rivais que estariam programando e incentivando a prática de atitudes preconceituosas durante os jogos da equipe. O clube, então, resolveu lançar um manifesto.

O Corinthians fez um pedido formal aos seus torcedores na semana passada para que parassem de chamar de "bicha'' o goleiro adversário no momento do tiro de meta. A principal preocupação da diretoria é com o clássico de hoje com o São Paulo e possíveis punições do STJD. A provocação dos corintianos começou com insultos ao goleiro Rogério Ceni.

A torcida tricolor promete a resposta no clássico de hoje no Itaquerão e vai cantar que "não adianta argumentar, todo mundo já falou que o gavião virou um beija-flor''. Para os são-paulinos, a música não passa de uma provocação e não tem teor homofóbico.

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