Estela Silva/ EFE
Estádio do Dragão receberá a decisão da Liga dos Campeões Estela Silva/ EFE

Manchester City e Chelsea fazem final bilionária na Liga dos Campeões

Times ingleses investiram, juntos, mais de R$ 10 bilhões na formação dos elencos que se enfrentam em Portugal

Gonçalo Junior, O Estado de S. Paulo

29 de maio de 2021 | 05h00

Manchester City e Chelsea fazem uma final bilionária na Liga dos Campeões neste sábado. O termo “bilionário” é literal, não é apenas modo de dizer. Presentes entre os dez clubes mais ricos do mundo, as duas potências do mercado investiram cerca de R$ 10 bilhões para a formação dos elencos que se enfrentam no estádio do Dragão, em Portugal, às 16h, para saber quem é o melhor time da Europa na temporada 2020/2021.

O clube comandado por Pep Guardiola desembolsou 928,2 milhões de euros (R$ 5,9 bilhões) para contratar os jogadores do elenco. O rival gastou um pouco menos, cerca de de 646,4 milhões de euros (R$ 4,1 bilhões) . A base de comparação são os valores de transferência do site especializado Transfermarkt. A diferença entre os dois se deve à escalação dos jogadores da base. No City, o atacante Phil Foden é o único titular. No Chelsea, os técnicos Frank Lampard, que acabou demitido, e Thomas Tuchel usaram cinco jogadores formados no clube.

A origem dessas fortunas têm um denominador comum: bilionários estrangeiros cujos investimentos tiveram grandes impactos na história dos dois clubes. Eles criaram um “antes” e um "depois". Até a chegada do russo Roman Abramovich, magnata russo dos setores petrolífero e mineração, em 2003, o Chelsea tinha apenas um título inglês, em 1955. Hoje tem seis, além de conquista continental em 2012. Foi o ápice do investimento que começou nove anos antes.

Já o City, cujo dinheiro sai de um fundo de investimentos financiado pela família real de Abu Dhabi (Emirados Árabes Unidos), quebrou um jejum de 44 anos sem vencer o Campeonato Inglês. Venceu em 2012 e continuou vencendo. Dali para frente, o City conquistou o Inglês por mais quatro vezes. Com investimento forte, os clubes passaram a sentar na mesma mesa dos rivais ingleses tradicionais.

Esse vigor econômico se traduziu no domínio do futebol inglês. Na Liga dos Campeões, eles sobraram. O Chelsea derrubou o maior campeão da competição, o Real Madrid, com um 3 a 1 no placar agregado. O Manchester City passeou diante do poderoso PSG de Neymar e Mbappé, com 4 a 1 na soma dos dois jogos. “Ganhar a Champions é uma grande realização. Ser o primeiro brasileiro a ter a oportunidade de levantar o troféu é um momento de orgulho para todos. Seria um dos momentos de maior orgulho da minha carreira”, afirmou Fernandinho, que deve ser titular.

O City pode ser considerado favorito para buscar seu primeiro título da Liga dos Campeões. Alcançou três títulos ingleses nos últimos quatro anos, inclusive o da atual temporada, e possui o técnico mais badalado de sua geração. Em 11 temporadas, Guardiola foi nove vezes campeão nacional, mas o último de dois triunfos na Liga dos Campeões ficou lá atrás, em 2011.

Guardiola aperfeiçoou o sistema com um "falso nove". Mahrez, Foden, Bernardo Silva, De Bruyne e até Gündoğan “rodam” como atacantes. Com apenas quatro gols sofridos nos 12 jogos, o time parece ter construído o muro defensivo que faltou em outras temporadas. O fato de ter superado o trauma das quartas de final elevou o moral. A forma como eliminou o PSG tirou quaisquer dúvidas sobre a capacidade de chegar ao título europeu.

O treinador pode ter um desfalque de última hora. O volante alemão Ilkay Gündogan deixou o treino de reconhecimento do gramado do Estádio do Dragão, com dores na coxa. “As pessoas pensam que é fácil chegar à final da Champions League. Agora que conseguimos chegar lá, faz sentido o trabalho que o clube desenvolveu nos últimos quatro ou cinco anos”, afirmou Guardiola.

