Mãe de Junior quer punição exemplar

A família do jogador Cristiano Júnior, morto numa partida de futebol no último domingo, na cidade indiana de Bangalore, aguarda o resultado da autópsia para decidir que providência legal adotar e contra quem. A mãe do jogador, Maria Jaci Ferreira Nunes, de 52 anos, informou nesta segunda-feira que pretende dar ao episódio um caráter exemplar. "Quero fazer a coisa certa. É preciso questionar se pessoas agressivas devem jogar. Futebol é um esporte, não é um matadouro", disse.Depois de assistir algumas vezes ao teipe com as cenas do incidente com o goleiro Subrata Pal, do time adversário, ela está convencida que houve agressão e espera a vinda da nora, Juliana, para discutirem juntas a melhor forma de exigir justiça. "Vou tomar providências para evitar que outras mães chorem a morte prematura do seu filho. Não há indenização que supere a perda de um filho. Quero usar esse caso como exemplo para ajudar a acabar com essa violência estúpida nos campos", observou.Em princípio, o alvo da ação é o goleiro Subrata Pal e o time dele, Mohun Bagan. As providências para o traslado do corpo do jogador estão sendo tomadas pelos governos brasileiro e indiano, com a intermediação da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). O enterro deverá ocorrer na quinta ou sexta-feira, no cemitério da cidade satélite de Taguatinga.Emocionada e ainda incrédula com a morte trágica do filho, dona Jaci contou que desde a morte do jogador Serginho, do São Caetano, há pouco mais de um mês, ela se sentia angustiada com a profissão do filho. Ela o obrigou a fazer uma bateria de exames e cada vez que ele ia jogar, desfiava por telefone um longo repertório de recomendações maternas.Na sexta-feira, como sempre fazia às vésperas de uma partida, Cristiano telefonou para a mãe pela última vez e, após ouvir as recomendações de sempre, a pretexto do caso Serginho, ele deu o seguinte depoimento, na narração dela: - Não se preocupe, mãe. Não tenho problemas de coração. Não fique assim. O que aconteceu ao Serginho, pode acontecer a qualquer um, mas não vai acontecer comigo. Eu não estou doente. Fiz todos os exames.Cristiano é um exemplo típico de menino pobre das subúrbios brasileiros que sonha em se tornar craque de futebol. Ele não perdia a uma pelada de rua e, na falta de bola de couro, fabricava bolas de meias velhas ou de sacos de supermercado.Com a morte do pai, há 13 anos, a situação financeira da família agravou-se e dona Jaci viu-se obrigada a trabalhar como diarista para criar os filhos. Os mais velhos Vanessa, de 30 anos, e Lynce, de 28, graduaram-se em curso superior na disputada Universidade de Brasília (UnB). Também estudioso, Cristiano chegou a cursar o primeiro semestre de Fisioterapia, na Universidade Estácio de Sá, no Rio, mas os treinamentos intensos do Vasco e as constantes viagens o fizeram largar a faculdade.Financeiramente, a família não é rica, mas é independente e não dependia de Cristiano para sobreviver. A modesta casa onde moram, na cidade satélite da Ceilândia, porém, foi um presente de Cristiano nos bons tempos do Vasco. Ele teve boas passagens também pelo Olaria, América de Natal, Sampaio Correia, do Maranhão, e Criciúma, de Santa Catarina. Na Índia, Cristiano teve uma temporada em Calcutá, antes de ir para Goa. Antes, passou pela Tunísia e foi aprovado em testes no Benfica, em Portugal, mas não houve acerto financeiro.Cristiano, conforme a mãe, vivia um momento feliz. Artilheiro do campeonato indiano, situação financeira estável, ele estava morando numa cidade agradável, Goa, em meio a uma população de língua portuguesa e estava investindo num apartamento em que pretendia morar após a aposentadoria, na cidade de Pará de Minas.Evangélico fervoroso, pensava em ter um filho brevemente e planejava largar o futebol cedo, no máximo aos 32 anos, para cuidar da família e levar uma vida pacata no Brasil. Seu sonho mais imediato era retornar ao Brasil assim que pudesse e tentar espaço no Cruzeiro, time do seu coração.

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