Martin Meija/AP
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'Os jogadores foram consultados da maratona de jogos e aceitaram', diz presidente do Sindicato

Partidas acumuladas e jogadas a cada 48 horas sacrificam atletas e obrigam clubes a fazer planejamento de emergência com apoio da fisiologia, nutrição e logística

Toni Assis, especial para O Estadão

22 de abril de 2021 | 10h00

A tarefa não é das mais fáceis. Em vez dos tradicionais treinos e algum descanso, a saída tem sido integrar a fisiologia, a nutrição e a preparação física para facilitar a vida do treinador na hora de definir o time que vai entrar em campo. Esse é o cenário atual do futebol brasileiro, que ainda sofre com os efeitos da pandemia do novo coronavírus mesmo após a retomada das partidas. O panorama não é dos mais tranquilos: jogos a cada 48 horas, times obrigados a fazer rodízio no elenco e o risco ampliado de lesões pela avalanche dos confrontos. Isso tudo sem deixar baixar a competitividade dentro de campo. Em São Paulo, todos os times têm de enfrentar as contusões e os desgastes de seus atletas.

A maioria dos Estaduais no Brasil vem submetendo seus filiados a essa sequência de compromissos visando ajustar o calendário da temporada 2021.  O Paulistão Sicredit 2021, por exemplo, tem de acabar dia 23 de maio. É uma corrida contra o tempo, portanto. O jogador não será poupado. Representantes da Federação Paulista de Futebol, como o ex-jogador Mauro Silva, conversaram com os líderes dos times em São Paulo e eles toparam a maratona. Para as equipes que têm outras competições a cumprir, a falta de datas é um complicador ainda maior. O Palmeiras jogou nesta quarta-feira na Libertadores, em Lima, e na sexta vai atuar pelo Estadual. "Os jogadores foram consultados e aceitaram", revelou o presidente do Sindicato dos Atletas de São Paulo, Rinaldo Martorelli.

Com o aumento da intensidade de disputa nos jogos, um dos problemas que mais chamam a atenção é o cuidado com a preparação física e a saúde dos jogadores. Para o preparador Carlinhos Neves, ex-São Paulo, a comissão técnica precisa traçar um planejamento cuidadoso para administrar seu elenco durante os torneios. "Jogos com intervalos de 48 horas impactam muita coisa. O segundo dia do pós-jogo é quando o atleta está mais desgastado em relação à partida anterior. Você tem de dar a ele, pelo menos, mais 24 horas de descanso. Isso não está acontencendo", afirmou Neves, de 65 anos, ao Estadão.

PRESERVAR ATLETAS

Com passagens vitoriosas por Palmeiras, São Paulo e Atlético-MG, Carlinhos comentou que essa nova realidade vem educando o torcedor a aceitar a escalação de times alternativos. "Veja você que os Estaduais viraram praticamente torneios de aspirantes com muitos times buscando garotos da base para compor o grupo. O que sinto hoje em dia em relação ao torcedor é que existe uma aceitação maior em relação ao rodízio de atletas", comentou o preparador que atualmente mora em Curitiba e já tomou a primeira dose da vacina contra a covid-19.

Para Carlinhos Neves, o avanço da medicina esportiva facilita muito o cuidado que o clube deve ter ao monitorar seus atletas e, por consequência, diminuir o risco de lesões. "Estamos falando de um tempo em que tudo é monitorado. Temos o mapeamento de quanto ele corre, a velocidade de arranque, a desaceleração, quem tem mais facilidade de recuperação de lesões. Tudo é passado em forma de gráfico para que o treinador fique ciente do estado do atleta. Mesmo assim, o rodízio é necessário", explica.

LOGÍSTICA PARA DIMINUIR DESGASTE

Para Marco Aurélio Cunha, executivo de futebol do Avaí, o momento é de superação. Mas uma boa logística pode amenizar o "sofrimento" dos jogadores em meio a covid-19. Ele entende a dificuldade de se jogar de forma competitiva num espaço de intervalo de 48 horas, mas não coloca o desgaste físico como maior problema. "O atleta sofre mais em se deslocar de um lugar para o outro, sofre mais com a longa distância. Nos campeonatos regionais esse problema nem é tão grande, mas em alguns lugares você precisa passar horas dentro de um ônibus. Depende muito da competição e do tempo que se vai percorrer", afirmou o dirigente de 67 anos que também é médico.

Marco Aurélio disse que a maratona de jogos aumenta o risco de lesões, mas pondera que um elenco mais numeroso pode atenuar esse problema. "O atleta não reclama de jogar. O que o incomoda é viagem, mudança de alimentação, de clima, de ambiente, o cansaço disso tudo. Esse envolvimento ao redor do jogo é que desgasta. Óbvio que competindo, o estresse é maior, tem mais esforço, mas acredito que isso é superável."

