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A polícia carece de detalhes, mas supõe que a agressão contra dois homens no domingo à tarde esteja ligada a rixas entre torcedores de Palmeiras e Santos. As imagens gravadas por câmera de segurança do posto de gasolina onde ocorreu o atentado, na zona leste, correram pelas tevês e pelas mídias sociais, causaram comoção e revolta pela intensidade e covardia da violência. Um taxista, golpeado a pauladas, morreu.

Antero Greco, O Estado de S. Paulo

13 de novembro de 2015 | 03h00

Os indícios de crime ligado ao esporte são a camisa verde de um dos vândalos e a camiseta do Santos que um dos agredidos vestia. Como há episódios anteriores de brigas entre as facções organizadas dos dois clubes – com outras mortes–, prevalece, no momento, a hipótese de uma vingança.

Há possibilidade forte de a polícia descobrir os autores da barbaridade – o vídeo ajuda, e a esta altura a rede de informações certamente foi ativada. Como as cenas chocaram, difícil imaginar que o crime passe batido. Incidentes rumorosos costumam fazer com que as autoridades cobrem resultados de curtíssimo prazo. Os autores logo serão exibidos como troféus, e que paguem pela monstruosidade cometida.

A questão não se fecha com eventual detenção dos delinquentes. Em pouco tempo sumirão do noticiário, com ou sem condenação. O problema – amplo, antigo, preocupante – permanece o mesmo, e se refere à ação de grupos radicais no futebol. Impressiona como essa gente tem poder de convencimento, como atua com liberdade, como acua a sociedade. O Estado parece impotente para conter os extremistas.

Faça uma rápida incursão pelo Google e veja quantas vezes o tema aqui tratado ganhou manchetes. Vai espantar-se. Anote quantos morreram por causa do jogo de bola; cifras de guerra civil. Fique farto de declarações firmes e promessas de combate contra quem espalha pânico nos estádios. E sinta-se enojado com o papo furado. 

Os radicais crescem, expandem seus negócios, entraram em vários clubes, têm voz ativa, elegem parlamentares. São um Frankenstein, alimentado por clubes e dirigentes espertalhões, que perderam o controle sobre eles. Formou-se um contingente paramilitar. 

Agora, considere a hipótese de que se trata de “crime comum” – como se matar alguém fosse algo natural. Ficam isentos os suspeitos de sempre, mas não deixa de ser fato grave. A vida, neste imenso país, virou banalidade, detalhe secundário. Mata-se por qualquer coisa: um olhar enviesado, uma fechada no trânsito, um arranhão no carro, uma discussão entre vizinhos, uma divergência por falta de troco. 

Matam-se meninos de rua, coloca-se fogo em mendigos, índios ou imigrantes. Tiroteios são frequentes, quase com hora marcada e três vezes ao dia; chacinas se sucedem – a dúvida é o número de vítimas. Depois, basta lavar o chão com água sanitária, empurrar o sangue para o ralo, que tudo volta ao normal. Mata-se por causa de terras, para ficar com herança dos pais. Não se mata (ainda) por crença religiosa.

A morte do taxista Gerson Ferreira de Lima tende apenas a engrossar estatísticas de violência com origem no futebol. Se não houver ligação com o esporte, será número mais banal ainda. Só outro pobre coitado, sem voz, que deixará saudade para os amigos e parentes. Nada mais.

Amor-próprio? Ganso e “staff” tanto fizeram, temporadas atrás, que conseguiram romper o vínculo com o Santos. O meia foi para o São Paulo e, nas ocasiões em que retornou à Vila, foi recebido com moedas pelos ex-fãs, pela imagem desgastada. 

Ganso não vingou no Morumbi e agora se traça possível volta às origens. Claro que as pessoas reconsideram posições, reavaliam decisões, amadurecem. Mas no futebol há muita cara de pau e baixa autoestima dos clubes. São frequentes os casos de atletas que cospem no prato em que comeram, fazem um escarcéu para irem em busca de experiências e mais tarde são recebidos como heróis. Ou filhos pródigos, sei lá. A vida é surpreendente.

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