'Maior do que Pelé', Leônidas da Silva, o Diamante Negro, completaria 100 anos

Craque precursor do marketing e da bicicleta, ele foi uma das primeiras estrelas do futebol brasileiro

GUSTAVO ZUCCHI, O Estado de S. Paulo

06 Setembro 2013 | 07h30

SÃO PAULO - Qual jogador de futebol poderia dizer que foi tão ou mais importante para o futebol brasileiro que Pelé? Nos dias de hoje, nenhum. Igual a Pelé, dá para contar nos dedos de uma mão. Se estivesse vivo, Leônidas da Silva pudesse ser esse cara. O craque do Flamengo, do Botafogo, do São Paulo e, especialmente, do Brasil, completaria nesta sexta feira 100 anos de idade. Pioneiro do marketing no esporte, inventor da bicicleta no futebol, o Diamante Negro foi isso é muito mais.

"Ele foi, especialmente, alguém muito importante para mim", diz Albertina Pereira dos Santos, viúva do atacante e guardiã de sua memória. E não só para ela. Campeão carioca, campeão paulista, Leônidas fez a alegria de torcedores durante quase 20 anos. No final da década de 1930, o craque não era a cara de apenas um clube. Ele era a cara do Brasil. Artilheiro da Copa do Mundo em 1938, com sete gols (originalmente eram oito, mas a Fifa retirou um, marcado contra a Checoslováquia), ganhou dos franceses o apelido de "Homem Borracha" devido à facilidade para saltar. Quatro anos depois, quando desembarcou no Tricolor Paulista, em 1942, viu mais de 70 mil pessoas lotarem o Pacaembu no recorde do estádio até hoje para ver sua estreia diante do Corinthians (o jogo terminou empatado em 3 a 3). Isso após passar oito meses preso, por falsificação do certificado de reservista do exército.

"Não houve nada parecido na época. As manchetes eram escandalosas. O São Paulo foi buscar no Rio o que havia de melhor na época e pagou uma grande quantia para tanto", conta o jornalista André Ribeiro, autor da biografia "Diamante Negro", que relata em detalhes a vida do craque. O São Paulo teve de desembolsar 200 contos de réis (algo que, se convertido pelo salário mínimo da época de 240 mil réis, seria hoje por volta de R$ 560 mil - portanto, um Paulo Henrique Ganso vale 40 Leônidas).

Não havia também nada parecido em termos de futebol. O "Diamante" era um craque sem comparação. Desde moleque, mostrava que seria diferenciado, em especial quando trocava sem pestanejar a bola de meia pela escola. "A gente jogava contra um time de marmanjos, de barba na cara, quase adultos e não perdia", lembrou Leônidas em uma entrevista ao Estadão em 11 de maio de 1980.

Daí passou pelo varzeano Fonseca Lima F.C, pelo Abanesa F.C, Barroso F.C, Sírio Libanês, Bonsucesso, Peñarol do Uruguai, Vasco, Botafogo, Fluminense, Flamengo até chegar finalmente no São Paulo, último clube de sua carreira, encerrada em 1949. "Ele ainda era o melhor jogador do Brasil qundo parou. Anos depois, conversei com o Flávio Costa (técnico da seleção brasileira) e ele admitiu: 'errei por não ter levado Leônidas para a Copa do Mundo em 1950'", conta André Ribeiro.

MUNDIAL

Sua primeira participação em Copas do Mundo foi em 1934, quando fez o único gol do Brasil naquele mundial, na derrota por 3 a 1 para a Espanha. Segundo o próprio atleta, a viagem desgastante e sem a oportunidade de treinar a bordo do navio Conte Biancamano foram fundamentais para o desempenho ruim do time. Quatro anos depois, a história foi diferente. "Em 1938 foi organizada uma boa seleção. Houve a pacificação do futebol carioca e todos os bons jogadores puderam ser convocados", lembrou Leônidas, 33 anos atrás. Ele não entrou em campo contra a Itália, na partida que eliminou o Brasil. "Naquele grupo tinha muita gente que afinava, mas eu não joguei porque estava machucado mesmo".

CIUMENTO

Leônidas da Silva não media palavras diante de seus interlocutores. Nem ações. Ficou famoso dentro das quatro linhas pelo futebol e pelo temperamento fora delas. Ele afirmava: "Apesar de dizerem que eu era genioso, indisciplinado como jogador, eu sabia acatar ordens". "Eu fui muito feliz com ele, mas ele era muito ciumento", lembra Dona Albertina. Após encerrar a carreira como jogador, Leônidas foi técnico do São Paulo por 73 jogos. Mas seu gênio o prejudicou. "Fracassei pelo meu temperamento".

MAIOR QUE O REI

Dentro de campo, seu desempenho foi a antítese do fracasso. No São Paulo foram 144 gols em 211 jogos. O atacante foi cinco vezes campeão paulista. Por crueldade do destino, viu o período de glórias da seleção brasileira como comentarista. Mas seu números o credenciam na seleção: 37 jogos (19 oficiais e 18 não oficiais), 37 gols (21 em jogos oficiais e 16 em não oficiais). Média de gols maior que Pelé (1 contra 0,83 do Rei) e empatada com a de Quarentinha (atacante do Botafogo que defendeu a seleção de 1959 a 1963 e fez 17 gols em 17 partidas). Quando morreu, em 24 de janeiro de 2004, em Cotia, sofrendo de Alzheimer, o ex-goleiro do Palmeiras e adversário de Leônidas, Oberdan Catani, definiu o que foi o Diamante Negro: "Era maior que Pelé".

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