Henry Romero/Reuters
Maradona está no comando do Dorados de Sinaloa desde setembro do ano passado Henry Romero/Reuters

Maradona se aproxima de título e de virar herói em cidade marcada por narcotráfico

Técnico argentino dirige o Dorados de Sinaloa, que disputa decisão e a chance de subir para a elite mexicana

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

05 de maio de 2019 | 04h30

No país onde o mundo se curvou ao seu talento com a camisa 10 da Argentina e onde festejou sua maior glória como jogador, Diego Armando Maradona pode conquistar neste domingo o primeiro título de sua irregular trajetória como treinador. O argentino de 58 anos disputa a partir das 22h (de Brasília) a final do segundo turno do Campeonato Mexicano da Segunda Divisão, com o sonho, bastante possível, de levar o Dorados de Sinaloa ao título da competição e à vaga na elite do país.

O craque do Argentina na conquistada da Copa do Mundo de 1986, disputada no México, precisa da vitória sobre o Atlético San Luís, fora de casa, para ganhar o turno. O jogo de ida, na quinta, foi 1 a 1. No primeiro turno, os dois times também decidiram o caneco, mas Maradona perdeu para o adversário, que joga agora para conquistar o outro turno e ser campeão geral antecipadamente.

O Dorados precisa derrotar o San Luís para ganhar o segundo turno e obter o direito de enfrentar novamente o rival em mais duas partidas pelo título equivalente à Série B, vencida no Brasil em 2018 pelo Fortaleza. Somente o campeão garante o acesso à elite mexicana. "O futebol é cheio de surpresas. Não perdemos há 14 jogos, nosso time tem uma boa base. Não ganhamos a primeira partida, mas estamos vivos", disse Maradona em entrevista na semana.

A segunda chance de ser campeão na carreira motiva Maradona. O argentino teve os primeiros trabalhos como técnico na década de 1990, em clubes argentinos, para depois assumir a seleção do seu país, em 2009. A eliminação nas quartas da Copa da África do Sul, em 2010, encerrou a passagem do ex-meia, que depois teve trabalhos nos Emirados Árabes Unidos sem resultados razoáveis.

O retorno à América Latina foi em setembro do ano passado, graças a um convite vindo da temida cidade de Culiacán, capital da província de Sinaloa. A região mexicana é conhecida por abrigar um dos maiores cartéis mundiais de narcotráfico, do qual o antigo chefe, Joaquín Guzmán, o "El Chapo", cumpre prisão perpétua nos EUA.

O responsável por apostar em Maradona é o dono do Dorados, o empresário Jorge Hank Rhon. O proprietário da maior cadeia mexicana de apostas esportivas já ocupou cargos políticos no país e possui ainda um time na elite, o Tihuana, que enfrentou Corinthians e Palmeiras na Libertadores de 2013.

Maradona foi atraído pelo salário mais alto da segunda divisão (cerca de R$ 4 milhões por ano), mas não encontrou na cidade uma torcida fanática. A grande paixão de Culiacán é o beisebol. Na temporada regular, os jogos do Dorados tiveram lotação no estádio de apenas 27%. Como a cidade é perigosa, Diego quase não sai do hotel onde mora e está sempre acompanhado de seguranças.

O trunfo de Maradona para os bons resultados foi ter motivado o elenco com o seu carisma. No clube, o trocadilho Diego de Sinaloa ganhou força e o uniforme dourado deu lugar em alguns jogos a uma camisa alviceleste, igual à usada pelo ex-craque com sua Argentina. 

Os oito jogadores compatriotas do treinador demonstram idolatria imensa por ele, a ponto de o goleiro Gaspar Sérvio ter tatuado na coxa esquerda o rosto do treinador. "Estou com o Dorados e com meus jogadores até a morte. Nós éramos o últimos da tabela e agora estamos na final. O futebol é cheio de surpresas", afirmou Maradona.

O técnico enfrenta os limites do corpo para conduzir o time mexicano. Em janeiro, ele foi internado na Argentina após um sangramento estomacal. O problema atrasou o retorno a Culiacán depois do feriado de Ano Novo. Maradona teve de parar de cobrar faltas e de jogar futebol em treinos recreativos, como sempre gostou de fazer. A artrose nos joelhos causa dor e o afastou da bola.

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Dirigido por Maradona, time mexicano foi o último da carreira de Guardiola

Espanhol se despediu do futebol como meia do Dorados de Sinaloa, em 2005, após dez partidas

Ciro Campos, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2019 | 04h30

Dirigido atualmente por Diego Maradona, o Dorados de Sinaloa é um clube mais famoso do que vitorioso no futebol mexicano. O time fundado há apenas 16 anos tem entre os principais feitos as contratações de jogadores renomados e não tanto títulos ou conquistas expressivas, pois amarga três temporadas seguidas na segunda divisão.

Entre os astros que tiveram passagem pelo clube estão Pep Guardiola. O técnico do Manchester City encerrou a carreira como meio-campista no Dorados, em 2006. O espanhol chegou a morar inclusive no mesmo hotel que abriga atualmente Maradona. Naquela época o clube era a grande novidade do País, por ser recém-fundado e disputar a divisão de elite.

Guardiola estava com 35 anos e aceitou a proposta feita pelo treinador, o compatriota Juan Lillo, para reforçar o elenco. Ao todo, passou cinco meses no clube e em campo apenas dez vezes antes de se aposentar. Na mesma época o espanhol foi colega de elenco de Loco Abreu, atacante da seleção uruguaia.

Alguns brasileiros também tiveram passagem na história do Dorados de Sinaloa. O mais notável deles foi o atacante Iarley, que defendeu o time mexicano entre 2004 e 2005, após passar pelo Boca Juniors. Em Culiacán ele teve boa passagem, mas logo foi contratado pelo Inter.

A diretoria do Dorados também investiu na contratações de jogadores da seleção mexicana. Um dos primeiros nomes foi o atacante Jared Borgetti, que disputou duas Copas do Mundo pelo país (2002 e 2006). Nascido em Culiacán, ele teve rápida passagem pelo time, em 2004.

Outro nome famoso da seleção mexicana a ter vestido a camisa dourada da equipe foi Cuauhtémoc Blanco, ídolo do futebol mexicano e jogador da seleção nacional em três Mundiais. Perto dos 40 anos, o atacante participou em 2012 da principal conquista do clube de Sinaloa, a Copa México. 

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