Neil Hall / EFE
Neil Hall / EFE

Marcações de linha automatizadas substituirão juízes humanos no U.S. Open

Sistema também será usado no Western & Southern Open, o evento organizado pela WTA e ATP nos subúrbios de Cincinnati

Christopher Clarey, New York Times

04 de agosto de 2020 | 08h00

Três semanas de World TeamTennis no resort Greenbrier, na Virgínia Ocidental, enfim chegaram à disputa de um único ponto no domingo, em um campeonato de tênis, após meses de paralisação em razão da pandemia do novo coronavírus. Na última partida da final, o New York Empire e o Chicago Smash conquistaram um championship point simultâneo, por 6-6, no tiebreaker decisivo das duplas femininas.

Sloane Stephens, do Smash, sacou a primeira bola. Coco Vandeweghe, do Empire, fez um forehand ousado e sua rebatida voou fora do alcance de Stephens, aterrissando bem perto da linha.

Não se ouviu o grito do juiz de linha, porque não havia juízes de linha na quadra. Em vez disso, o grito decisivo foi dado eletronicamente e, embora Stephens e o Smash tenham pedido para ver o replay com a marca da bola virtual, apenas confirmaram a marcação da máquina.

O replay mostrou que a rebatida de Vandeweghe caíra na metade de trás da linha de fundo. A equipe Empire venceu por 21 a 20 e a celebração – nada de distanciamento social, abraços coletivos em abundância – podia enfim começar.

O World TeamTennis estava usando o Hawk-Eye Live, um sistema automatizado que não apenas elimina os juízes de linha, mas também acaba com a configuração de desafio agora bastante familiar, na qual os jogadores podem solicitar que as marcações humanas sejam analisadas por um sistema eletrônico.

Com o Hawk-Eye Live, o sistema eletrônico faz todas as marcações, mesmo que haja alguns toques familiares, como as vozes gravadas que gritam “fora”, “falta” ou “pé na linha”.

Quando uma marcação de linha é particularmente difícil, o sistema usa automaticamente uma voz gravada que dá a impressão de mais urgência. Como nos sistemas de GPS, diferentes vozes (e idiomas) podem ser escolhidas. No World TeamTennis, ouviram-se vozes masculinas e femininas durante as partidas.

“Para nós, na verdade, ter uma voz humana dizendo ‘fora’, em vez de um sinal sonoro ou algum outro som, foi uma parte importante para garantir que a sensação do esporte não mudasse”, disse James Japhet, diretor administrativo da Hawk-Eye North America.

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Para nós, na verdade, ter uma voz humana dizendo ‘fora’, em vez de um sinal sonoro ou algum outro som, foi uma parte importante para garantir que a sensação do esporte não mudasse
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James Japhet, diretor administrativo da Hawk-Eye North America

Mas não há dúvida de que o Hawk-Eye Live representa uma grande mudança e ainda este mês ele deve estrear nos torneios de Grand Slam. A Associação de Tênis dos Estados Unidos planeja implantá-lo nas duas maiores quadras do U.S. Open, agendado para 31 de agosto a 13 de setembro. O US Open foi o primeiro evento de Grand Slam a usar a linha eletrônica que possibilita o sistema de desafio, em 2006. Em 2018, tornou-se o primeiro evento de Grand Slam a disponibilizá-lo em todas as suas quadras. Agora vem a próxima fase: o Hawk-Eye passa de mero controle de qualidade e ferramenta de transmissão para a condição de juiz que dá a primeira e a última palavras.

O sistema também será usado no Western & Southern Open, o evento organizado pela WTA e ATP nos subúrbios de Cincinnati que está marcado para a semana anterior ao U.S. Open, no USTA Billie Jean King National Tennis Center, em Nova York.

“Estou feliz de ver o U.S. Open usando o Hawk-Eye Live”, disse Carlos Silva, diretor executivo da World TeamTennis. “O sistema é perfeito? Provavelmente não. É quase perfeito? Sim. É mais perfeito que os humanos? 100% sim”.

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O sistema é perfeito? Provavelmente não. É quase perfeito? Sim. É mais perfeito que os humanos? 100% sim
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Carlos Silva, diretor executivo da World TeamTennis

Ele também tem o potencial de dispensar muitos juízes humanos, uma das razões pelas quais o esporte como um todo demorou a adotar o Hawk-Eye Live. Também existe a preocupação de que isto possa dificultar o desenvolvimento de árbitros de cadeira de qualidade, porque a posição de juiz de linha é, tipicamente, o primeiro passo da carreira.