O leve favoritismo esbarra no retrospecto recente diante do rival. A equipe de Thomas Tuchel superou o rival duas vezes em poucas semanas: a primeira foi na semifinal da Copa da Inglaterra e no último encontro do Campeonato Inglês – e vai tentar voltar a fazer o mesmo.

O muro do Chelsea parece ainda mais sólido. O time só sofreu cinco derrotas sob o comando de Thomas Tuchel, em janeiro. O volante N’Golo Kanté parece estar em todos os lados do campo. E raramente perde a bola. A arapuca parece armada: bloqueio defensivo à espera de uma oportunidade para contra-atacar. Os jogos mais recentes, no entanto, acenderam um alerta. Foram três derrotas em quatro jogos.

O time azul também tem um craque no banco de reservas. Tuchel é o primeiro treinador a levar dois clubes diferentes até finais consecutivas – o outro foi o PSG. Tuchel é uma revelação entre os treinadores. Ganhou campeonatos seguidos na França, foi finalista na Liga dos Campeões após sucesso na Alemanha com o Dortmund. E ele admite certa inferioridade na decisão. “Temos seis jogos juntos (na Liga dos Campeões). Sentimos que trabalhamos duro para estar aqui, e estamos com fome. Estamos aqui para ganhar o troféu. Talvez um pouco azarões, mas com muita coragem e vontade de ganhar — afirmou Tuchel. ”, afirmou Tuchel.

Presença de público

Originalmente, a partida seria jogada em Istambul, mas a sede teve de ser alterada por causa da pandemia de covid-19. A Uefa colocou à venda 1.700 ingressos para decisão pelo site oficial da entidade. A medida vem após a autorização do governo português em liberar a presença de 16.500 torcedores no estádio do Dragão. Os preços variam entre 70 e 600 euros (R$ 460 e R$ 3,9 mil). Vale lembrar que 12 mil ingressos já foram vendidos entre torcedores do Chelsea e Manchester City (6 mil para cada e com a comercialização sendo gerida pelos dois clubes ingleses).

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Ex-atletas de City e Chelsea apostam em final decidida nos detalhes

Geovanni, ex-atacante dos Citizens, e Ramires, ex-volante dos Blues, analisam a decisão da Liga dos Campeões neste sábado

Entrevista com

Ramires e Geovanni

Gonçalo Junior, O Estado de S. Paulo

29 de maio de 2021 | 05h00

O Chelsea tem a chance de conquistar seu segundo título da Liga dos Campeões neste sábado, na final diante do Manchester City, no estádio do Dragão, em Portugal. A primeira conquista, 2012, teve participação importante do meia Ramires. O gol, que ele considera o mais importante de sua carreira, foi feito na semifinal diante do Barcelona. Em entrevista ao Estadão, o ex-jogador do Palmeiras, que teve passagem marcante pelo time inglês entre 2010 e 2016, afirma que não espera grandes surpresas na decisão do torneio mais importante de clubes. E aposta na vitória do Chelsea.  

Qual foi a importância da passagem pelo Chelsea na sua carreira?

O Chelsea foi o clube que me proporcionou chegar até onde eu cheguei em termos de projeção, de importância. É um clube que marcou a minha vida, onde vivi os momentos mais marcantes da minha carreira e pelo qual serei eternamente grato.

Você viveu momentos distintos no clube relacionados à mudança de técnicos (Villas Boas, Di Matteo, Rafa Benitez, Mourinho e Hiddink). Como foram esses momentos?

Todos esses treinadores dispensam comentários em relação a sua qualidade, eles tinham a nossa total confiança, mas o Di Matteo conseguiu dar a liga que a nossa equipe precisava para atravessar aquele momento decisivo. Ele teve o mérito de perceber como poderíamos ser um time competitivo e extrair o máximo de cada um individualmente. Sem contar o fato dele conhecer o Chelsea por ter jogado no clube.

Como foi a conquista do título em 2012?

Aqueles dias foram mágicos, alguns dos melhores da minha carreira. Disputar a Champions já é algo marcante, levantar a taça então é um sentimento indescritível. Me sinto eternizado na história do Chelsea e do torneio por tudo o que passamos, tendo que conviver com a desconfiança e contestação sobre a nossa maneira de jogar.

