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Maradona

Argentino era um jogador extraordinário, mas não um atleta; era um fenômeno artístico

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

26 de novembro de 2020 | 05h00

Nos últimos anos nos acostumamos a associar Maradona a clínicas de recuperação, hospitais, recaídas em tratamentos feitos e refeitos. Enfim, notícias inquietantes sobre a saúde do craque eram coisa corriqueira. Agora ele se foi, finalmente encontrou-se consigo mesmo. Isso porque a vida de Maradona desde que parou com o futebol não era vida, era outra coisa. Talvez fosse uma busca desesperada para dar sentido a algo que para ele já não tinha nenhum.

Vai ser aparentemente fácil encontrar causas para a morte de Maradona procurando na sua atitude de descuido quanto à própria saúde, no seu desprezo pela prudência, pela temperança, pela vida saudável. Jogador extraordinário, mas que, como Garrincha, não era um atleta, mas apenas um fenômeno artístico, o futebol era sua vida. Não uma coisa importante na sua vida, não uma coisa fundamental, mas a própria vida em sua totalidade.

Sem contato com a bola e com o campo não havia nada. Não sabia mais o que estava fazendo aqui, quando lhe faltou o jogo, os dribles e os lances de inimitável malabarismo. Como Garrincha, era um craque para craques. Sabia que não fazia apenas gols, sabia que fazia arte. Gols especiais que culminavam jogadas que poucos tinham visto antes. Como Garrincha, era um individualista que muitas vezes resolvia sozinho com toda sua técnica e fazia dos companheiros espectadores privilegiados de seu talento.

Ele não precisava de ninguém. Alguns de seus gols que ficaram na história eram de um homem enfrentando exércitos, sobrepujando tudo em direção do gol. O gol era, como disse, o corolário de uma série de movimentos que quem via não se esqueceria jamais. Esse tipo de jogador, como ele ou Garrincha, sabia que o jogo não ia durar para sempre, mas fingia não acreditar.

Sentiu antes de qualquer outro que o corpo, principalmente um corpo como o seu, começava a não lhe dar mais o quer pedia e passou a sentir falta do antigo corpo. Começou, talvez sem se dar conta, a desprezar esse novo corpo que não obedecia mais tão exatamente o que o cérebro ordenava. Talvez tenha passado ao ódio de si mesmo por se negar o maior prazer da vida. Pode ser que seja essa a causa da falta de interesse pela sua própria condição.

Ainda outro dia vi Maradona saído da clínica onde estivera, numa manifestação para marcar não lembro qual data de sua vida. Havia por perto muita gente ,se não me engano até membros daquela religião, da qual era Deus, que alguns excêntricos brincalhões inventaram para homenageá-lo. Sei que era numa cancha de time pequeno e lá estava Maradona rodeado de gente sorridente e efusiva , enquanto ele, abatido, lento, sem nenhuma reação, sequer acompanhava o que faziam ou diziam, completamente alheio, como Garrincha sentado naquele carro alegórico da Mangueira do carnaval de 1982.

Os comentários sobre a atitude de Maradona foram sempre os mesmos. Lembraram que ele havia saído da clínica recentemente, que talvez estivesse sob efeito de remédios. Acho que não era nada disso. É mais provável que ele apenas se tornara totalmente indiferente a homenagens que não tinham qualquer efeito sobre o que era mais precioso para ele. Parecia cansado. Talvez se lembrasse do Brasil, dos jogos que fazia convidado por Zico, nos quais rejuvenescia em companhia de jogadores que admirava e respeitava.

Vi Maradona em vários desses jogos amigáveis, que encarava como se fosse a final de Copa. Só que sorridente e feliz. Até o corpo gordo e velho, parecia recobrar força nesses jogos entre amigos, companheiros, irmãos. Ao ver todos gordos, meio disformes e trôpegos como ele, recobrava o humor e se divertia profundamente. Não, Maradona não era Deus como pensavam os adeptos de sua religião. Mas deveria ser. Só para poder jogar quando quisesse.

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