“Imagino que estou fora de algumas listas de cartões de Natal”, disse Japhet. “Não estamos no negócio de tentar expulsar as pessoas do esporte. Aconteceu de ser um subproduto desse avanço específico da tecnologia. Então, acho que certamente o nosso lado e o lado do esporte se perguntaram se era a coisa certa a se fazer”.

O World TeamTennis decidiu dispensar os juízes de linha e usar o Hawk-Eye Live nos últimos três anos. O tour masculino vem fazendo o mesmo desde 2017, quando o utilizou nas Next Gen ATP Finals, evento experimental para os melhores jogadores com menos de 22 anos. Mas o que está motivando a decisão do US Open é, acima de tudo, a pandemia de coronavírus e a necessidade de manter a saúde e o distanciamento social.

“Pedimos para que todas as áreas funcionais do torneio limitassem o número de pessoas que precisam estar fisicamente no local”, disse Stacey Allaster, diretora de torneios do U.S. Open.

Isso inclui os árbitros e, usando o Hawk-Eye Live em 15 das 17 quadras de jogo, o US Open pôde reduzir drasticamente o número de juízes de linha: de aproximadamente 350 para bem abaixo dos 100. Apenas o Arthur Ashe Stadium e o Louis Armstrong Stadium ainda contam com equipes oficiais de nove juízes que trabalham em turnos de uma hora. As outras quadras terão apenas um árbitro de cadeira, que anunciará o placar depois que o Hawk-Eye Live fizer a marcação e que se concentrará mais em monitorar o comportamento dos jogadores e o ritmo do jogo. Os árbitros não terão permissão para anular as marcações de linha das máquinas, assumindo o controle apenas se o sistema falhar durante a disputa de um ponto e não puder fazer a marcação. Se o sistema de áudio falhar, uma luz presa à cadeira do árbitro indicará quando o Hawk-Eye determinou que foi bola fora.

O sistema não está totalmente livre das falhas. Durante esta temporada do World TeamTennis, Jessica Pegula, do Orlando Storm, e Bernarda Pera, do Washington Kastles, estavam jogando o tiebreaker de uma partida feminina de simples. Quando Pera estava na frente por 2-1, ela acertou uma bola que não foi marcada, mas Pegula e seus companheiros de equipe tinham certeza de que a bola tinha saído.

Eles pediram para ver o replay e, estranhamente, a imagem mostrou que a bola havia caído bem dentro da quadra.

“A gente pensou: esse negócio claramente está errado”, disse Pegula. “O Hawk-Eye claramente estragou tudo. Trocamos de lado e continuamos discutindo até que o juiz recebeu uma ligação de quem trabalha com o Hawk-Eye e disse: ‘Na verdade você está certa, o Hawk-Eye errou. Era bola fora”.

Ela continuou: “Se não tivéssemos brigado, provavelmente não teria acontecido nada, porque o árbitro segue o que Hawk-Eye diz. Então, ocorreram algumas discrepâncias aqui”.

Japhet disse que os funcionários da Hawk-Eye que monitoram o sistema também têm acesso a um feed de transmissão, como ferramenta adicional para essas raras ocasiões. Mas ele disse que o sistema automatizado foi testado e mostrou ter uma precisão de até 2 milímetros.

O ATP Tour, que até agora havia autorizado o uso do Hawk-Eye Live apenas nas Next-Gen Finals, aprovou temporariamente o uso do sistema em todos os eventos ATP por causa da pandemia. O tour das mulheres por enquanto só aprovou seu uso no Western & Southern Open, que será o primeiro evento da WTA a usar o sistema.

Japhet disse que espera um aumento significativo no uso do Hawk-Eye Live nos próximos dois anos, em parte por causa da pandemia e da precisão do sistema, mas também por causa da economia. Embora a operação do sistema seja cara, devido a suas 18 câmeras, 6 delas usadas por um juiz de análise para monitorar os pés na hora dos saques, também é caro abrigar, alimentar, transportar e pagar salários a centenas de juízes de linha.

“Acho que os números se acumulam nos torneios”, disse Japhet. “Eles vão ter uma economia líquida se usarem o sistema”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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