Você fez um belo gol na semifinal diante do Barcelona...

Considero aquele gol, pelo tamanho do que ele representou na minha vida e na minha história, o momento mais marcante da minha carreira. Se pudesse resumir tudo em um lance, seria esse o meu escolhido. Eu até costumo brincar dizendo que as pessoas lembram que eu fiz o gol, mas até esquecem que fui campeão depois.

Como você vê o futebol do Chelsea nesta temporada?

Tenho acompanhado os jogos e se trata de uma equipe de muita qualidade, que tem um ritmo intenso e consegue propor o jogo. Assisti os dois jogos da semifinal com o Real e fiquei bastante impressionado e feliz em ver a equipe jogando com desenvoltura e dominando o jogo boa parte do tempo.

Como o time chega para a final da Liga dos Campeões?

Eliminar um gigante da competição como é o Real Madrid e da maneira incontestável que foi é algo que eleva muito a confiança da equipe. Estou esperançoso de que o time conseguirá esse título. Vou torcer muito por isso.

Como você analisa o confronto com o Manchester City? O que pode ser decisivo?

As duas equipes se conhecem muito bem então eu acredito que será um jogo equilibrado, daqueles que qualquer detalhe pode fazer a diferença. Acredito ser difícil alguém ser pego de surpresa por conta de todo o conhecimento que uma equipe tem da outra. Será um confronto bastante equilibrado e que pode ser resolvido no detalhe. É final, decisão e tudo pode acontecer. Vou estar na torcida para que a sorte esteja do lado do Chelsea.

 

Geovanni – atacante do Manchester City em 2007/2008

O atacante Geovanni, revelado pelo Cruzeiro e que passou por Barcelona e Benfica, chegou ao City um ano antes da equipe ser comprada por um fundo da Abu Dhabi e se tornar uma das maiores potências da Europa. Sua passagem foi breve, mas marcante. Uma de suas melhores lembranças foi um gol marcado diante do Manchester United, encerrando um jejum de 18 anos sem vitória sobre o maior rival. 

Qual foi a importância da passagem pelo City na sua carreira?

Foi um sonho. Tinha um projeto de disputar a Premier League e tive a felicidade de jogar neste grande clube. Ele abriu as portas para mim. Quando assinei o contrato, eu fui o primeiro brasileiro a assinar com o Manchester City. Eles tinham um projeto que começou em 2007. Ele foi ampliado. Hoje, ele está colhendo os frutos.

Quais as principais lembranças?

O que ficou marcado foi o clássico diante do Manchester United. Fazia 18 anos que não ganhávamos do rival. Ganhamos de 1 a 0 e eu fiz o gol. Foi um momento marcante. Foi um dia inesquecível. Eu tenho certeza que a partir dali a história do Manchester City mudou. Os próprios torcedores acreditaram que poderiam ganhar do maior rival e finalmente soltaram o grito que estava engasgado há 18 anos. Foi muito gratificante. Depois disso, eles colocaram um quadro da jogada do meu gol na saída do túnel dos vestiários.

A euforia foi grande?

De noite, saí para jantar com o Elano, e o restaurante estava lotado. Todos que eram torcedores do City levantaram e começaram a bater palmas para nós, gritando nossos nomes. Eram umas 300 pessoas. Aquilo me emocionou muito, principalmente saber que o choro e a vontade de vencer estavam tão engasgadas na garganta de todos.

Como você vê o futebol do City atualmente?

É uma equipe muito forte, tanto defensivamente como ofensivamente. Na minha opinião, eles têm o melhor treinador do mundo. O time encaixou no esquema dele. Time jovem e consistente, com uma forma especial de jogar. É um time fenomenal. Eles têm muitas peças de reposição. No banco de reservas estão o Aguero e o Gabriel Jesus. Isso mostra a qualidade do elenco. O De Bruyne tem feito a diferença. O Manchester City tem tudo para ganhar essa final inédita.

O que espera da final?

O Chelsea cresceu muito na reta final, no Campeonato Inglês e Liga dos Campeões. Pela temporada, eu acho que o City tem tudo para ser campeão. Espero que toda a nação azul fique feliz com a primeira Liga dos Campeões. Será uma final complicada.  

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