Márcio Fernandes de Oliveira/Estadão
Márcio Fernandes de Oliveira/Estadão

Mandinga de torcedor

O vídeo que viralizou nas redes sociais é prova de que futebol e superstição caminham juntos. É inegável. Todo torcedor tem a sua

Adriana Moreira, O Estado de S.Paulo

26 Junho 2018 | 04h00

Uma senhora acende uma vela. Coloca sob a tevê durante Brasil x Costa Rica e o efeito é imediato: gol de Philippe Coutinho, catarse coletiva e Dona Dinha - esse é o nome dela - é carregada nos braços, como a responsável por garantir a vitória da seleção.

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O vídeo que viralizou nas redes sociais é prova de que futebol e superstição caminham juntos. É inegável. Todo torcedor tem a sua, mesmo que seja secreta, compartilhada apenas consigo mesmo, quem sabe na hora de fazer uma simples escolha: qual camisa vou usar para ver o jogo?

Superstição não é uma ciência exata. Afinal, a coisa toda está em detalhes, na sutileza de perceber que aquela combinação de peças, o lugar escolhido para ver o jogo e até a companhia (quem não tem um amigo pé-frio?) foi responsável pela vitória do seu time. 

Os jogadores também têm as suas. O meia inglês Dele Alli disse, ao site da Fifa, que usa as mesmas caneleiras desde que tinha 11 anos. “Estão desgastadas, mas sou muito supersticioso”, admitiu. Mario Gomez, da seleção alemã, vai sempre no mesmo urinol, no canto esquerdo, antes dos jogos. Já o ex-goleiro argentino Sergio Goycochea preferia mesmo urinar em campo antes das cobranças de pênalti. Sentava no gramado, à la Ronaldo na Olimpíada de Atlanta, e se aliviava.

 

Em 1998, o capitão do time da França, Laurent Blanc, tinha como ritual beijar a careca do goleiro Fabien Barthez para dar sorte antes das partidas (aparentemente, funcionou mesmo). O argentino Mario Kempes tirou o bigode em 1978 para acabar com sua seca de gols - e marcou muitos depois disso. O ex-goleiro colombiano Higuita só usava cuecas azuis. Zagallo tinha o 13 como número da sorte. Parreira só entrava em campo com o pé direito. A lista é infinita.

Não acredita em superstições? Dá para usar estatísticas para comprovar teorias discutíveis. A camisa azul do Brasil, por exemplo, foi considerada “sortuda” depois de ser usada na final contra a Suécia, em 1958, no primeiro título da seleção. Na campanha do tetra, entrou em campo em três dos sete jogos - quem não se lembra de Bebeto fazendo o gesto de embalar um bebê nos braços no jogo contra a Holanda? Porém, depois que o Brasil foi eliminado com ela em 2010 (também contra a Holanda), a camisa foi deixada de lado no Mundial de 2014. Deu no que deu. Coincidência ou não, a camisa voltou nesta Copa - com ela conquistamos a vitória (suada, nos acréscimos, mas ainda uma vitória) contra a Costa Rica. Se bem que o mérito também pode ser da Dona Dinha, vai saber.

Há também a lista de coincidências. Em 2002, a Costa Rica fazia parte do grupo do Brasil e o técnico campeão (Felipão) era gaúcho, assim como Tite. Fomos humilhados em 1998 e exaltados em 2002. Depois dos 7 a 1 (bate na madeira três vezes), não seria nada mal a redenção vir em forma de hexa. 

Por falar em 7 a 1 (noc noc noc), renovei meu estoque de superstições depois do fiasco contra a Alemanha. Desculpem, bandeirinhas de 2014, vocês têm de partir. A camisa usada naquele dia vai ficar guardada no armário por pelo menos mais quatro anos. Mas não consegui repetir os rituais de 1994 e 2002, quando assisti a todos os jogos no mesmo lugar, em casa. As primeiras partidas foram por acaso, mas depois você começa a notar um padrão e se sente responsável por aquelas vitórias. Por que arriscar? 

Assim, peço desculpas de antemão: se a seleção não trouxer a taça, parte da culpa será minha. Mas, se o hexa vier, um novo padrão terá surgido. Esquema tático? No universo das superstições, isso é só um detalhe. 

*ADRIANA MOREIRA É EDITORA DO ‘VIAGEM’ DO ESTADÃO

 

 

 

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