Coordenador da seleção brasileira feminina de futebol nos Jogos do Rio, em 2016, Marco Aurélio disse que as atletas tiveram que enfrentar uma situação parecida para cumprir as sete partidas do torneio. "A Olimpíada é uma das competições mais exaustivas para os times de futebol. Tivemos 18 inscritos para fazer sete jogos em 17 dias. E ainda tivemos que migrar de um lugar para o outro. No Brasil, jogamos em Manaus, depois no Rio, seguimos para Belo Horizonte. Esses deslocamentos são muito cansativos", exemplificou.

TETRACAMPEÃO: ELENCO ENXUTO EM GOIÂNIA

Em meio ao caos na saúde, o tetracampeão Jorginho encarou o desafio de comandar o Atlético-GO. À frente do clube desde o início do mês, ele vem mantendo o bom ritmo do time no Estadual. O rubro-negro lidera o Grupo A com folga. Até aqui, o time tem oito vitórias e um empate em nove rodadas e um aproveitamento de 92,6%. O clube, que além do Goiano, disputa Sul-Americana e vem optando pelo rodízio no elenco.

"A gente tem um grupo bem enxuto. Completando com alguns jogadores jovens, temos 25 atletas de linha. O elenco é pequeno, mas tem muita qualidade. Estamos alternando os times nas duas competições. O que ajuda é que temos cinco substituições. Aí eu uso essas trocas para ir descansando os jogadores e por aí vai", comentou o treinador.

Mas, se até agora Jorginho conseguiu conciliar equipes diferentes com bons resultados, ele já prevê dificuldades com o afunilamento do Estadual. "Vamos passar para as quartas de final e entraremos com o time principal. Caso a gente consiga um bom resultado, podemos poupar alguns atletas mais desgastados nos jogos seguintes", completou.

SINDICATO CRITICA IMPOSIÇÃO DA CBF

O Sindicato dos Jogadores de São Paulo também foi ouvido pela reportagem do Estadão para comentar sobre a maratona de jogos a que os atletas estão sendo submetidos neste semestre. Rinaldo Martorelli, de 59 anos, presidente da entidade, criticou CBF e Conmebol por impor os seus calendários independentemente do momento crítico da pandemia. Ele disse ainda que as federações e os clubes também têm parcela de culpa por aceitar essas condições.

O fato novo, segundo o dirigente, é que, em reunião entre clubes, sindicato e representantes dos elencos dos times, os atletas souberam de forma antecipada dessa maratona de partidas com curto espaço de intervalo entre os jogos. "Na reunião dos clubes com a federação, eu fiz uma proposta para que os jogadores fossem consultados previamente. Porque caso o jogador não quisesse atuar, ele teria esse direito. Se eles topassem jogar, saberiam o que viria pela frente. Os atletas foram esclarecidos da situação e aceitaram. Da nossa parte foi isso que nós fizemos. Tudo foi feito de forma consciente", disse o presidente do sindicato.

SÃO PAULO 100%

No Campeonato Paulista, o São Paulo passou ileso ao teste de rodízio de elenco na retomada da competição. A equipe do técnico Hernán Crespo obteve 100% nos quatro jogos realizados entre os dias 10 e 16 de abril. Ao superar São Caetano, Red Bull Bragantino, Guarani e Palmeiras, o time do Morumbi disparou na liderança do Grupo B com 19 pontos. Na última terça-feira, na estreia na Libertadores, a equipe bateu o Sporting Cristal no Peru. "Um jogo a cada 48 horas é muito difícil e os jogadores estão de parabéns pelo esforço e pelos resultados conquistados. Temos de tentar manter isso, mas sabemos que a dificuldade é muito grande. Estamos trabalhando, eles estão se empenhando e essa disposição é fundamental", comentou o treinador argentino após a vitória no clássico coma o Palmeiras.

RIVAIS DERRAPAM NA MARATONA

Sem o mesmo desempenho que o rival do Morumbi, o Corinthians vem cumprindo seu papel e lidera o Grupo A do Paulistão de forma isolada. No entanto, o próprio técnico Vagner Mancini é o primeiro a levantar a bandeira de que o time precisa jogar mais. Com duas vitórias, um empate e uma derrota nesses quatro jogos pós-paralisação, o treinador também apostou no descanso do elenco. "O Corinthians quando joga com alma é muito forte. Quando jogar assim, vai ser forte em todos os sentidos", afirmou o treinador.

Já o Palmeiras ainda tenta engrenar na atual temporada. Após perder as finais da Supercopa e da Recopa para o Flamengo e o Defensa Y Justicia-ARG, respectivamente, a situação piorou com o revés no clássico diante do São Paulo em pleno Allianz. O respiro agora, para sair desse clima tenso, é tentar reencontrar o seu futebol no Estadual e na fase de grupos da Libertadores.

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