Rodrigo Abd/AP
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Luto nos lugares por onde Maradona, 'El Dios', passou

Durante três dias de luto nacional por Diego Maradona, os argentinos viajaram - às vezes centenas de quilômetros - para homenageá-lo nos locais onde seu talento os fez sorrir

Rory Smith, The New York Times

04 de dezembro de 2020 | 17h50

O velório de Diego Maradona ultrapassou as fronteiras. Os fãs fizeram vigília em Nápoles, Itália. Sua imagem iluminou o Burj Khalifa em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. A equipe de rúgbi da Nova Zelândia levou a campo uma camisa em sua homenagem em Newcastle, Austrália. Seu rosto adornou as primeiras páginas dos jornais de todo o mundo.

Em Buenos Aires, porém, o luto parecia pessoal. A capital argentina não foi apenas a cidade onde ele nasceu - em Villa Fiorito, um de seus bairros mais carentes - e onde foi velado, no palácio presidencial da cidade, depois de sua morte na semana passada.

Buenos Aires também foi a cidade onde ele se tornou o Maradona que o mundo conheceria: no Argentinos Juniors, clube onde deu seus primeiros passos no futebol profissional, ainda adolescente, como uma promessa quase incalculável; e no Boca Juniors, clube onde virou a estrela mais brilhante de sua geração.

E foi a Buenos Aires que ele voltou - como jogador, como treinador e sempre como torcedor do Boca - seguidas vezes depois que sua carreira de jogador se encerrou, com sua estrela cadente. Buenos Aires pode parecer uma cidade construída em torno do futebol. Depois da morte do jogador que definiu essa cultura mais do que qualquer outro, não surpreende que tenha sido para o futebol que os porteños se voltaram em sua dor.

BOCA JUNIORS

Gastón, 46 anos: “Todos queríamos ser Maradona. Queríamos copiar tudo. Queríamos fazer tudo como ele fazia”.

Luis, 23 anos: “Não tive a oportunidade de vê-lo jogar, mas vi todos os vídeos. Sou torcedor do Boca Juniors, e ele é o maior que existe, não tem comparação. Ele é imortal para nós”.

Gustavo, 52 anos: “A notícia me machucou muito. Ele representa o rebelde, aquele que não se cala, aquele que ataca os poderosos. Na mesma linha do Che, por exemplo, para quem é mais pobre. E para mim isso é muito importante”.

Carlos, 67 anos: “Um menino que saiu da pobreza e chegou ao topo, rodeado pelas pessoas mais importantes deste mundo”.

María, 74 anos: “Não cuidaram dele. Ninguém cuidou dele, ninguém o salvou. E ele era a coisa mais linda que tínhamos”.

 

CLUB DE GIMNASIA Y ESGRIMA LA PLATA

Noe, 19 anos: “Foi minha mãe que me deu a notícia da morte dele, não consegui acreditar. Achei que fosse fake news. Vi jornalistas se emocionando muito com a notícia. Ele é um jogador que significa muito para todos nós. Fez o nome da Argentina ser conhecido no mundo todo”.

CASA DE INFÂNCIA

Daniel, 36 anos: “O mais perto que cheguei dele foi quando era criança. Eu estava no estádio, e ele veio bater um escanteio, tão perto quanto você aqui. Como não se empolgar com isso? Ele deu alegria ao país numa época em que o país não tinha alegria. Momentos em que era difícil botar um prato de comida na mesa, e mesmo assim ele fazia você sorrir, para comemorar com sua família. Ele é criticado por algumas coisas, mas como ele próprio disse: ‘Eu queria ser um exemplo no futebol. Se você quer exemplos de vida, olhe para suas casas, não para mim’”.

Ivan Ezequiel Rodriguez, 30 anos: “Com a Igreja Maradoniana, fiz em vida as melhores homenagens a Diego. Falei bem dele para o mundo, para levá-lo ao topo”.

VILLA FIORITO

Hector Armando Mansilla: “Joguei com e contra o Maradona, aqui no Fiorito. Eu o conheci quando tinha 5 ou 6 anos. Felizmente, quando ele tinha 15 anos, vieram e o tiraram da favela. Quando descobri, me tranquei no quarto. Senti que não o veria nunca mais. Para o bairro ele representa tudo, o melhor”.

Juan Roberto Arias, 63 anos: “Eu o conheci ainda na escola, porque ele estudava com meu irmão. Eu era um pouco mais velho. Ele jogava com a gente quando tinha uns 15 anos. Tinha muitos garotos bons aqui e em muitos bairros da região. Muitos que poderiam valer milhões naquela época. Sou orgulhoso por tê-lo conhecido. Ainda estou um pouco atordoado. Ainda não consigo acreditar. Ele representa o Fiorito como jogador de futebol, mas saiu aos 15 anos e, graças a Deus e ao esforço dele, nunca mais pisou na lama”.

Essas entrevistas foram editadas e condensadas. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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