Rubens Chiri/São Paulo FC
Rubens Chiri/São Paulo FC

Mais velho da Série A, Magrão se divide entre o gol a vida de pai de atletas

Goleiro do Sport tem 41 anos e vê dois filhos iniciarem carreira no futebol: um como lateral e outro como goleiro

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

23 de setembro de 2018 | 05h00

As luvas fazem toda a diferença na vida de Magrão. Quando está com o adereço, o goleiro de 41 anos é o jogador mais velho em atividade na Série A, titular do Sport que neste domingo enfrenta o Palmeiras pelo Campeonato Brasileiro, no Recife, pela 26.ª rodada. Se está com as mãos livres, ele volta a ser Alessandro Beti Rosa e ainda assim mantém laços com o futebol. A função é a de ser pai de dois atletas em início de carreira, um deles também goleiro como ele.

A longa carreira profissional de mais de 20 anos deixou Magrão com a curiosa situação de conciliar a vida como jogador à de pai de dois atletas. Só no Sport são 13 temporadas, mais de 700 jogos, nove títulos e 33 pênaltis defendidos – o que ele conta com a vibração de quem faz um gol. Essa lista de feitos vai aumentar, pois com contrato assinado até dezembro de 2019, ele estará em ação pelo menos até os 42 anos.

"As pessoas acham que se você passa dos 30 anos já está velho no futebol. Não é assim. O maior problema não é a idade, mas a cabeça. O psicológico conta mais", disse ao Estado. Magrão atribui a longevidade no futebol aos cuidados especiais com a alimentação. Ele evita comidas gordurosas e refrigerante, por exemplo. "Não sou de engordar facilmente. Por isso me chamam de Magrão."

Magrão vira Alessandro sem as luvas. Usa o celular para conversar regularmente com os filhos Rafael, de 17 anos, que é goleiro da base do São Paulo. Lucas, de 18, é lateral-direito e está no Valgatara, da quarta divisão da Itália. Os dois saíram cedo de casa por causa do futebol. Magrão sempre os apoiou. A filha mais velha, Gabriela, é formada em direito e está de mudança para Portugal. Fará um mestrado.

O veterano goleiro do Sport prefere ser discreto no papel de pai de jogador. Para ele, opinar demais pode ser prejudicial e colocar pressão nos meninos. "Eles têm de construir a história deles. Quando o chamam de filho do goleiro Magrão, peço para que o chamem de Rafael."

Magrão não esperava que seus meninos seguissem a carreira do pai. Muito menos que um fosse goleiro como ele – o outro é lateral. Com Lucas, o incentivo foi para não ser defensor. "Quando ele era pequeno, pegava a bola e driblava todo mundo. Eu brincava que ele tinha de jogar no ataque, para ganhar mais dinheiro", brinca. 

O ídolo do Sport admite ter demorado a comprar o primeiro par de luvas para Rafael na esperança de fazê-lo mudar de ideia. Não deu certo e ele teve de ceder. "Eu comecei a jogar na linha, só que vi que não ia dar muito certo. Então, fui para o gol e acabei gostando", conta Rafael, que tem como ídolos o próprio pai e Rogério Ceni. Na última semana, o garoto esteve no Japão e foi campeão de um torneio sub-17 pelo São Paulo. 

"Meu pai fala que goleiro tem de ser tranquilo, tem de passar confiança aos companheiros, então eu procuro sempre ser assim também, como ele é", diz Rafael. O paizão se enche de orgulho. Quando o calendário traz Magrão para São Paulo, ele sempre se encontra com o filho. A última ocasiçao foi em agosto. O time pernambucano enfrentou o Santos, na Vila Belmiro. Como Lucas mora na Itália, se falam pelo celular.

Quem sofre com tantos atletas na família é Marilu, mulher de Magrão. "Ela já fica nervosa quando estou jogando. Agora diz que a saga vai continuar", diverte-se. O casal está junto há mais de 20 anos e superou momento difícil nos últimos anos, quando Marilu teve um câncer.

Com contrato assinado, Magrão não tem data para parar. Ele está preocupado em ajudar o Sport a sair da zona de rebaixamento. Como tem mais uma temporada no clube, quer continuar no time e sonha em atingir mais um recorde. Se ganhar outro título, chegará a dez e se isola como o atleta com mais conquistas da história do Sport.

Para o futuro, longe do gol, Magrão não sonha em trocar as luvas por uma prancheta de treinador. A carreira à beira do campo não o atrai. "É uma profissão muito difícil de seguir. Você perde três ou quatro jogos e já está na corda bamba, perto de ir embora. A família sofre com isso, é ruim", explicou. O plano dele é de continuar a acompanhar o crescimento dos três filhos e avaliar oportunidades para ser, quem sabe, dirigente do Sport.

 

 

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